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Archive for Junho, 2007

Após o 25 de Abril de 1974, o País sofreu profundas alterações estruturais nas suas componentes Políticas, Sociais e Econômicas.

Os Portugueses que até ai viviam de um modo acomodado, aproveitaram a Revolução dos Cravos para darem largas à sua, em alguns casos, abusada liberdade, e de uma forma descontrolada procederam a excessos vários como foram as ocupações “selagens” de propriedades rurais, fábricas, instituições bancarias, órgãos de comunicação social e praticamente tudo quanto no entendimento dos “cabecilhas” dos movimentos revolucionários, poderia dar algum lucro directo e ao mesmo tempo a uma nova classe política em formação e que necessitava de status social para se afirmar na sociedade e por outro uma nova classe; os chamados novos ricos.

Nessa época dourada ou se era fascista, ou anti-fascista e portanto assumia-se como democrata todo aquele que batia forte no peito e gritava “eu nunca fui do antigo regime”. Era o antes e o depois de 24 de Abril de 1974, mas o mais estranho era que quase ninguém assumia ter sido apoiante do regime deposto, tendo surgido assim milhares de democratas, anti-fascistas, de aviário, auto-fabricadas da noite para o dia, e que surgia de tudo quanto era canto.

Eu questionava-me como era possível ainda à poucos dias se ter realizado uma enorme manifestação que tinha enchido por completo o Terreiro do Paço, em Lisboa, de alegados seguidores da Acção Nacional Popular de Marcelo Caetano, e agora só ver por todo o lado gritaria contra a reacção, os fascistas, os do antigamente, os da outra senhora, e não encontrar os antigos apoiantes, por outro lado falavam muito de democracia e liberdade mas não salvaguardavam os direitos, liberdades mas não salvaguardavam os direitos, liberdades e garantias dos que pensavam diferente, e bastava por exemplo ter sido artista consagrado e não saber cantar direitinho a “Grandola Vila Morena”, para ser banido e perseguido nesta nova sociedade.

A minha memória recorda nomes que pura e simplesmente de um dia para o outro caíram da fama para o esquecimento, como por exemplo Artur Garcia, António calvário, Amália Rodrigues, Artur Agostinho, Herminia Silva, Rui de Mascarenhas, Henrique Mendes, e tantos outros.

Novas estrelas surgiram no firmamento a reboque da revolução e embarcaram no comboio, de um modo oportunista, para por um lado se governarem e por outro para tentarem lavar algumas magoas do passado.

Esta metamorfose pessoal criou algumas situações ridículas e que se podem considerar, algumas delas, como verdadeiras anedotas, como por exemplo o Professor Silva, do lavradio, que até ao dia 24 de Abril de 1974, era um apoiante doentio e incondicional da A.N.P., e depois virou grande democrata, e muito embora ainda tenha tido direito a algumas honrarias em alguns murais, com ameaças e divulgação publicitária das suas imensas qualidades de “lambe-botas”, viu a sua condição de vira-casacas aprovada e virou militante e activista do Partido Socialista do Concelho do Barreiro, portanto um alegado e ferveroso democrata, adaptando-se perfeitamente ao novo regime.

Dos muitos exemplos que tivemos oportunidade de constatar naquela época épica, não posso deixar de recordar o dono de uma celebre retrosaria na Avenida Joaquim José Fernandes, no Lavradio, situada em frente a uma padaria e na esquina cruzada com a Taberna do “Matateu” cujo domo era abertamente apontado como “Legionário” e ex-informador da Policia Política P.I.D.E./D.G.S., para além do seu filho ser membro e activista da Mocidade Portuguesa. Logo após a Revolução transformou-se num democrata dos sete costados, militante e activista do Partido Comunista Português. Por incrível hoje o filho é o Presidente da Junta de Freguesia do Lavradio, eleito nas listas da C.D.U.

Muitos dos actuais alegados grandes democratas viajaram directamente das escolas da Mocidade Portuguesa, e se bem que não exista nada contra esse facto, pois como estes exemplos existem muitos outros, que nos dias de hoje, passados mais de 30 anos, já quase entraram no rol dos esquecimentos de muitos cidadãos que viveram essa época, por outro lado questiona-se o porque de os oportunistas terem tido direito aos salamaleques e os que foram frontais e verdadeiros hoje vivem nas catacumbas obscuras do ostracismo.

Saber perdoar é realmente uma grande virtude dos homens, ou de alguns homens, mas esquecer não deve ser uma regra para ser seguida, pois quem um dia ajudou a lançar nas masmorras do regime, homens e melhores, só pelo simples facto de pensarem diferente, nunca pode ser alguém confiável, passem os anos que possam vir a passar sobre os acontecimentos.

Quem ontem equipa de azul não pode hoje equipar de verde e vir dizer que era “Sportinguista” desde pequenino.

Eu pessoalmente sei perdoar, algumas vezes na vida, mas nunca mais esqueço!

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O regresso dos militares que estavam colocados nas ex-colonias, trouxe entre outros factos, uma nova realidade em termos de coleccionismo, pois decidiram coleccionar artefactos de guerra, como balas, granadas e outros objectos bélicos, quantas vezes ainda operacionais, e muitas vezes com resultados finais muito trágicos.

Uma manhã, enquanto as donas de casa preparavam o almoço, e os jovens brincavam aguardando a hora da refeição, uma enorme explosão, verificada a menos de 100 metros da minha casa, quebrou a tranqüilidade de toda a zona, e fez trepidar tudo no interior da casa, com  os vidros das janelas a parecer que não agüentavam uma espécie de lufada de ar forte que varreu tudo na sua passagem.

O impacto foi tão grande que desfez por completo o corpo do jovem que brincava com uma granada trazida pelo seu tio, ex-militar. Para além de um cheiro intenso a carne queimada, tipo agridoce, podia ver-se bocados do corpo do jovem colados em todos os edifícios próximos ao local da explosão, o que obrigou os Bombeiros a terem uma intervenção de limpeza à base de jactos de água forte, e mesmo assim muitos anos passados sobre o acontecimento ainda se podiam ver vestígios nos diversos prédios adjacentes.

O Tio do jovem tinha resolvido trazer algumas recordações bélicas, da sua passagem pela guerra colonial, e como não as guardou devidamente o resultado foi aquele trágico acontecimento que ensombrou a Rua Grão Vasco, próximo dos números 26 a 32, e que durante muito tempo nos afastou de brincadeiras no local, sempre com receio de que mais alguma explosão fosse acontecer.

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Para alem das muitas mudanças de mentalidade verificadas imediatamente ao acto revolucionário, uma transformação muito maior da sociedade estava em marcha, e com resultados a eternizarem-se no tempo até aos dias de hoje.

Com a contribuição directa da esquerda, nomeadamente do Partido Comunista Português, vincadamente correia de transmissão dos idéias pró-Sovieticos da época, e a conivência do Partido Socialista, as colonias ultramarinas entraram numa tremenda ebolição pró-independentista, a que ninguém conseguiu colocar travão, ainda mais que logo surgiram palavras de ordem do tipo:

– “Nem mais um Soldado para as Colônias!”

– “Independência ou morte!”

e muitas outros refrões apoiantes da independência.

Com receio da imensa trapalhada que se iria gerar com a reorganização das Colônias, uma vez que nem para organizar o País Continental existiam adequadas condições, algumas figuras como Mário Soares e Almeida Santos do Partido Socialista, resolveram entregar as províncias ultramarinas, como que a “pataco” sem salvaguardarem qualquer interesse econômico ou social tanto para Portugal como para os português que tinham as suas vidas ali organizadas.

Esta tomada de posição verdadeiramente “irresponsável” transformou as Ex-Colonias Portuguesas em verdadeiros satélites dos Soviéticos que ai injectaram armamento e ideologia, com os resultados trágicos de todos conhecidos.

Para Portugal Continental ficou reservada a parte de leão de acolher dezenas de milhares de portugueses espoliados e escorraçados das antigas colônias, quantos deles nascidos já em solo de angola, Moçambique, Guiné ou cabo Verde, S. Príncipe, e que assim eram banidos da sua terra e recambiados para Portugal, na sua maioria com uma mão á frente e outra atrás, deixando para o passado das suas vidas uma memória de realizações e muitos sonhos não concretizados, com uma vida perfeitamente alterada e destruída de um dia para o outro.

O Portugal de 74 não tinha estruturas nem condições políticas, Sociais, Geográficas e Econômicas entre outras para conseguir com o mínimo de condições absorver todos aqueles milhares de Portugueses, a quem pomposamente desde logo batizaram de “retornados”, bem como ou muitos militares que passaram à disponibilidade.

Todo o país sofreu profundas transformações e o Barreiro não foi excepção, na recepção de muitas centenas de “novos” portugueses que vinham tentar adaptar-se ás condições do continente e por seu lado o próprio continente teve que se adaptar a esta nova realidade social e econômica.

Esta nova formula de vida que transformou Portugal de um dia para o outro num centro de acolhimento de desalojados que chegavam carregados de novas culturas e formas de vida, e obviamente como seria também de esperar, de muitos factores nefastos para a sociedade, nomeadamente e em especial, a tóxicodependencia, até então praticamente inexistente em Portugal e que num ápice explodiu em termos de qualidade e quantidade.

Da simples “Maconha – Liamba”, passaram para outras ervas, para o L.S.D. para os ácidos, foi a explosão de uma geração para uma nova realidade em principio popularmente aplicada em termos culturais, mas que por detrás escondia os muitos jovens que fumavam Maconha – Liamba, tomavam os comprimidos de ácidos variados, etc, e a escalada foi rápida e silenciosa, com efeitos terríficos e incontabilizáveis em termos de perdas e custos reais para o País, até aos dias de hoje, pois esta escalada nunca mais teve fim.

De forma alguma se pode acusar os alegados “retornados” pelo facto de que Portugal é um País tão igual a todos os outros em termos de toxicodependencia, pode-se isso sim ter a certeza de que apenas diminuíram o tempo de surgimento e concretização desse processo de uma forma determinante.

Aquela geração, saída daqueles históricos acontecimentos, pode bem apelidar-se sem ofende ninguém, de “Geração da Liamba e dos Ácidos!”

Dos mesmos problemas padeceram quase todos as nações do mundo, e os exemplos são mais do que muitos, e quase todos com um vector coincidente – ocupações militares e posterior retorno – como são exemplos a França com a sua participação militar na Coréia e em outros paises da zona asiática e em alguns paises de África, que com o posterior fim dos conflitos transportou para o continente europeu, através dos regressados imigrantes e desalojados todos os problemas de integração e de toxicodepe4ndencia, construindo uma sociedade multirracial, que muito recentemente deu um ara da sua graça com os conflitos em redor das grandes cidades, em especial com filhos dessa geração, e que neste momento são já descendentes de segundas e terceiras gerações de imigrantes.

Os Estados Unidos que conseguem participar em quase todos os conflitos mundiais, desde a 2ª Guerra Mundial, tiveram nessa época entre outras situações o Vietname, como porta de entrada dos diversos problemas sociais que se verificaram em seguida.

A Espanha com as suas situações em África, em especial em Marrocos e no Saara tiveram o mesmo impacto interno, muito embora a sua chegada à Democracia pós-franquismo seja em termos temporais posterior ao período pós-Salazar/Caetano Português.

A Inglaterra que também coloca militares em várias zonas do globo à longas dezenas de anos, onde a toxicodependencia era já algo quase normal, acabaria por não conseguir evitar a entrada dessa nova alegada cultura na sua quase inexpugnável ilha, a que nem Hitler conseguiu tirar a independência, e hoje é uma nação pejada de problemas desse tipo, como todas as outras, e com uma sociedade multirracial das mais diversificadas do mundo.

No velho continente muitos outros exemplos existem como a Bélgica, a Itália a Holanda a Alemanha, e a pouco e pouco toda a realidade até ai existente se foi alterando gradualmente até chegar-mos aos dias de hoje.

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No caso concreto do Barreiro, na segunda parte dos anos 70 as escolas tornaram-se um alvo apetecível para espalhar uma cultura de alegada modernidade, que vinha acompanhada de novos ritmos musicas, novas modas de vestuário, uma auto-colonização a nível da linguagem, a que a memória desses tempos não mata expressões como: Maningue, Bue, Fixe, Bunda, Frique, Ok; e uma abertura a novas realidades de convívio social com a importância da “curtição” como pólo determinante da sociabilização entre os jovens, quem não se adaptava a estas novas regras de convivência e conduta adotadas pela maioria era logo designado como “careta!”

Nesta época tornou-se perfeitamente normal, “curtir”, ou seja namoriscar com várias garotas ao mesmo tempo, e em especial as mais atualizadas/modernizadas, já iniciavam a utilização dos meios anti-conceptivos para não existirem novidades, por outro lado alteraram-se profundamente os hábitos de decisão e muitas vezes as jovens decidiam por sua livre iniciativa levar um relacionamento afetivo mais além em termos de liberdades, consumando o acto com quem elas decidiam ser o “macho” mais adequado para esse importante passo nas suas vidas, e quantas vezes nós os potenciais “Machos Latinos” ficávamos como que encavacados com alguns convites mais ousados, que a nossa mentalidade da época mandava ter prudência para evitar novidades indesejáveis de formação de famílias de um modo precoce.

Recordo até hoje uma colega de escola, que na melhor oportunidade me convidou para uma ida a sua casa para uma tarde de estudo, que redundou numa tarde de estudos anatômicos e que culminou com a grande satisfação da sua vida, ou seja ter-se tornado mulher comigo.

Eu não escondo que fiquei com o ego de “macho” elevado, mas por outro lado fiquei deveras constrangido, assustado mesmo, com o ocorrido, e ela maravilhada, diria mesmo extasiada como tudo tida decorrido, na verdade eu nessa época já tinha tido aquelas maravilhosas lições da Espanhola, e portanto achava-me o homem mais experiente e conhecedor dos segredos de alcova do mundo. Ela não se conteve e contou para algumas amigas, tendo como resultado imediato um grande assedio por parte de outra sua colega que, ao seu contacto para esse fim, eu recusei, por manifesto medo dos resultados posteriores.

Anos mais tarde aconteceu um envolvimento pessoal com essa pessoa, e ela acabou por confessar que tinha ficado curiosa e frustrada, e só o facto de agora poder concretizar esse seu sonho a podia de alguma forma compensar daqueles dias de tristeza passados nos anos 70, quando freqüentávamos a Escola de santo André na Quinta da Lomba.

Fiquei pasmo com toda aquela situação e ao mesmo tempo certo de que naquela década de 70 as meninas/mulheres eram já bem mais adultas e decididas do que nós no aspecto intimo e pessoal, não sei se seria da influência da “Febre de Sábado de Manhã” do Julio Isidro, de uns anos depois ou da “Febre de Sábado à Noite” do Travolta e da Olívia, que naquela época eram os ícones de ideal aliados á brilhantina as calças de ganga com remendos nos joelhos e boca de sino, e os blusões de cabedal que marcavam a fronteira entre o jovem in que estava atualizado e o boy careta sub-urbano para quem as jovens futuristas nem ousavam olhar, mesmo que fosse o maior “macho latino” do escola ou do bairro.

Eram os tempos do grande inicio da sociedade de consumo das marcas e dos estigmas pelos nomes, modelos de vida e aparências…

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Com a chegada dos jovens das ex-colonias chegaram também ás escolas os novos hábitos do tabaco e da bebida com fartura.

Na bebida misturavam-se refrigerantes para atenuar as largas quantidades de álcool, especialmente encontradas no vodka que se diluía em sumo de laranja em quantidades generosas, de acordo com os resultados a obter, desde que fosse ingerido com fartura.

No tabaco misturavam a “maconha” de um modo que só mesmo o cheiro intenso e de alguma forma adocicado deixava transparecer a preparação para uma passa, que corria de mão em mão dos apreciadores.

Todos os dias víamos colegas de escola ou amigos iniciarem-se no consumo de drogas, e muitas das vezes de um modo descontrolado, dizendo sempre que era bom e que os fazia sentirem-se bem, na maior, “bue da fixes”, com visões boas e no seu entendimento com uma capacidade de raciocínio tremenda, que obviamente não se traduzia por notas por ai além, bem pelo contrario, pois este consumo invariavelmente conduzia em seguida ao absentismo escolar para dar tempo para consumir, consumir cada vez mais em novas categorias de transfiguração das realidades do dia-a-dia.

Um dia, na festa de aniversário do nosso amigo José António, fui conjuntamente com outros amigos, aliciado a provar umas passas de uma substancia que afirmavam era uma verdadeira bomba para nos colocar a ver luzes e outros fenômenos fora do comum acesso de qualquer mortal.

Recordo que após algumas passas, a maioria dos nossos amigos ficaram bem mais contentes e descontraídos, eu diria agitados e soltos, mas tanto eu como o meu amigo Joaquim Núncio, não sentimos qualquer efeito fora do comum, talvez porque na época não tinha-mos o vicio do tabaco, atletas que éramos, ele no futebol e eu no atletismo. Só anos mais tarde, no caso concreto dele na vida militar adquiriu o vicio de fumar, e eu com os jantares e almoços políticos, o meu gosto por uma boa cigarrilha ou um puro, mas felizmente muito de longe em longe.

Comentamos mais tarde a situação, e pensamos que a razão fosse por uma questão de não absorção total do fumo por razões psicológicas, que nos pudessem levar a uma melhor apreciação do produto oferecido, como a oitava maravilha do mundo dos tóxicos e entorpecentes.

Até hoje, por toda a minha vida, nunca mais voltei a testar qualquer substancia que possa causar efeitos secundários do tipo que os nossos colegas e amigos apontavam como obtidos com aquelas substancias por eles consumidas, excepto claro uma boa cerja ou outra bebida do meu agrado, e nem sequer a tão propagandeada pílula magnífica para melhorar a erecção ainda tomei, pois felizmente não tenho necessidade desses artefatos para manter as minhas plenas capacidades e ser e fazer feliz a companhia de ocasião nos diversos aspectos da questão.

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A minha mãe nessa época já tomava medicação diária para o controle da circulação do sangue no organismo de uma forma fluida, problemas de varizes que praticamente sempre a acompanharam desde que eu me lembro, e também para quadros de prevenção de possíveis problemas neurológicos decorrentes da sua propensão para Acidentes Vasculares Cerebrais, o que realmente viria a acontecer anos mais tarde.

Durante uma visita a minha casa, para uma tarde de estudo com outros colegas de turma, o Nelson Lopes, anos mais tarde baptisado de “Fome”, por uma incrível historia sobre o roubo de salsichas num acampamento na Costa da Caparica, descobriu que um dos medicamentos tomados pela minha mãe continha componentes que lhe eram particularmente familiares, relativamente ao seu especial gosto pelo consumo dos chamados “ácidos”, em, especial no decorrer de restas de fim-de-semana.

Posteriormente, fartou-se de me aliciar para eu lhe conseguir arranjar uma caixa desse medicamento, pois não os conseguia adquirir na farmácia sem receituário médico, e obviamente comprados na “candonga” eram bastante mais caros e ainda existia o perigo de alguma detenção policial por compra e uso daquele tipo de “droga”

Como era um individuo que tinha nessa época a mania de que era mais esperto do que todo o mundo, e para quem todo o cidadão vindo de Angola, tal como ele, era um gênio ao cimo da terra, eu resolvi apostar na resolução do assunto de uma forma positiva para os dois lados, ou seja não lhe causar problemas de saúde, e vender-lhe o produto certo para não colocar em risco a sua vida, e ao mesmo tempo retirar algum lucro para mim, para além de servir para dar umas boas risadas.

Decidi efectuar um bom negocio e dessa forma aproveitei uma caixa plástica já vazia do medicamento utilizado pela minha mãe, comprei um bom stok de aspirinas, e vendi ao Nelson uma caixa completa do suposto produto, pelo preço de compra do mesmo, que amigo lhe faria isto, vender o medicamento ao preço de compra…

Realmente esse negocio até deu uma boa nota de retorno para mim, pois a diferença de preço entre os medicamentos era bastante grande, ainda mais que o medicamento nem era na altura subsidiado pelo Estado.

Sei que o Nelson depois de ter pago na integra, no acto de entrega da caixa do medicamento, resolveu andar a vender o mesmo à unidade, comprimido a comprimido, ganhando assim ainda uma boa margem de lucro para si, o que me leva a crer que não tenha de forma alguma ficado prejudicado financeiramente com o negocio. No entanto nunca mais voltou a solicitar-me qualquer outra encomenda do referido medicamento.

Algum tempo mais tarde comentou comigo que tinha recebido muitas reclamações sobre o medicamento, que por certo por ser da Bayer, Laboratório diferente do original, ou por de alguma forma poder estar fora de prazo, não tinha produzido os grande efeitos normalmente obtidos.

Foi a primeira e ultima vez na minha vida que consegui dar em fornecedor de “droga”, embora obviamente por uma boa causa, pois forneci um medicamento analgésico, o tão conhecido paracetamol…

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Um largo grupo de amigos da minha geração derrapou nesta “nefasta” nova realidade sócio-cultural, e se alguns conseguiram de alguma forma acautelar o seu futuro e jogar com a realidade, outros infelizmente entraram nesse túnel escuro e úmido  de onde nunca mais conseguiram sair, continuando a viver muitos deles dentro desse pesadelo como é o caso entre outros do Manelito, hoje um autentico farrapo humano, que vive “vegeta” de esmolas e da arrumação de carros de compras em grandes superfícies comerciais na zona do Barreiro.

A sua situação pessoal é lamentável, e chega ao ponto de muitas vezes, debaixo da constante ressaca, não conseguir sequer distinguir os próprios amigos de infância.

Outros companheiros de juventude, conseguiram gozar a vida à sua maneira e manter posteriormente uma distancia considerável desse sub-mundo, com uma postura correcta e normal perante a sociedade, tendo vivido esse período pós vivencia atribulada de um modo normalíssimo, como é o caso do José António do Nelson Lopes, e também tanto quanto sei; do Victor, que chegou a estar num ponto tal de desprezo por si próprio e pela sua vida que o levava a ficar caído em valetas na via publica, de onde não poucas vezes o resgatamos para o colocar de volta a casa dos seus pais onde habitava, como numa celebre noite de chuva torrencial em que eu e o Joaquim Núncio, o fomos entregar à porta à sua mãe, ensopado até aos ossos e sem dar acordo de si.        

Felizmente que a maioria dos nossos amigos, nem sequer chegou a entrar por esses caminhos, da descoberta das luzes brilhantes e vindas do além diretamente para a imaginação de cada um, dos fumos que davam “Bue de pica”, das passas que deixavam entorpecidos os músculos e os sentimentos, e os únicos vícios que realmente nos levaram a andar muitos dias e noites nas “borgas” foram a loucura pelo futebol, pelas garotas, e por uns bons petiscos acompanhados por umas boas canecas de cerveja bem fresca.

Nenhum de nós pode olvidar que de qualquer forma pertencemos a esta geração construída debaixo dos efeitos da Revolução dos Cravos e da Liamba que chegou em quantidades industriais trazida da África Colonialista, e que tudo isto nos ajudou a formar e nos tornou nos homens quer hoje somos e que quando olhamos para trás realmente como que se nos torna o passado florescente aos nossos olhos, mas pelas melhores razões, de saudades de uma infância e juventude muito bem vivida, apesar de todas as condicionantes que circulavam em nosso redor.     

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A minha integração na nova vivencia, numa sociedade que estava vivenciada como local dormitório da grande capital, que se espraiava no outro lado do rio, e ao mesmo tempo como polo habitacional de apoio a grandes industrias, instaladas localmente, como a Cuf, a Ufa e mais tarde a Fisipe e a Edp, para além da próximidade geográfica com a Lisnave e a Setenave, faziam do Lavradio no inicio dos anos 70, uma apetecivel localidade extruturada para servir de apoio, criando as condições para que os seus habitantes fossem mobilizados a fixar-se no comercio local e nos meios disponiveis para a ocupação dos seus tempos livres.
Desta forma fui morar para um local de pequeno comercio e de bastantes clubes e associativismo, para além das muitas tabernas e ainda, nessa época, alguns espaços livres como a famosa Quinta do Facho, situada como terreno fronteira entre os Concelhos da Moita e do Barreiro, delimitado as localidades do lavradio e da Baixa da Banheira.
A casa dos meus pais ficava precisamente numa das fronteiras, com paisagem para o rio, para a Quinta do Facho e para a Baixa da Banheira, naquela época a Rua Gão Vasco era o importante limite da localidade, a ultima rua antes do descampado, que tinha um aspecto muito diferente do que qualquer pessoa possa hoje imaginar. Por exemplo junto da minha casa, no nº 17, ficava uma vereda que fazia a ligação para a Baixa da Banheira junto de um monte e de um campo de futebol improvisado dentro da propriedade do "Facho". mais tarde tudo foi terraplanado, e tornou-se numa imensa planicie onde foram crescendo predios e um parque que hoje rasga a paisagem até ao rio.
Era um local aprasivel, com bastante espaço livre, onde se podia jogar à bola e ao mesmo tempo praticar outras ocupações como concursos de assalto à fruta no pomar do "Facho", um velho bastante rabugento, dono da propriedade, ou seu caseiro, pois nunca conseguimos entender muito bem o seu papel, embora habita-se a casa grande junto ao tanque redondo, local que era assaltado por nós no verão para banhos, pois mais parecia uma piscina. Essas parodias acabavam sempre por imensas correrias, em fuga ás ameaças da mais terrivel personagem; o "Facho".
Também era utilizada a área util para concursos de tiro com espingarda de pressão de ar ou com dardos.
Duas a três gerações se cruzavam naqueles tempos, por um lado o Cesar, Pimenta, Mário Nuncio, Lisboa, Julio, Idalecio, Manelito, o irmão mais velho do Pedro Super e também o irnãao mais velho do Alfredo, e ainda o Jorge da Amélia e o seu irmão, e tantos outros que se torna dificil aqui inumerar todos, e por outro lado a chamada nossa geração, dividida em uns quantos anos de diferenças etárias, mas que não se faziam sentir por ai além, pois conviviamos todos por igual, com figuras como o Joaquim Nuncio, o Pedro Super, Luis Costa, Alfredo, Chico Aroles, Azevedo, Xicha, Cainan, Victor, José António, João Lagarto, Carlos Peleja, e mais tarde o Macedo e o Quim Avantajado, e tantos outros que a memoria já me consome os nomes.
Eram os tempos da liberdade controlada, mas que para nós não significavam qualquer limitação ás nossas acções.
Tinha-mos obviamente respeito à autoridade mas não deixava-mos de a desafiar sempre que tal era necessário.
Eram os tempos do fumar ás escondidas, nas traseiras da fabrica do sal, local para outras aventuras mais descaradas, como por exemplo as primeiras descobertas sexuais com algumas miudas incautas que por ali se aventuravam junto da rapaziada, e também foi local utilizado para alguns mais aventureiros se iniciarem em praticas homo, com um pobre dum Alentejano que veio passar umas férias a casa de um familiar e se viu envolvido naquelas brincadeiras, na sua maioria inventadas pelo Alfredo.  Mas essas brincadeiras tinham fama e como não era a melhor imagem para os envolvidos, que logo se viam retratados e imediatamente as largaram pois verificaram que não era o mais proprio para um futuro homem, no entanto ainda recordo os concursos para verificar quem tinha o "instrumento pessoal" maior, que eram sempre interrompidas com as brincadeiras do já falecido César, que ameaçava fazer isto e aquilo.
Eram os gtempos das novidades que fizeram dessa época algo muito especial e importante na consolidação da nossa formação pessoal.
Eu cheguei ao Lavradio, já para morar na Rua Grão vasco nº 17 no 1º andar Dtº, num dia 24 de Dezembro de 1972, e desde logo para ir frequentar a 4ª classe do ensino primário, integrado numa turma/classe que tinha aulas no 1º andar da nova escola, que não distava muito da minha casa, pois ficava situada na rua paralela, ai a uns 100 metros de casa em linha recta, inclusivamente nessa época eu conseguia vêr a escola da minha casa.
Ainda recordo que a sala de aulas era no primeiro andar, do lado esquerdo quem olha de frente para a escola, e era a primeira sala.
Para minha grande surpresa no Lavradio ainda se utilizava o velho metedo da reguada e da cana da india, que eu vira em Cinfães do Douro, mas que já desaparecera na Castanheira do Ribatejo, e eu fui confrontado mais uma vez na minha vida, com a utilização dessa aberração educacional.
Avisei desde logo a Senhora Professora de que os metedos de ensino na minha casa eram bem diferentes e de que me recusava a esse tipo de tratamento fosse em que circunstancia fosse, e que inclusivamente existia ordem expressa do meu pai para não me deixar expor a esse tipo de tratamento.
Nesses saudosos tempos o responsável da Escla Nova do lavradio era o Professor Silva, figura que não faltava a uma manifestação, ou reunião da Acção Nacional Popular, (ANP) de Marcelo Caetano, o Partido do Regime, e que depois do 25 de Abril de 1974 se tornou um grande democrata de "aviário" como militante e activista do Partido Socialista, partido onde ainda acho que milita.
No Lavradio essa situação não foi original, pois entre outros, por exemplo o pai do actual Presidente da Junta de Freguesia do Lavradio, antigo proprietário de uma loja de tecidos e linhas, situada junto da esquina fronteira ao "Matateu", de frente para uma velha padaria, era um conhecido agente da PIDE/DGS e depois virou militante activista do Partido Comunista Português.
As boas recordações da Escola do Lavradio foram o pouco tempo que a frequentei, e alguns amigos que por ali fiz, e ainda as aventuras e desventuras do Pombo, que naquela época tinha práticamente o dobro da idade de cada um de nós, mas atendendo à sua "grande inteligencia" continuava a não conseguir passar da 4ª Classe, nem mesmo sei se algum dia a conseguiu completar. 
Também recordo as brincadeiras do Alfredo que constituia o terror do Azevedo, por nós chamado de "Azedo", e que termia só de escutar o nome do Alfredo, e de quem a sua mãe nos fazi delirar de riso, ao deslocar-se à Escola para o acompanhar e fazer queixa ás professoras e aos continuos, dizendo sempre que tudo aquilo era por causa de inveja pois: "o meu menino é o mais bonito da rua!"
Tenho muitas outras boas recordações dos simples 2 meses que por ali passei, em especial do convivio com alguns colegas que ficaram amigos para toda a vida como o Charruadas, Morais, Alfredo, Louvadeus, Beto, e tantos outros.
A unica má recordação será para sempre a da "incompetente" professora que não tinha capacidade de tentar ensinar de outra forma que não fosse aos gritos e com o uso da regua e da cana da india.
Muito poucos dias após a minha chegada à classe, após as férias de natal de 1972, portanto em Janeiro de 1973, a professora resolveu tentar utilizar mais uma vez os seus metedos de ensino, e escolheu a minha pessoa para mais uma tentativa, e se com os outros era sempre bem sucedida com a cana da india, comigo a ocorrencia correu muito mal, pois perante a sua tentativa de me acertar eu segurei na cana, puxei-a, e ela partiu-se, depois foi uma gritaria de fazer parar qualquer multidão, pois ela queria que eu larga-se o que restara do objecto, o que recusei, abandonando a sala de aula. No dia seguinte a minha mãe deslocou-se à escola para saber o que se estava a passar, pois eu alegava que ali não estudava mais. falou com o Professor Silva, que fazia as vezes de Director, e depois com a alegada Professora a qual informou que cada professor tinha os seus metedos de ensino. A minha mãe informou que respeitrava isso mas que lamentava que os seus metedos fossem muito diferentes e que tanto ela como o seu marido não admitiam esse tipo de sistema pedagogico em cima do seu filho. Ela mais uma vez manteve o seu ponto de vista, e que trataria os alunos como muito bem entendesse, ao que a minha mãe lhe esclareceu que caso fosse repetida a actuação do tipo cana da india, o seu marido teria que se deslocar para tratar do assunto á sua maneira o que ela sabia ir ser muito incomodo para todos.
Em casa, obviamente, o meu pai manteve a sua posição habitual sobre o assunto, e disse-me que se eu não conseguisse resolver a situação, ele se deslocaria para a resolver pessoalmente. Foi ai que eu me preparei para a "festa", pois fiquei com a certeza de que teria de utilizar os meus argumentos para resolver a situação, caso a mesma fosse conduzida para aqueles caminhos da violencia pseudo-pedagogica…
E quando na 2ª feira seguinteregressei ás aulas, fui alvo de uma calorosa recepção por parte da Professora que perante toda a turma/classe me acusou de queixinhas e outros adjectivos que eu escutei com o meu habitual modo de estar perante esse tipo de situações, ou seja olhando-a nos olhos, o que ainda a infureceu mais.
No dia seguinte resolveu efectuar mais uma das suas habituais distribuições de reguada, para o que fui convocado. Quando chegou a minha vez de me deslocar à sua secretária, para receber as 5 reguadas com que ela dizia eu ter sido presenteado; ao contrário do que ela esperava eu não me movi do meu lugar, e então ficou um silencio de chumbo na sala, e ela continuava a insistir para que eu me desloca-se à sua secretária, então eu com a maior das calmas do mundo e perante os olhares de toda a turma e dela própria, arrumei a mkinha sacola colocando lá dentro todas as minhas coisas, inclusivamento alguns objectos que ficavam permanentemente na escola, e preparei-me para abandonar a sala.
A professora continuava a insistir e a paginas tantas resolveu entrar pela via do insulto e ofença pessoal; alegando perante a turma/classe que eu era insubordinado, que lhe estava a criar problemas no tipo de ensino que queria ministrar a toda a classe, que lhe estava acriar problemas pessoais e que tinha um pensamento atrasado do tipo de um "porco"!
Ai eu não resisti!
Até hoje eu posso suportar qualquer ofença, agora a palavra "porco" faz-me perder as estribeiras, não sei porque isso acontece, mas sempre foi assim!
Retirei o tinteiro que nessa época se encontrava encaixado nas secretárias de madeira, o mesmo encontrava-se cheio de tinta azul que era utilizada nos aparos, rápidamente fiz pontaria e zás lá foi o tinteiro pelos ares, acertei-lhe sobre a cabeça, ficou toda cheia de tinta azul, tanto ela como a parede e o quadro de apoio, bem como ficaram todas espirradas de tinta as fotos de Marcelo Caetano e Américo Tomaz, que embelezavm todas as salas de aula do país, e em quase todas as repaartições publicas.
Na sala ninguém se moveu, ninguém disse nada, mas depois todos desataram numa imensa risota, pois viram que ela tinha ficado cega com a tinta sobre o rosto e não conseguia vêr nada, e começava a gritar pedindo ajuda.
Eu sai da sala, mas não sem antes lhe dizer alto e bom som um bom grupo de nomes, muito utilizados na giria nortenha, por outro lado informei que a mim nunca maais ela daria qualquer aula, pois não tinha capacidade para isso, terminei mandando-a meter a regua na "cona"!
Foi uma bomba aquela minha actuação!
Sei que o meu pai se deslocou à Escola após eu ter feito o ponto daa situação de todo o ocorrido, e também sei que a senhora Professora não ficou muito bem situada com tudo quanto o meu pai lhe disse, pois sempre que depois dessa conversaa me encontrava, fugia de mim, e em relação ao meu pai realmente não se lhe pode negar a capacidade de improviso, pois numa ida ás comprs ao ex-Pão de Açucar, que ficava situado defronte do Pavilhão do Grupo Desportivo da então Cuf, agora Quimigal, ao avistar a senhora num dos corredores do espaço comercial, não perdeu tempo e disse-lhe alto e bom som: "O meu filho atirou-lhe com um tinteiro, agora eu gostava muito de lhe atirar com outra coisa e acertar-lhe no traseiro!"
Hoje, passados todos estes anos e analisando bem a fisionomia da senhora, posso concluir que por ser possuidora de um razoável traseiro, em brasileiro; bunda, as suas intensões não seriam da pior especie, mas apenas em encontrar algum gozo no local…
Devido a esse incidente, fui auto-proposto para exame da 4ª classe, e preparado pelo Professor Guerra e sua Esposa, que moravam na Estrada Nacional na Baixa da Banheira, sendo o meu processo de admissão a exame como aluno externo autorizado pelo Director Escolar da época Dr. Carlos Monteiro, tendo eu concluido a 4ª classe com a nota final de Muito Bom, como consta do meu diploma,que ainda guardo com muito orgulho, e que nessa época ainda era ornamentado com as cinco quinas e o jovem com a bandeira da Mocidade Portuguesa.
Não resisti à tentação e logo após me ter sido entregue o diploma, fui pessoalmente à escola do Lavradio, tendo tido a oportunidade de quase lhe esfregar com o diploma no rosto, tendo ela mudado de cor baastantes vezes e pedido ajuda para me retirarem de dentro da sala de aula, onde todos os alunos riam a bandeiras da sua cara e de tudo quanto lhe disse nesse dia.
Ainda hoje penso que ela ficou aterrorizada, pensando que eu seria louco ao ponto de ir à sua sala de aula e a agredir, o que obviamente não aconteceu, eu sempre preferi agredir as pessoas que merecem a minha agressão, com palavras, fica muito melhor e acaba por ferir muito mais!
Entretanto a Escola Preparatória Alvaro Velho, no Lavradio, estava à minha espera para iniciar o ensino Preparatório, e as férias eestavam à porta, serima as minhas primeiras férias grandes passadas no Lavradio, junto dos meus novos amigos.
 
Foi nessa época que descobri a minha apetencia natural para o atletismo, pois ao jogar à bola repaarei que corria bem mais rápido do que todos os outros na disputa de bolas lançadas, foi também ai que senti pela primeira vez que tinha potencial para goleador no futebol, mas para isso tinha que trabalhar como ponta de lanç, ou como se dizia nessa época, colocar-me lá na frente de ataque "à mama", ou seja à espera das bolas lançadas, o que não agradva muito à rapaziada que se fartava de trabalhar na recuperação de bolas e eu feito "calaceirão" a aguardar somente que me chegassem aos pés, para facturar.
Foram também as férias do inicio da minha viciante mania da leitura, e não consegui ter calma suficiente para não lêr imensas obras de Louis Stevenson e ao mesmo tempo Enid Bluton e a famosa colecção dos 7, para além de pela primeira vez ter tido contacto com Guerra e Paz e também com Dom Quixote de la Mancha, algumas das minhas obras preferidas até hoje, e também não me esqueço de ter ficado muito confuso com muitas das ocorrências históricas e relatos sobre um País estranho que tinha uma organização muito diferente do meu, no caso concreto de Guerra e Paz.
É também nestas férias que cultivo algumas das grandes amizades que ainda hoje me acompanham como por exemplo o Joaquim José serronha Nuncio, e outros, que parece ter sido ontem que tive o previlegio de os conhecer, mas afinal já passaram mais de 30 anos.
O tempo passa! Estou, estamos todos a ficar velhos…
Eram os tempos dos primeiros grandes jogos de matraquilhos, disputados ali no velho quintal, que já não existe, do Sporting Clube Lavradiense, e também na taberna que ficava ao lado e onde também jogavamos à Laranjinha, era um local optimo pois tanto um jogo como o outro davam para enganar o proprietário, ao meter-mos a mão no local da saida das bolas, conseguia-mos abrir a caixa, e sempre eram uns quantos jogos à borla.
Eram os tempos dos jogos de futebol disputados frente ao café do Luis com a bola a saltar para a relva da Fabrica do Sal, do Camarão, onde ninguém se atrevia a pisar para recuperar a bola, pois o porteiro era uma "fera". Noutras ocasiões os jogos eram disputados dentro da quinta do "Facho" ou junto dos Eucaliptos, onde o Luis Costa jogava sempre à baliza, para não se cansar muito, e para não suar, pois quase sempre aparecia o pai, o Sr. Costa com o lenço na mão para limpar o suor do Luis, e aameaçar que nãao o queria a jogar à bola pois estava (sempre) muito calor, fosse de verão ou de inverno.
Também se realizavam jogos de futebol durante o inicio da noite, no alcatrão da Rua Grão Vasco, onde era sempre necessário estar alguém de vigia para avisar quando vinha a policia, pois naqueles tempos era proibido jogar à bola na via publica, e ainda mais que os nossos grandes desafios não raras vezes eram alvo de chamadas de atenção dos moradores, contemplados com umas boladas nos estores de casa.
Também é de recordar as tropelias feitas na casa do Azevedo – "Azedo" – que como: "menino mais bonito da rua" ficava á janela do r/ch a vêr jogar e arranjava sempre maneira de obrigar a mãe a intervir para nos chamar à atenção, o que também originava no dia seguinte, mais um persiguição por parte do Alfredo, que era realmente, junto com o Pedro Super, os seus grandes amigos de estimação…
As idas ao Parque dos Pardalitos, que tinha sido inaugurado pelo próprio Presidente da República, Américo Tomaz, que nessa altura fazia lembrar o Alberto João jardim da actualidade, pois até para inaugurar, (ou seja cortar a fita), fontanários ele se deslocava. Era um parque onde o pessoal da zona alta do Lavradio não era muito bem recebido, pois os jovens daquela zona e da piscina eram os nossos grandes rivais, conjuntamente com o pessoal das "salinas", que moravam junto do Clube C.R.C.L.
Mas sobretudo era a época da grande rivalidade com os jovens da Baixa da banheira, com quem tinha-mos grandes batalhas de pedrada e de salvas de bolas dos restos do sal da Fabrica de Sal do Camarão, atiradas à fiscada e que pareciam bolas de pedra, com efeitos devastadores quando acertavam numa cabela ou num rosto.
Nesses tempos uma ida à Baixa da Banheira era algo verdadeiramente épico, e com riscos imensos e incalculáveis. Por exemplo para se poder ir ao cinema, tinha-mos que nos deslocar em grupo, pois caso contrário, estaria-mos sugeitos ao risco de uma tareia.
Recordo aindaa uma ida para uma aula na casa do Professor Guerra, em que fui ameaçado, e em que ficaram 3 "magarefes" à minha espera, na Estrada Nacional, defronte da casa do Professor onde me tinha deslocado para assistir a uma aula de preparação para o exame, precisamente no local onde hoje está instalada a sede da sucursal do Futebol Clube Barreirense.
Quando sai, vi que tinha o caminho barrado pelos cavalheiros, e que não poderia seguir directamente para casa, então como bom corredor; resolvi correr e entrar duas ruas mais abaixo e ir cortando caminho cruzando uma rua e outra, tentanto despistar os perseguidores. No entanto acabei por ir sair junto de umas garagens que estavam em construção, e uns quintais, e como continua-se a ser perseguido, resolvi dár a volta tentando despistar as criaturas, mas nada feito, e para piorar ainda mais a situação surgiu o Manelito, perseguido por outro cavalheiro, tendo acabado por ficar encurraalado junto de mim, foi então que eu decidi que se queriam guerra pois iam ter guerra, como ficámos situados junto de um monte de pedras para calcetar a calçada, à portuguesa, demos inicio a um verdadeiro bombardeamento, com tanta sorte que eu com a minha habitual pericia/pontaria parti a cabeça a um dos contendores, sendo desde logo colocado fim na batalha, pois os gritos eram imensos para que se fizesse um intervalo nas hostelidades.
aproveitámos o intervalo na guerra, e fugi-mos a sete pés até ao Lavradio, pensando que poderia ter morto o tipo, tal a quantidade de sangue que vi e ainda o facto de ter ficado postado no chão sem se mexer, e também os gritos lacinantes dos que o acompanhavam.
Dias depois, encontrei a vitima com um valente penso no couro cabeludo, de um dos lados da cabeça, e para minha sorte ficou com tanto receio de mim que fugiu a toda a velocidade, pelo que das duas uma; ou era tão valente que só atacava em grupo, ou ficou com receio de sofrer novo ataque…
Mas as batalhas eram constantes, como constantes eram os ataques à fruta do velho "Facho", e muitas vezes com resultados menos animadores, como por exemplo no dia em que o Mário Nuncio recebeu uma chumbada de sal numa perna e até hoje ainda conserva no seu corpo a marca dessa valentia.
Foram tempos de muitas memorias de saudade, as primeiras memorias que abriam caminho para uma juventude cheia de aventuras que nos aguardava, eram tempos em que a vida que nós consumiamos diariamente não estava contabilizada, e parecia que o nosso tempo nunca mais iria ter fim, e seria brincar, brincar para todo sempre, como se o tempo fosse engolido e não fosse possivel andar de um dia para o outro…
 
Mas a vida não era isso, e o Verão de 1973 acabou com um certo ár de que algo estaria para acontecer num País que vivia de manifestações de apoio a caetano e a oposição,de uma forma inteligente, na Assembleia Nacional, por parte, entre outros de um tribuno fabuloso, que sabia muito bem o que queria para o "Portugal do Futuro" do livro que Spinola tinha escrito, era homem era Francisco Sá Carneiro, e os seus pensamentos e opiniões deixavam o meu pai como que incredulo com o possivel momento do País, em que tudo tinha mudado tanto, ao ponto de admitir tais posições de forma tão frontalç e publica, e ainda mais na Assembleia Nacional.
Eu, ainda um jovem, inconsciente politicamente, que vivia nas nuvens, e imaginava a liberdade como tudo quanto já tinha-mos nesses momento no país e estava a viver, não sabia o que estava reservado para conhecer poucos meses mais tarde, uma outra liberdade, e outra realidade do mesmo país, no mesmo Lavradio que eu agora só via com aqueles olhos.
A realidade do crescimento desordenado do Lavradio, do fim do meio tipo ainda meio-rural onde viviamos. O fim da lei e da ordem em que a autoridade mandava, no fundo  o fim de um ciclo que para muitos durou 48 anos, mas que para mim muito pouco durou, e muito poucos efeitos negativos teve.
Com o inicio do ano escolar, na chamada Escola Preparatória Alvaro Velho, entendi que realmente alguma coisa não batia muito bem naquele País de 1973, e que algo tinha que mudar.
No Refeitório uma mesa corrida era posta diáriamente para os Professores, e os alunos não podiam começar a comer antes que eles fossem servidos, e nós tinha-mos de andar de tabuleiro na mão em busca dos componentes da refeição, enquanto eles eram servidos no local. Tinha que estar tudo no maximo silencio, até parecia uma igreja…
Existiam aulas de Moral e Religião e Educação Musical obrigatórias, o que desde logo me colocou como faltista eximio, era no geral uma organica verdadeiramente militarista a que eu não estava acostumado e a que não iria de forma alguma respeitar.
 
Em Março de 1974, estava já com uma situação de faltas injustificadas, em disciplinas que eram impossiveis para mim de aturar como Moral e Religião e Educação Musical, mais do que consumada para obeter um valente chumbo, ou seja uma "raposa". Nas outras disciplinas eu tinha médias razoáveis, mas como as faltas pesavam para a avaliação, decidi começar a praticar futebol todos os dias no horário escolar, conjuntamente com outro faltista eximio, o Victor.
Não passaram muitos dias que não fosse comunicado, por via de um postal, a minha situação, e fui colocado pelo meu pai em Lisboa, na sua loja, para acabar o ano lectivo, como que estagiário, como paga de tão bom trabalho lectivo…
A juntar a toda esta situação, ainda tive um acto de rebeldia com uma das criaturas que compunham o Conselho Directivo da Escola Alvaro Velho, que foi esbarrar em mim na sala de convivio, derrubou todas as peças de um tabuleiro de um jogo de damas, e se recusava a pedir desculpa ou sequer a apanhar as peças, e ainda queria que eu apanha-se as peças que ela tinha mandado para o chão e lhe pedisse desculpas.
Eu muito raramente assumo pedir desculpa a alguém, e muito menos quando tenho razão, ai eu não peço mesmo desculpas a ninguém.
Esta minha atitude foi entendida como um acto muito grave, ainda mais que acabaram por ser os continuos a apanhar as peças, e eu deixei a criatura no meio do salão a falar sozinha.
Estavamos em Abril de 1974, e a revolução tudo apagou, até eu acabei por vêr o meu ano lectivo salvo, e passei para o 2º Ano do Ensino preparatório, graças ás notas que tinha nas outras disciplinas.
Nessa época foi um divertimento total, pois passau a ver-se uma multidão de garndes democratas, ou melhor de muitos vira-casacas, que antes eram Fascistas e agora se diziam, na sua maioria, Comunistas de longa data.
Foi um aprendizado pessoal sem igual, e se na época tivesse existido uma verdadeira investigação sobre certos pseudo-democratas, alguns partidos politicos tinham ficado com muito menos militantes filiados, e alguns dirigentes nunca teriam ocupado certos cargos, mas como eram os anos da "brasa" tudo valia a pena, em termos de risco, porque a oportunidade era unica, para entrar no grupo da "maralha" e apostar numa nova situação…
 
Hoje, olho para trás no tempo, 33 anos, e pergunto-me como foi possivel terem feito tantas barbaridades debaixo de uma revoluçãao que até diziam ter sido tão linda, a dos cravos, que curiosamente eu considero uma flor de cemiterio, e não terem desparado um tiro, o que também é mentira, mas enfim fica melhor na história, tal como antes ficava bem Amalia, Eusebio e vinho tinto…
Como foi possivel terem feito de um País uma radicalização de um regime, com resultados diluidos no tempo, algo a que só as novas gerações vão sentir realmente na pele, pois nem tudo estava mal no antes do 25 de Abril, e muitas coisas deveriam ter sido aproveitadas.
A independencia das antigas colonias, e a forma como foi processada, e os seus efeitos devastadores no País dos anos 70 e nos anos seguintes, com uma geração a ser atirada para o desemprego, para o inicio do consumo desenfreado de drogas, e tantos outros problemas que dai resultaram.
Para a maioria dos jovens da minha geração, tirando a não ida para a guerra colonial, se parar um pouco e olhar apra trás, resulta numa pergunta de dificil, muito dificil resposta: afinal o que conseguimos conquistar de diferente, que não fosse possivel alcançar de outra forma, como por exemplo foi conquistado pelo povo espanhol?
Posso ferir muitas mentalidades, mas para mim a resposta é NADA!!!
 
Aqueles primeiros 2 anos de Lavradio – Barreiro, serviram para me transformar de menino a menino – homem, e para começar a vêr sociologicamente a transformação de um local puramente rural-industrial, num local muito diferente, com o fim da ruralidade e ao mesmo tempo o inicio do fim da própria industrialização, transformando aquela terra de gente laboriosa e alegre, numa terra dormitório de gente meio triste, meio ensonada, nalguns casos amargurada, e com um dia-a-dia de luta constante, de corrida para o transporte publico, de insegurança, de marginalidade, e em muitos casos de rendição a um futuro culturalmente abjecto em termos sociais.     
 
Seria nesse mundo em inicio de mutação que eu iria viver a minha juventude, conseguindo no entanto não entrar nas ruas e avenidas da droga, da delinquencia juvenil, da marginalidade, a que infelizmente alguns jovens da minha geração não conseguiram fugir, e hoje são farrapos no meio de uma sociedade desumanizada, e na qual eu não me revejo, e chego a perguntar-me:
Eu realmente vivi aqui?
Não existirá outro Lavradio no mapa de Portugal?
Será que eu também não tenho alguma culpa na construção deste Lavradio dos anos 2000?
Acho que não, acho que tudo tentei para pessoalmente contribuir para uma situação bem diversa, mas uma coisa é objectivamente certa:
É a minha geração, são jovens da minha geração, que ontem não conseguiram dár a volta nos caminhos certos da vida, e que hoje estão no mesmo Lavradio geográfico onde um dia de um modo bem diferente também eu vivi!
Garanto que vivi!!!  
          

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Ao longo da minha vida percebi  que os Massapina são como que uma "casta" especial, pois vivem sob um sistema social mais ou menos rigido, fixo num sobrenome – Massapina – que nos conduz a uma estrutura própria tipo nobiliário, como que uma obrigação de ter que efectivar um pedágio especial no sentido de terminar a vida deixando algo que justifique a nossa passagem terrena.
Uns mais do que outros, mas a obra surge sempre, e nas mais variadas áreas de actuação, não fora o nome uma composição dinamica, a vêr:
 
"Massa – sf – mistura de farinha de trigo com um liquido, formando pasta; substancia mole ou pulverizada; o todo cujas partes são nda mesma natureza; totalidade; (Fis.) a quantidade de matéria de um corpo; mistura de cal, areia e água; argamassa; nome de um tipo de vinho fabricado em Massa, provincia da Toscana – Italia; mandioca ralada que, depois de espremida no tipiti, é peneirada antes de ir ao forno, onde pelo cozimento se completa a fabricação da farinha e das diversas espécies de beijus; (Sociol.) multidão; agregado social; que se caracteriza por um estado elementar ou grau infimo de coesão dos indivíduos do grupo – fundamental: (Pet.) base, pasta amorfa ou finalmente cristalina que envolve os fenocristais; pl. aglomeração de gente; o povo; a população".
E em relação à segunda parte do nome:
 
Pina – sf – cada uma das peças que formam a circunferência da roda de um veiculo.
 
Este conjunto de designações conduz a algo como familia unida, familia unida em circulo, circunferencia, e com origem numa cidade da Toscana Italiana, Região realmente com fundadas origens da familia.
A minha mãe conhecedora da minha grande curiosidade em relação à familia, as suas origens e diversas ligações, deixou-me um verdadeiro tesouro inscrito em 3 simples bocados de papel, que quando conjugados ded uma forma armonioza conseguem deixar bem visivel o percurso e ligações de alguns dos ramos da familia.
Estas verdadeiras obras primas foram escritas já no hospital, nos ultimos momentos de lucidez antes de entrar num estado comatoso e vegetativo de onde já não voltou mais a sair, e foram agora recuperadas por mim, por mero acso de dentro de um monte de papeis, fotos e outros documentos pessoais, que me deixou numa caixa e que tem merecido a minha massima atenção.
Para além da sua publicação por imagem a quando da complementação que irei fazer no final com fotos, documentos originais e outras imagens, não poderia de forma alguma deixar de aqui reproduzir na integra tudo quanto ficou expresso pelo seu punho nesses importantes relatos de historia.
Assim, documento nº 1:
 
"Libânia da Conceição Massapina, nascida em Lisboa em 18-03-1920, na Freguesia de S. Sebastião da Pedreira na Rua de campolide nº 21 – r/c, filha de José Francisco Massapina de trinta e nove anos, nascido em Moura, Freguesia de S. João Baptista, casado, profissão funcionário publico, e de Clara da Conceição Massapina de 26 anos, natural de Beja, Freguesia de S. salvador, neta paterna de José Augusto Massapina, Enfermeiro e de Maria Albertina de Sousa Freire Massapina, Enfermeira e neta materna de Francisco Manuel Caeiro Massapina, Professor e de Maria do carmo Vargas.
Tem três filhos vivos, Carlos Alberto, casado,  Alcina, Casada, e José João, casado. Tem um irmão, José Francisco Massapina Junior, casado com Maria Gabriela Pires Vicente Massapina, tem dois filhos Maria Clara Vicente Massapina e José Carlos Vicente Massapina, vivem em Tavira são filhos, netos, e bisnetos de José Augusto Massapina e Maria Albertina Sousa Freire Massapina".
 
Uma explanação rigorosa em termos da familia mais chegada, no entanto nota-se o seu esquecimento relativamente aos outros seus irmãos, só considerou o José Francisco Massapina Junior, talvez devido já à sua memoria debilitada, que se pode registar inclusivamente na sua letra algo tremula e desfazada do seu normal tipo de escrita em termos de firmeza.
No documento nº 2, mais resumido e com a letra ainda mais debilitada, ficam de alguma forma descritas algumas ligações familiares a outros ramos da familia, a vêr:  
 
" Oficinas de ferreiro – Cuba – Joaquim José Massapina (irmão de Avõs Libânia, Rodrigo, José Antonio, Manuel António) Mariana Leitão Abreu, pais de António Maria Massapina, Luisa da Conceição Vargas, esposa, pais de Manuel António Massapina, casado com Isaura dos Anjos Bexiga, pais do falecido Joaquim Bexiga Massapina e de Nelson Bexiga Massapina.
José de Jesus Vargas Massapina, Servola Augusta Janeiro Azevedo (Massapina) pais de Osvaldo Francisco Azevedo Massapina, Ivone Assunção Azevedo Masspina, bisnetos de Joaquim José Massapina.
Viana do Alentejo – Rodrigo Massapina, tio Rodrigo Massapina Gusmão, primo 2º grau de José de Jesus vargas Massapina, Libânia da Conceição Massapina, Manuel António Massapina."
 
Depois surge o 3º  documento, o mais longo e também o mais confuso em termos de entendimento, em alguns dos seus dados, a vêr:
 
"Hospitais de Moura, Clinica da Rainha em Alcobaça, ultimo onde julgo esteve.
Trabalhou com o Dr. Libânio, José Augusto Massapina, Enfermeiro, casado com Maria Albertina de Sousa Freire (Massapina) Enfermeira, pais de José Francisco Massapina, filho mais velho, nasceu em Moura na Freguesia de São João Baptista, foi funcionário publico esteve na Companhia Inglesa dos Telefones, grande politico republicano, amigo dos 1ºs Presidentes da Republica, empregou-se no Ministério da Agricultura, como capataz Agricola, esteve nos postos agrarios de Evora, Silves, castro Verde, tavira, foi promovido a Prático Agricola, faleceu em tavira onde está sepultado. Conhecido, estimado e respeitado por todos, a Provincia do Algarve prestou-lhe várias homenagens por sua competência.
Casou com a sua prima Clara da Conceição Massapina, nascida em Beja, Freguesia de S. Salvador, filha de Francisco Manuel Caeiro Massapina, professor e Maria do Carmo Vargas.
Maria Antónia Massapina, nasceu numa caçada na fronteira de Portugal-Espanha onde sua mãe se encontrava na companhia dos Reis D. Carlos e d. Amélia, de quem era Enfermeira, casou com o Arquitecto Henrique Ferreira da Silva, foram pais de Julia, Maria Albertina, Ermelinda e Isabel Massapina Ferreira da Silva, falecidos, todos não há descendentes.
Libânio Massapina, oficial da marinha casou com D. Laura filha do Médico do navio onde estava a prestar serviço e foi a Africa combater o ‘Gungunhaná’ não existe rigor em relação à sua morte pois existem registos de morte em combate e outros que dizem que faleceu em Colares na sua quinta que foi doada aos padres e D. Laura esteve internada no lar das viuvas dos oficiais da marinha e creio já ter falecido. Não tiveram filhos.
José Francisco Massapina e Clara da Conceição Massapina pais de Libânia da Conceição Massapina que nasceu em Campolide, Freguesia de S. Sebastião da Pedreira a 18-3-1920, seu pai tinha 39 anos e sua mãe 26 quando Libânia nasceu".
 
Depois  desta longa análise, e de posse de outros documentos recolhidos aos mais variados apoios que tenho recebido para conseguir compor esta obra, pude chegar à conclusão que sou membro da 6ª geração de Massapina’s em Portugal, porquanto:
 
O casal de Enfermeiros Italianos eram Massapina pelos dois lados das suas familias, eram portanto primos, e acompanharam a D. Maria Pia de Saboia, futura Rainha de Portugal, eram os meus 5ºs avos, se assim se pode chamar.
Depois surgem os meus 4ºs avos, que eram Massapina pelo lado da mãe, e eram Enfermeiros do rei D. Carlos e da Rainha D. amélia.
Em seguida surgem os meus Trisavós, Maria Antónia Massapina e Henrique Ferreira da Silva.
Dos meus Bisavôs pelo ramo Massapina existem todos os registos, ainda mais que se trata de mais um cruzamento de vários ramos da familia, a saber, por um lado, surge Maria do Carmo Vargas e Francisco Manuel Caeiro Massapina e por outro José Augusto Massapina e Maria Albertina de Sousa Freire Massapina.
Também os meus Avôs eram primos, o José Francisco Massapina e a Clara da Conceição Massapina, que geraram a Libânia da Conceição Massapina, que por sua vez me gerou a mim com um elemento da familia Antunes da Silva.
 
Uma rota de entendimento familiar algo dificil de esclarecer quando se trata dos outros ramos da familia que se vão cruzando ao longo das épocas e diversas gerações.
Mas o mais importante em termos de Massapina, é que se não fora o casamento de D. Maria Pia de Saboia, vinda de Italia, com o futuro Rei de Portugal, e talvez nunca fosse possivel hoje encontrar Massapina’s por todo o Portugal, e também um pouco por todo o Mundo, e já com algumas gerações de realizações e profundas e estruturantes obras com o nosso cunho especial de "casta" multiplicadora de um nome que só por si justifica a passagem terrena.    

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A escola, com professores predestinados para o ensino, era uma raridade no Portugal dos anos 60. Os que tinham nascido realmente com capacidade e gosto pessoal para o ensino, ou morriam ou abandonavam prematuramente esse magistério, como foi o caso particular da minha mãe, obrigada a deixar de ensinar por um marido tipo macho latino, para quem a mulher se fez para estar metida em casa a cuidar da lida domestica e dos filhos, de acordo alias com o que Salazar e Cerejeira preconizavam para a mulher portuguesa daqueles anos 60, ou seja a mulher existia para cuidar do marido e procriar, tão somente.
A prematura morte do meu professor do ensino primário, e a forma tragica como ocorreu, veio a permitir-nos o direito a uma semana de ferias extra, até encontrarem um substituto à altura das exigemcias de uma primeira classe do ensino primário.
Neste caso, a pessoa escolhida foi uma substituta, nada mais nada menos do que a filha do Presidente da Câmara, e para cumulo essa jovem senhora até que tinha uns alegados antecedentes de relacionamento com o meu pai. entrou logo com a estrategia comum, dos professores da epoca, que era reguada para cima das mãos e cana da india nas orelhas.
Eu desde que entrei na escola que recebi uma importante informação do meu pai, "nunca permitas que professor algum te bata, o ensino é para se aprender e reguadas não fazem parte do ensino, nem de qualquer manual de educação escolar", "Para te educar estou cá eu em casa, quando isso estiver para acontecer não permitas e falas comigo de imediato".
Logo no segundo dia de aulas a Senhora programou uma distribuição indiscriminada de reguadas por toda a classe. Quando chegou à minha vez, teve uma surpresa bem grande, eu recusei e abandonei a sala de aula, dizendo-lhe que iria informar o meu pai, e que logo, logo ele viria falar com ela sobre aquele importante assunto educativo. Ela gritou, esperneou, ameaçou, mas eu gritei com ela, arrumei as minhas coisas na mochila e sai fugindo a sete pés da sala, e da escola, escutando ainda ao longe, as suas ameaças de prepotente mestra, que se achava o centro do universo escolar.
Assim, veio a acontecer a visita do meu pai à escola, para falar com a Senhora Professora, campeã das reguadas. E foi em frente da classe toda, à boa maneira do Porto, onde o pai tinha nascido, que ele a informou, alto e bom som, de que não permitia esse tipo de tratamento, ao seu filho, e que qualquer problema era só chamar, que ele viria logo que possivel, e se a frustração dela se prendia com assuntos de calças, ficasse descansada que ele ainda sabia e tinha tempo disponivel para as baixar, era só avisar que ele arranjava alguma disponibilidade para isso, pois ainda não tinha perdido a força na "verga"!
Ela ficou livida, para morrer!
Ninguém na sala entendeu o que quiz dizer, excepto eu e a professora. Dai para a frente acabaram os problemas, e tanto eu como a restante classe fomos olhados de outra forma pela Senhora.
Na verdade nada existe de mais importante na vida de algumas mulheres, do que o tratamento adequado do chamado ponto (G), e nesse assunto o meu pai, acho que era perito, pois nunca escutei nenhuma mulher, com quem eu sabia que tenha tido algum relacionamento, queixar-se!

O Dr. Ramos, era o médico para todo o serviço, naquela terrinha. Vivia num chalet bonito, rodeado de um agradavel jardim, mas não tinha uma vida muito faustosa. Sempre achei estranho como conseguia sobreviver recebendo grande parte dos honorários pagos em galinhas, patos, cebolas, batatas, couves, lenha, etc…
Andava quase sempre a pé, ou numa bicicleta grande de cor preta, com um cesto na frente para colocar o maletim. Embora possuisse um pequeno automovel negro, pouco uso fazia dele, não sei se por preguiça ou economia.
Deslocava-se a todo o lado, sempre que chamado fosse, de verão ou de inverno, num monte ou num vale. Nunca se recusava a visitar um doente, nunca dizia que não, a qualquer hora do dia ou da noite.
Que homem! Que profissional!
Eu, como criança, tinha-o como um dos meus idolos. Quando deixei Cinfães, trouxe um pequeno relatório médico elaborado por ele, em que era tratado por menino. Ainda hoje conservo esse documento, manuscrito pela sua letra bem arredondada e alinhada na forma e conteudo do seu papel timbrado.
Anos mais tarde, conheci uma pessoa que era de Cinfães do Douro, e que por lá passava algumas vezes durante o ano, perguntei: "Como esta o Dr. Ramos?", "Respondeu-me que já tinha morrido, mas com uma idade avançada e que esteve sempre a trabalhar até à data da sua morte". Chorei nesse dia pela perda de um amigo. Um amigo de verdade, alguem que fez parte da minha vida e de quem guardo saudades e boas recordações.
Mesmo as minhas diabruras com a medicação, que eu fazia questão de lançar dentro dos vasos das flores da minha mãe, ou estrategicamente esconder os comprimidos debaixo de alguma gaveta, e que quando eram descobertos quase que davam para abrir uma farmacia, tal a quantidade e variedade, constituia uma prova da sua grande capacidade profissional, e de amizade, pois logo indentificava a causa de uma febre não baixar no termometro ao fim de umas tantas horas, ou a causa de uma outite se manter por mais uns dias, do que o inicialmente previsto por si, em relação à gravidade e ao tratamento que deveria estar a ser feito. E eu nessa altura vivia constantemente entre uma crise febril e outra.
Mas ele sempre ali estava, vigilante e até mesmo camarada nas maroteiras, falando comigo de uma forma pedagogicaa e não recriminadora. Sempre dizia: "Joanito, se não queres ficar bom vais ter muitos problemas, com mais dores nos ouvidos e na garganta, é bem melhor fazer agora o esforço de tomar essa medicação, pois caso contrário; a que terei de utilizar será à base de injecções, e portanto muito pior".
Era verdade, esse tipo de tratamento era um verdadeiro inferno, e por mais de uma vez tive que me submeter a ele, e as injecções de penincilina eram terriveis. Honra lhe seja feita que só as utilizava como ultimo recurso. Era um homem bastante humano, e optimo profissional.

Lá por casa existiu uma epoca em que todos os dias o tema de conversa era invariavelmente a bomba de gasolina existente na entrada da localidade, e a filha do dono, a famosa Lili. Todo o mundo falava da loirona boazuda da bomba de gasolina. Só em minha casa a minha mãe a tratava por outro nome, era conhecida pela "mastronça" da bomba. Feita a tradução à letra e em bom portugues, o que ela queria mesmo dizer era "a puta da bomba".
Raro era o dia em que não havia uma discusão sobre a conduta dessa Senhora, e os relacionamentos dela com o meu pai.
Ele ria, mas com o desenvolvimento da conversa, a coisa acabava sempre mal, com palavras azedas para lá, palavras azedas para cá.
Na verdade alguns amigos do meu pai gozavam com ele sobre o andamento do relacionamento com ela. O velho Antunes nunca se gabava das suas conquistas, mas também não escondia que devia ter um relacionamento mais profundo, do que o simples abastecimento diário de combustivel.
Foi a primeira aventura explicita que constatei na sua vida.
Não há muitos dias, alguém me alertou para o facto de que lá por Cinfães existe um jovem muito parecido com o meu Pai, e que curiosamente é filho da famosa Lili, e mais curioso ainda tema agora a idade aproximada em relação ao tempo desse relacionamento.
Será que existe mais um meio irmão, lá pelas bandas de Cinfães do Douro, e que nós suspeitávamos, mas não tinhamos a certeza?
Depois dessa aventura muitas mais foram observadas por mim, a ultima das quais com uma vizinha de um prédio lateral ao onde ele vivia no Lavradio – Barreiro, em que num belo dia lá fui a casa, e o encontrei a fazer medições à roupa interior da Senhora, sem que a Senhora já tivesse roupa interior sobre o corpo.
Ficou um pouco embaraçado, como sempre ficava, mas no final, também como sempre, também lá arranjou uma desculpa esfarrapada, e sorriu.
Eu nada lhe disse. A vida era dele, e como a referida Senhora até já tinha tentado comigo uma situação identica, mas que eu não aceitei, não me admirei nada do facto, nem da pessoa em causa.
Essa Senhora, quando eu ainda morava em casa dos meus pais, pedia-me constantemente para lhe arranjar uns estores de ripas plásticas, existentes no seu quarto, na sala e na cozinha.
Numa dessas visitas, a ultima, por opção pessoal, em que eu me desloquei, pois passei a recusar a chamada, surgiu na porta principal da casa, simplesmente com roupa interior e camisa de dormir transparente por cima, em acto provocante, e enquanto eu lhe arranjei o estore, esteve deitada na cama, em poses bem intimas, apelando a um outro arranjo mais pessoal. Foi quase directa ao assunto, mas eu delicadamente, agradeci a prestável oferta, e nunca mais a ajudei, nem com os estores nem com as suas necessidades fisiologicas. Mais tarde o meu bom amigo Calado Miguel, seu vizinho, acho que lhe passou a arranjar os estores e também a efectuar uns consertos no restante material pessoal, com necessidade de manutenção. Eu nunca arrisquei efectuar a manutenção pessoal, pois tratava-se de uma pessoa doente, e eu tinha muito receio que lhe surgi-se um ataque, ou o marido, viesse confirmar o arranjo dos estores, ainda mais que o mecanico, parecia ser forte que nem um touro.
Quando o meu pai se mudou para casa da minha irmã, já na recta final da sua vida, ofereceu a essa Senhora duas botijas de gaz da Shell, que não levou na mudança. Deve ter sido uma das formas de pagamento que encontrou para tão bons serviços, e boa vizinhança!
Quando tinha a loja em Lisboa na Rua Sebastião Saraiva Lima, junto da Praça Paiva Couceiro, e da Rua Morais Soares, o velho Antunes, brincava sempre com as "caloteiras". Eu um dia disse-lhe, "umas fulanas estão aqui a dever uma pipa de massa, não acha que qualquer dia não vão aparecer mais para pagar, e o pai vai ficar com o calote".
Respondeu-me da seguinte forma: "Pagam sempre! Tem pago sempre! Quando não pagam com dinheiro pagam em generos!"
Na verdade por mais de uma vez observei a sua forma de cobrança em generos. Quase sempre o pagamento era efectuado na casa dos depositos do petroleo e de outros combustiveis, e ali colocou estrategicamente um banco, provavelmente para servir de apoio enquanto fazia a cobrança em generos.
O mais interessante é que normalmente o pagamento em generos, era sempre feito pelas damas mais chiques do Bairro, aquelas madames por quem todo o mundo acharia que colocaria as mãos no fogo.
Não perdoava a uma santa, o Antunes da Silva, ia a todas, não recusava nenhum desafio. Que homem!
Recordo ainda a triste figura, de uma dessas damas chiques, que por sinal era um pouco deficiente, pois tinha uma protese ou um aparelho em uma das pernas. De resto era um bom naco de mulher, com umas pernas e uns seios de fazer inveja a muitas Senhoras. Um belo dia deslocou-se à loja para falar com o meu pai. Apareceu muito próximo da hora do almoço, tal como sempre acontecia nas ocasiões em que as damas se deslocavam para efectuar os referidos pagamentos, precisamente porque era uma hora mais calma e com menos movimento.
A referida dama entrou, para o "confessionário", passando lá bem mais de uma meia hora voltou a sair, e o seu estado era lamentável, com a saia um pouco descomposta e a blusa que antes era de uma cor totalmente escura, estava agora um pouco manchada de um liquido pastoso de cor esbranquiçada na zona frontal entre os seios. O baton dos seus labios também tinha desaparecido, e o cabelo já estava com outro penteado, agora mais solto. Ela estava bastante atrapalhada, afogueada mesmo, a despedir-se, tentando colocar a sua carteira em posição estrategica para esconder a mancha da blusa, mas tal não foi possivel, pois era bem extensa e de uma cor que dava muito nas vistas, quando em contraste sobre o tom escuro da blusa. Lá acabou por sair muito acabrunhada. Deduzi na altura que por certo teria efectuado o pagamento de algum debito por via de algum sexo, incluindo um pouco de sexo oral, e que veio a ser descuidada durante a ejaculação, dai o estado da sua roupa fosse um pouco mais parecido com uma toalha de um prostibulo.
O meu pai era assim! Nem coxas ou marrecas lhe escapavam, desde que existisse algo de interessante para testar, e não foram poucas as vezes em que encontrei na casa dos depositos de combustivel da loja de Lisboa, algumas meias e mesmo calcinhas femininas, perdidas, prenuncio não de um local para testar roupa, mas um local para a efectivação de outras actividades pessoais bem mais interessantes de realizar sem roupa vestida.

As visitas exporádicas, do meu primo Victor Viana, eram sempre recheadas de grande emoção, e aventuras para contar e recordar. Todo o pessoal em Cinfães do Douro, achava aquele meu primo ou um heroi, tipo actor de fimes de indios e caobois, ou um terrorista a temer. Na realidade o tipo até que era bem aparentado, um gala para as miudas, mas tinha um feitio de se lhe tirar o chapeu, não virava a cara a um bom combate fosse ele de pedrada ou de boxeur.
Numa das suas visitas, apenas porque um meu conhecido me disse algo que a ele não lhe agradou, desatou numa actuação de soco e pontape, tendo virado o individuo do banco do jardim abaixo, e com um soco directo e certeiro deixou o tipo em ko total, com uma arcada deitada abaixo, e o sangue a escorrer em abundancia.
Quando posteriormente foi confrontado pelo meu Tio e Padrinho, sobre as razões do ocorrido, apenas disse que o tipo o estava a chatear a ele e a chatear o "Joanito". O Victor nutria por mim uma grande amizade, um afecto especial, mais do que se eu fosse seu irmão, sendo que era somente meu Primo direito, e fosse quem fosse não se podia aproximar de mim quando ele estava presente. Aquele primo era só para ele brincar e defender, fosse contra quem fosse e em que circunstancias fosse.
Sempre teve uma veia incrivel para o comercio. Lembro ainda hoje uma visita à sua casa, em que me disse que estava a juntar dinheiro para conseguir comprar uma moto. Achei aquilo o maximo, e perguntei-lhe como estava a fazer, pois só com a mesada que o pai lhe dava nunca mais conseguiria comprar a moto que ele dizia querer. Então para meu espanto, mostrou-me na garagem de casa, um imenso armazém de papeis de jornal e de embrulho. Eis a solução por ele encontrada; a venda de papel usado aos farrapeiros. Mas a questão não era assim tão simples, pois o seu instinto empresarial levou-o a uma inovação tecnologica e comercial; o papel de jornal molhado pesava mais e como era vendido ao kg, rendia muito mais. Compunha os fardos para venda, colocando no seu interior uns quantos jornais molhados. Assim aumentava o peso de avaliação de cada fardo e consequentemente os lucros directos da venda.
Extraordinaria a sua capacidade para aumentar lucros.
Outra das suas soluções consistia na venda de brinquedos usados, de que já não gostava, tanto aos vizinhos como aos amigos, e mesmo colegas de escola. Chegava ao ponto de organizar rifas para sortear loiças da mãe, rifas que vendi entere os moradores da vizinhança.
Acho que na realidade nunca chegou a comprar a tal moto, pois deve ter acabado por aplicar o dinheiro em outros investimentos, mas que essa sua veia empresarial era extraordinária, disso não tenho a menor das duvidas.
As suas aventuras, não se ficavam por aqui.
Um dia em Cinfães resolveu acompanhar o pessoal até ás minas, e depois de uma investida mais aprofundada com iluminação a poder de lanternas, resolveu deixar lá dentro, preso, um desgraçado de um colega meu da escola, sem iluminação e num tunel bem distante da saida, e para culminar o castigo ainda resolveu fechar com um arame a porta gradeada de entrada. O tipo borrou-se todo, e nunca mais aparecia, chegámos a pensar que algum animal o tivesse tragado, ou que no emaranhado de tuneis tivesse ficado perdido.
Nós quando explorávamos as minas utilizávamos um sistema infalivel para não nos perder nos tuneis, colocávamos um fio preso da porta de entrada, que ia sendo estendido ao longo do trajecto, e para conseguir retornar era enrrolado até á saida. Nesse dia o Victor fez questão de retirar esse fio no regresso, deixando o infeliz sem qualquer pista para encontrar a saida.
E ninguém o conseguiu demover da sua imensa maldade, pois fomos todos ameaçados de ficariamos também lá presos nos tuneis sem qualquer pista para retornar á saida.
O resultado foi a chegada do infeliz colega ao jardim, já de noite bem cerrada, todo encharcado e sujo de lama e verdete, tremendo como varas verdes. O bom do Primo Victor após contar a aventura ao pessoal que não acompanhou a aventura no local, partiu para sua casa na Trofa, próximo de Santo Tirso, e fui eu quem mais uma vez tive que aguentar a furia do individuo, que embora sabendo perfeitamente que eu não tinha tido directamente culpa no ocorrido, no entanto me culpava pelo simples facto de eu ter um familiar como aquele na minha familia.
Quando retornei a casa, fui informado de que tinha telefonado já da sua casa, para perguntar se seria necessário voltar para retirar o "palerma" da mina, ou se ele já se tinha salvo. Incrivel!
O Primo Victor, era mesmo assim!
As visitas do Victor a minha casa eram sempre acompanhadas pelo pranto da minha mãe, sobre o estado deplorável e caotico em que ficava o meu quarto. Com a sua presença, eram brinquedos por tudo quanto era canto, eram piruetas e saltos mortais de cima do guarda-fatos para cima da cama, chegando mesmo numa dessas piruetas a partir as divisórias inferiores do estrado, enfim um verdadeiro terror de tal forma que eu quando sabia, antecipadamente da sua vinda, escondia os brinquedos que queria preservar, pois ele era especialista em destruição total de tudo quanto fosse brinquedo.
Por outro lado a minha mãe, nessas visitas, sugeria sempre de forma estrategica, uma ida até ao quintal ou o jardim para umas brincadeiras ao ar livre e fora de casa, na tentativa de preservar um pouco a arrumação e o restante material da casa.
Guardo até hoje uma foto tirada no Parque do Palacio de Cristal no Porto, onde decidiu desafiar-me para o acompanhar a vestir uma estatua do jardim, com um casaco seu. Arranjou maneira de incentivar a familia presente a segurar-nos em cima do pedestal da estatua, afirmado que seria uma foto original. Lá conseguiu convencer a familia, e na verdade foi um momento unico nas nossas vidas, vestir uma estatua de nu, com um casaco. E conseguimos, apesar de muito esforço, e de uma casaco descosido, foi possivel levar a efeito a empreitada e concretizar aquele sonho.

Da minha familia, e no que diz respeito a primos o Victor era o 80%, porque o 8% era o Zeca, o meu primo dos "Algarves".
Quando me deslocava ao Algarve de ferias, normalmente só uma vez por ano, porque a distancia era longa e as vias de comunicação, nessa epoca, eram pessimas, e a viagem dava um dia inteiro de caminho bem medido. Essas deslocações eram sempre realizadas nas ferias grandes escolares durante o verão. Nessa epoca tinha-se direito a 3 longos meses de ferias.
Nunca faltava uma visita a casa do Tio Zé e da Tia Gabriela, em Tavira, onde vivia o meu avo, com quem infelizmente pouco convivi, devido ao seu falecimento quando eu tinha ainda tenra idade.
No entanto essas visitas tinham sempre a expectativa de rever os primos Zeca e Gabriela.
Para mim, ela era a mulher mais bonita que eu alguma vez vira ao vivo. Quando me falavam de actrizes ou cantoras bonitas, eu desmentia sempre e rebatia: "voçês dizem isso porque não conhecem a minha prima do Algarve, é a mulher mais bonita e sensual que eu alguma vez vi", eu referia sempre "mulher", embora ela ainda fosse uma jovem naquela epoca, pois eu a achava tão adulta, que para mim não era mais uma simples miuda.
Na realidade ela era muito bonita, tinha um sinal bem sensual no rosto.
Era a minha paixão de menino!
Eu estava respeitosamente apaixonado por aquela "mulher" minha prima! Quando ia de férias ficava horas na toalha a olhar para cada centimetro da sua cara, do seu corpo. Era a minha imagem de mulher perfeita!
O Zeca era especial, não tinha o genio do Victor, mas não se ficava atrás nas aventuras, como quando decidimos ir apanhar caranguejos e outros animais marinhos, para uma zona de salinas abandonadas, bem perto da Praia da Manta Rota, e chegamos a casa num estado deplorável, que ninguém nos reconhecia, tal a quantidade de lodo que traziamos colada ao corpo.
Lembro-me com saudade e muito carinho, a forma como o Tio Zeca, não discutiu, não gritou, apenas disse: "rapazes venham aqui para junto do poço, para tirar-mos essa tralha de cima, com umas boas baldadas de água".
E à força de baldadas de água bem gelada, que lá atirou sobre nós, para nos tirar o lodo de cima, conseguimos sair daquela triste figura. O pior mesmo era a temperatura da água a cair em cima do nosso corpo, um verdadeiro gelo.
Ficámos como novos, e até hoje, que me perdoem todos os outros meus Tios, mas recordo o Tio Zeca como o meu Tio preferido, o meu heroi de infancia, até na profissão o queria seguir, queria ser Engenheiro Agronomo, tal como ele era e seu Pai e meu Avo, fora também.
Durante muitos anos, quando confrontado com a profissão do meu futuro, diria sempre: "Agronomia", e ainda estive para cursar nessa área profissional, em Santarém e posteriormente em Evora, mas apesar de não concretizar a frequencia desse curso, acabei por não desistir totalmente desse sonho de menino.
Embora mantenha esse sonho, sendo por isso que talvez, até hoje, sempre tive um grande amor à terra e aos animais.
O Tio Zeca, já não esta no nosso mundo, já não viaja no trem da vida, mas ficara para sempre inequivocamente guardado na minha memoria, em relação aos momentos que com ele tive o previlegio e o prazer de conviver, em especial uma das ultimas passagens pela sua casa em Tavira. Encontrando-se ele ainda com as suas capacidades praticamente todas intactas, já eu tinha mais de 20 anos e fomos eu, ele e o Zeca, juntos para próximo da Praia da Manta Rota, apanhar bivalves, para fazer um petisco lá na sua casa. Parecia uma criança feliz à nossa beira, parecia aquelas crianças felizes que nos um dia fomos, também à sua beira.
Levou a tarde toda a contar historias da sua juventude enquanto ia escolhendo os bivalves que eram bons, os que deveriam ficar para crescer, ou para reprodução, e lançando os seus conhecimentos técnicos sobre como conhecer machos e femeas, e ainda colocou a sua memoria a funcionar sobre aquele memoravel dia, do banho do balde com águia gelada do poço, para nos tirar o lodo, aquele famoso banho que nos dera anos antes, porque eu e o Zeca tinhamos andado por ali, naquele mesmo local a fazer exactamente o mesmo que naquela tarde.
Brincou muito ao dizer que: "hoje se formos com lodo no corpo, vocês é que ficam encarregados pelas baldadas de água lá do poço…"
Que patuscada fizemos, nesse dia com ele a cozinhar, para mim, para o Zeca, para a minha irmã, para o meu cunhado e para a minha Tia Gabriela!
É e será sempre o meu Tio favorito, aquele Tio inteligente, calmo, terno, um verdadeiro Senhor, um Gentleman, esse José Francisco Massapina Junior, meu Tio para sempre, esteja onde estiver!
E a sua importancia é tão grande para mim como para o Municipio de Tavira, pois decidiram imortalizar a sua pessoa, atribuindo o seu nome a uma nobre arteria daquela localidade algarvia.
E eu sei, porque algo me diz, que ele esta lá em cima na estrela mais cintilante, olhando cá para baixo, e pensando: "… que bom foi ter convivido com o João, aquele meu sobrinho, filho da minha irmã Libania, aquela mesma irmã que me ajudou a criar quando eu era criança, e a nossa mãe Clara faleceu".
Eu sei que ele gostava muito, mas mesmo muito de mim, tanto por certo como eu gostava dele, por isso nunca o esqueço, e me lembro dele tantas e tantas vezes na minha vida. Obrigado Tio Zeca por me ter deixado conviver consigo!

Mas aventuras! Aventuras, eram com o Victor, não que as aventuras fossem de menor gozo com o Zeca, mas porque convivia com esse Primo mais tempo.
De qualquer forma guardo para mim, na minha memoria, estes dois Primos queridos, dos quais restam muito boas e saudosas recordações, até ao dia de hoje.

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A cidade de Bolonha foi fundada no seculo II a.c., e tem como seu maior exlibriz a sua universidade, nada mais, nada menos do que a mais antiga universidade do mundo, tendo por ali passado como estudantes figuras miticas, de entre outros Dante e Petrarca.
A Basilica de São Petronio é a sexta maior igreja do mundo, e constitui outro orgulho dos Bolonheses.
Quem hoje passa por Bolonha fica extasiado com a beleza de alguns dos seus palacios, e com monumentos como a Basilica de São Petronio, a Torre dos Asinelli ou o Palazzo Re Enzo.
Bolonha é a sede da Região Italiana da Emilia-Romana, tem actualmente cerca de 370.000 habitantes, e esta situada na região centro norte de Italia, possuindo uma importancia fundamental nas comunicações terrestres e maritimas da Italia e da Europa, como centro motor das comunicações entre o Norte e o Sul.
Politicamente navega nas ondas da esquerda socialista, sendo no periodo monarquico desde logo um importante centro republicano, dai o facto estranho de no final dos anos 1800, os Massapina serem origináriamente monarquicos, afectos à Casa de Saboia, e estarem divididos entre duas cidades, Turim e Bolonha.

A cidadde de Turim é a capital da Região do Piemonte Italiano, situada junto à extremidade ocidental do Rio Pó. Actualmente é uma das cidades mais importantes de Italia, capital da industria automovel, graças a importantes marcas ali instaladas como a Fiat. Hoje com os seus cerca de 908.000 habitantes, para uma área de 130 km2, pode gabar-se de já ter sido a capital de Italia de 1861, até 1864, curiosamente na época da vinda dos Massapina para Portugal.
Esta coincidencia proporciona a ideia mais do que provável da origem, naquela zona de Italia, de um dos ramos da familia Massapina.
Após 1864, a capital Italiana passou para Florença, e mais tarde retornou a Roma, mas mesmo com esta perca de importancia administrativa, Turim desenvolveu-se e, o incremento economico e industrial nunca mais parou, tornando-se na segunda cidade mais industrial de Italia, logo a seguir a Milão.
Um desses exemplos de grandiosidade industrial, ainda hoje pode ser visto, é o edificio Lingotto, que já foi a maior fabrica de automoveis do mundo e hoje esta transformado num importante espaço cultural da Europa.
Falando de Cultura, a cidade de Turim alberga o famoso "Santo Sudário", para além dos inumeros monumentos e bonitos palacios.
Por outro lado Turim é a sede do meu clube futebolistico do coração, mais conhecido pela "Velha Senhora", no final desta época desportiva a Juventus de Turim, vai passar a ser o unico clube do mundo que detem todos os titulos possiveis, tanto a nivel internacional como nacional em Italia, pois devido a um escandalo desportivo, foi rebaixada para a série B do futebol italiano, mas vai sagrar-se campeã e retornar à série A, tornando-se, de novo, no próximo ano, numa seria candidata ao "Scudetto", que já conquistou inumeras vezes, sendo a equipa detentora do maior numero de titulos de campeã nacional Italiana.
Desde que me conheço que admiro aquele time, e tal como o Sporting Clube de Portugal, eu não encontro explicação para essas minhas opções clubisticas.
É bom também não esquecer, em termos desportivos, que Turim já albergou Jogos Olimpicos, sendo portanto uma Cidade Olimpica na verdadeira razão da palavra, e também, não se pode esquecer que Turim tem no seu outro grande clube o "Torino" uma razão de não mais se esquecer que existe um destino e a historia não se apaga, passem os anos que se passarem sobre algum faacto.
Num desastre de aviação, em que o avião embateu numa montanha já próximo de Turim, dessa forma tragica, o Torino viu desaparecer numa só noite toda a sua equipa de futebol, bem como grande parte da Selecção Nacional Italiana da época. E tudo isto após um jogo contra o Benfica em Lisboa, e na viagem de regresso, e mesmo assim a Italia voltou a sagrar-se Campeã do Mundo de Futebol. Quanto ao Torino tornou-se numa chamada equipa amaldiçoada, e nunca mais ganhou nenhuma competição futebolistica a nivel nacional ou internacional, é assim o Torino, memoria, historia, tradição.

Penso que existiriam pelo menos duas correntes na familia Massapina, os Monarquicos em Turim e os Republicanos em Bolonha.
Até à bem pouco tempo toda a familia em Portugal pensava que as suas origens provinham de Bolonha, eu vim a descobrir que não é bem assim, com factos comprovados, de forma inequivoca pela historia de quatro gerações e também pela origem dos primeiros Massapina em Portugal.
Tenho no entanto que respeitar os estudos feitos pelo meu ilustre amigo e primo Vasco Massapina e também pela minha irmã Alcina, que tem e apresentam argumentos diferentes dos meus, e que cimentam cada vez mais a ideia das duas correntes existentes em Bolonha e Turim, e uma provável terceira ligada a Garibaldi, e a historia de dois irmão fugidos ás revoluções constantes em Italia.
Na realidade apurei que Libanio e Fabiola, eram Monarquicos e trabalhavam para a filha do Principe de Piemonte, Victor Emannuel, que em 1849 foi aclamado Rei da Sardenha e em 1867 foi aclamado Rei de Italia.
A Princesa Maria Pia de Saboia, nasceu em Turim a 16 de Outubro de 1947, e com apenas 7 anos de idade viu falecer a sua mãe a Arquiduquesa D. Maria Adelaide Francisca Reinero Elisabete Clotilde, tendo ficado entregue aos cuidados da Condessa de Vila Marina.
Em 1862, precisamente 100 anos antes do meu nascimento, a Princesa Maria Pia de Saboia, foi pedida em casamento pelo Principe Real de Portugal, D. Luis, tendo o casamento sido realizado por procuração em Turim em 27 de Setembro de 1862, tendo a jovem Princesa, e que posteriormente viria a ser Rainha de Portugal, embarcado para Portugal no dia 29 de Setembro, desse mesmo ano.
A partida para Lisboa foi efectuada no Porto de Genova, e a aventura dos Massapina em Portugal começa ai. Ele, Libanio como Enfermeiro particular da futura rainha de Portugal, e ela, Fabiola como Aia da futura Rainha de Portugal. Embarcaram por certo na Corveta Bartolomeu Dias, onde viajou a Princesa Real, embora esteja registado na historia, para a posteridade, que do Porto de Genova partiram ainda as Corvetas Portuguesas Estefânia e Sagres e as Corvetas Italianas Maria Adelaide, Duque de Genova, Italia, Garibaldi e o Vapor Aviso Anthion, tendo toda esta esquadra chegado a Lisboa no dia 05 de Outubro de 1962, (ironia ser no dia 05 de Outubro, data importante para Portugal e para a própria futura Rainha, anos mais tarde), tendo esta esquadra tido sido aguardada na entrada da barra pelos Vapores de Guerra Lince e Argos e pelos Vapores de Comercio A. Antonia, D. Luis, Açoriano e Torre de Belém.
A Corveta Bartolomeu Dias fundeou em frente de Belém, indo logo a bordo o Principe Real D. Luis, o Rei D. Fernando, o Conselho de Estado e outras altas individualidades da Monarquia Portuguesa daquela época.
A chegada a terra portuguesa só foi oficializada no dia 06 de Outubro, desse ano de 1862, com a recepção a acontecer no Terreiro do Paço, em Lisboa, tendo inclusivamente tido sido construido um pavilhão com a replica do Templo de Hymineu, tendo, segundo reza a historia, nos frizos as seguintes inscrições, feitas por António Feliciano de Castilho:

– Do Lado Norte – Da bela Italia Estrella Soberana sejães bem vinda à Patria Lusitana;

– Do Lado Sul – Filha de Reis Heroes, de Reis Heroes origem em nova Italia os ceus throno D’Amor te Erigem.

A festa foi enorme, com cortejo até à igreja de S. Domingos, onde se procedeu à cerimonia de ratificação do casamento e se cantou um solene "Te Deum", composição do Maestro Manuel Inocencio dos Santos, tendo-se seguido 3 dias de festas, com brilhantes iluminações paradas, fogos de artificio, e recitas de gala no Teatro D. Maria, com o drama histórico em 5 actos de Mendes Leal, "Egas Moniz", e no Teatro S. Carlos, a Opera "Emni" de Verdi.
Esta foi a ultima grande festa de casamento da Monarquia Portuguesa, pois o casamento do Rei D. Carlos, já não teve tanto brilhantismo.

Os Massapina, chegam assim a Portugal no ano de 1862, para se radicarem como Enfermeiro e Aia da futura Rainha D. Maria Pia de Saboia.
Penso que vem dai a obstinação de sempre dos Massapina, em defenderem contra tudo e contra todos, aquilo em que acreditam.
Ou o convite foi muito tentador, ou o seu apego a D. Maria Pia de Saboia seria grande, ou a situação em Italia estava de tal forma degradada em termos de ideologia monarquica para terem aceite tão honroso mas ao mesmo tempo desafiante convite.
É desta forma que os descendentes Massapina em 5ª geração chegam a Portugal, e iniciam a espansão da familia por estas bandas.
Segundo relatos escritos da minha mãe, a que somente agora tive acesso, e a que vou dedicar um unico capitulo; o velho Libanio foi um dos responsáveis pelo seu nome Libania, conjuntamente com um tio do meu avó, portanto tio-avo da minha mãe, também de nome Libanio, que era Oficial da Marinha, e que participou na grande caçada ao heroi africano "Gongunhana" e que veio a falecer como um heroi ao serviço da nação Portuguesa, em combate no alto mar. Em sua Homenagem o avó José Francisco Massapina, decidiu que o primeiro filho a nascer em seguida se chamaria Libanio, só que veio ao mundo uma moça, e dai nasceu a Libania da Conceição Massapina, sendo que Libania é um nome muito pouco comum em Portugal.
Vi um dia uma foto desse heroi de familia, era um homem alto, arruivado, olhos verdes grandes, e de farto bigode, com uma compleição fisica de fazer inveja a qualquer grande atleta. Não deixou, que se tenha conhecimento, descendentes directos.

Em Italia, na idade média, surgem as corporações medievais para fazer oposição ao próprio estado medieval. No final do seculo, a luta social era feroz, na zona de Bolonha, com um comercio e industria fortes inicia-se o despontar dos Sindicatos, e o apróximar do final do regime Monarquico. Curiosamente a Monarquia só termina por referendo, e o ultimo Rei foi Humberto II de Italia, que reinou até 1946, antes dele reinaram Victor Emannuel III, Humberto I e Victor Emannuel II, Pai de D. Maria Pia de Saboia.
O primeiro Presidente de Italia foi Alcide de Gasperi, e teve uma curta presidencia, pois durou tão somente 17 dias, mais precisamente do dia 12 de Junho de 1946 até ao dia 29 de Junho de 1946, a que se seguiu Enrico de Nicola até 11 de Maio de 1948.
A Princesa de Italia e Rainha de Portugal, D. Maria Pia de Saboia, bem como os primeiros Massapina em Portugal, assistiram a factos muito importantes para a historia de Italia, de Portugal e do Mundo, o Regicidio em 01 de Fevereiro de 1908, com a morte do então Rei D. Carlos e do Principe Real D. Luis Filipe, e também a proclamação da Republica em 05 de Outubro de 1910, para além de todas as convulsões sociais que se viviam em Italia e na Europa da época.
Desconheço o fim desses primeiros Massapina, sabe-se no entanto que a Rainha D. Maria Pia de Saboia, veio a falecer na sua terra natal, Turim, em 05 de Julho de 1911, podendo suspeitar-se com alguma probabilidade de veracidade, que esses primeiros Massapina a tenham acompanhado até aos seus ultimos dias, falecendo também em Turim, deixando no entanto a semente aqui em Portugal, pois os seus descendentes, nomeadamente ela ficou como Enfermeira do Rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia, esses eram os massapina da 4ª Geração anterior à minha e deram lugar a Maria Antónia Massapina minha Trisavó pelo lafdo paterno e que foi casada com Henrique Ferreira da Silva, que por sua vez foram os pais da minha Bizavo, Maria Albertina de Sousa Freire Massapina, casada com um primo, meu Bisavo de nome José Augusto Massapina.
O que esta provado e comprovado é a descendencia que ficou em Portugal, de que eu próprio sou um exemplo, para além de várias dezenas de Massapina’s, que embora de vários ramos da familia, todos descendemos do saudoso Libanio e da Fabiola, que um dia embarcaram no Porto de Genova e rumaram a Portugal, tendo-se posteriormente espanhado o nome, Massapina, um pouco por todo o Mundo.

A casa de Saboia, ainda hoje existe, mas os seus membros até 2002, estavam proibidos legalmente de entrar em Italia.
No final dos anos 40, devido ao finalizar da IIª Guerra Mundial, e à confusão que ficou instalada no País com a morte de Mossulini, e a destruição de práticamente todo o sector produtivo, e a desorganização e desunião, que ainda hoje se sente, entre o Norte rico e produtivo e o Sul pobre e deserificado, levou os Americanos a tentarem impor a via da Monarquia para tentar reorganizar o País, tal não se concretizou e na realidade o que veio a acontecer foi o desenvolvimento por toda a Italia da "Mafia", tanto a Norte, como no Centro em Napoles e no Sul em especial na Secilia, onde se tornou um factor de participação social.
O "Sindicato do Crime" organizou-se de tal forma que passou a controlar a economia, criando o seu próprio sistema economico, com impostos próprios e com a sua lei do mais forte a imperar.
Passados tantos anos, a situação sofreu algumas mudanças, mas continua a ser um factor determinante a importancia da "Mafia" e da "Camorra" na vida diária Italiana, pois nada nem ninguém conseguiu até hoje acabar difinitivamente com a importancia das "Familias" na sociedade, e de politicos a simples e anonimos italianos, até mesmo no interior do Vaticano, tudo tem um pouco o dedo da "Mafia" infiltrado.

A importancia do nucleo central da familia na vida social é derminante, e os codigos de honra ainda hoje fazem decidir muito da realidade italiana actual, e das familias de ascendencia italiana no exterior.
A Italia é o País da Europa onde os filhos % mais tarde saiem da casa dos pais, isso demonstra a importancia da familia como centro aglutinador social.
Por outro laado em algumas regiões continua a imperar a tradição de que o filho mais velho tem que um dia tomar conta dos negocios da familia, nem que para isso tenha que largar toda a sua vida profissional do momento.
Por outro lado os italianos da provincia gostam muito de um dia retornar à sua terra natal, e ali acabarem em paz os seus dias, é uma questão de tradição, tal como é uma tradição a questão do codigo de silencio "omerta" e o facto de para se celebrar um acordo valer mais a palavra dada do que mil assinaturas, no entanto se alguém falhar o acordo, fiquem certos de que mais dia menos dia vai correr sangue para se fazer justiça. No entanto existe uma profunda lealdade no aviso de que se vai fazer e justiça, pois um Italiano avisa sempre que vai fazer justiça, existe mesmo a tradição de enviar ao condenado ou infractor uma encomenda contendo um peixe podre enrrolado numas folhas de papel de jornal. Quem recebe esta encomenda fica a saber que esta encomendada justiça para a sua pessoa e inclusivamente a sua mais do que provável morte. Quando ou como vai acontecer, essa resolução, não se sabe, mas que a justiça vai ocorrer isso é certo.
O querer, a vontade de vencer custe o que custar, tem feito do povo Italiano por um lado um martir, mas por outro um povo que joga tudo na sua vida para ganhar sempre, para ser um vencedor, e este lema foi-me transmitido pela minha mãe e também pelo meu avó, que nos seus ensinamentos me deixaram maximas que até hoje não esqueço:

"Luta sempre para ganhar. Luta sempre para seres o primeiro em tudo o que faças na vida, se fores o segundo dá os parabens ao primeiro, porque foi melhor do que tu, e merece ser aplaudido, porque devemos saber ganhar e perder na vida, mas fica certo de que foste o primeiro dos vencidos, o primeiro dos ultimos"

"Nunca tentes a perfeição porque ela não existe, é uma utopia, mas tenta ser o mais perfeito e organizado possivel, em tudo o que fizeres na tua vida"

"Lembra-te sempre que a familia é o centro de tudo, a familia esta sempre primeiro do que tudo. Se decidires algum dia romper com a familia, sabe que vais ser excomungado por essa decisão. Mas constroi outra tão ou mais forte do que a que destruiste, ou perdes-te, mas nunca vivas sem fazeres parte de uma familia. Se ficares isolado até os lobos, durante o dia, te podem comer"

"Escolhe os amigos com cuidado e com lealdade, mas nunca perdoes a traição de alguém que se te dizia teu amigo"

"Procura ter os amigos perto, mas mais perto ainda os inimigos para os poderes vigiar e controlar"

"Todos os anos, efectua uma avaliação daqueles que merecem continuar a acompanhar-te na jornada da vida, e não tenhas qualquer pudor em cortar relações com quem não merece a tua confiança pessoal. Separa os amigos em dois grupos: os com (A) maisculo, que são aqueles por quem deves dar a vida se necessário for, porque eles por certo farão o mesmo por ti. E os outros com (a) minusculo, que não são mais do que conhecidos, e que nunca te podem ser leais na vida, e não merecem que percas muito tempo e recursos"

"Nunca te percas em pormenores na vida, pensa sempre no global, e sempre que te pensarem derrotado, respira fundo, dá um passo atrás para depois no primeiro momento oportuno dares dois passos em frente e venceres com coragem e caracter"

"Nunca percas o teu caracter, a tua personalidade, a tua maneira de ser. Muitos vão tentar ao longo da vida moldar-te aos seus gostos, mas tu para o mal ou para o bem deves sempre, mas sempre, seres tu próprio, e não outra pessoa em que te queiram construir"

"Nunca deixes de fazer justiça, custe o que custar. Na primeira oportunidade vinga o que ficou por resolver antes, e não tenhas medo nem vergonha de seres vingativo, pois sempre que não fizeres justiça o inimigo vai chegar-se a ti, mais forte do que antes e pode atentar contra a tua segurança. Assim que puderes liquida-o como se de uma "cobra" se trata-se, não podes ter piedade ou contemplações, pois a piedade é um braço escondido do medo e da derrota, e não podemos ter medo de nada nem de ninguem"

"Nunca faças nada de cabeça quente, pára uns minutos, pensa, e hage de acordo com o teu raciocinio frio e calculista. Mas procura nunca ser oportunista ou injusto, pois não existem piores defeitos na vida do que a injustiça e o oportunismo"

"Não tenhas piedade de quem te fez mal. Observa todos aqueles que tiveram piedade de alguém, e verás que todos vieram a ser abatidos pelo inimigo por quem tiveram um dia o dom de absolver. Mas faz justiça digna dos homens de caracter, e nunca te esqueças de que quem com fero mata com ferro morre, por isso se tiveres de matar, na hora de matar nunca falhes"

"Nunca tentes fazer algo apressadamente, para não te arrepender mais tarde de ter feito mal. Não te esqueças de que devagar se vai ao longe"

A minha mãe dizia-se Catolica não praticante, mas eu desde tenra idade que me assumi como Ateu, mas se observar tudo quanto me foi dizendo ao longo da vida, bem como o pouco ou muito que o meu avó me transmitiu em termos de ensinamentos, quando eu era ainda criança, fico sempre com duvidas sobre a cristandade dela. Acho que era mais uma pessoa justa na medida certa, e que pecava muitas vezes por ter medo de aplicar a justiça.
Em relação a ele sei que era Republicano dos sete costados, e está escrito na história que Republicanos e pessoal da batina e da biblia debaixo do braço nunca se deram lá muito bem. Por isso em relação a ele fica tudo esclarecido, era um homem justo, rigoroso, bondoso, não caritativo mas amigo de ajudar aqueles que mais necessitavam, e procurava sempre ensinar a pescar e não a dar o peixe directamente, pois dizia que: "… quem vai dando peixes, e não ensina a pescar, um dia não vai ter mais peixes para dar, ou comer, e aquele que os recebe não vai nunca mais aprender a pescar, vamos assim acabar os dois por morrer à fome, eu por não ter mais peixe e ele porque não os sabe apanhar"
Em relação a ela, nunca a vi ir a uma unica missa. Não sei se rezava, sei que era apreciadora do Padre Cruz, e em relação a Fatima e Maria, olhava como qualquer credulo da Igreja Catolica, para o assunto, mas sem andar a fazer viagens de fé ao "supermercado da Cova da Iria", e estava convicta de que Salazar e Cerejeira tinham aproveitado muito bem uma historia antiga, muito bem contada, para deixar os Portugueses a pensar noutros assuntos, que não os problemas concretos do Portugal dos anos 60 como por exemplo a Guerra Colonial, a Emigração para fugir à fome e miseria, a pobreza e analfabetismo do interior esquecido.

De Salazar e Cerejeira e dos anos 60 em Portugal, a decada do meu nascimento, muito existe para falar, mas o importante é analisar e verificar as raizes Italianas dos Massapina, em termos de País de origem e Regiões, e a importancia da origem da sua plena integração na sociedade Portuguesa daquele seculo, e as raizes que deixaram em Portugal e que hoje se estendem um pouco por todo o Mundo, sendo que eu próprio sou hoje um exemplo dessa expansão geografica, iniciada num dia do ano de 1862 no Porto de Genova.

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O passado, quando é bom, nunca morre , nunca fica parado na memória. Quando assim acontece; o passado vive, mudando-se para o presente, e não são os homens que visitam as lembranças; são elas que não nos deixam partir.
Assim me aconteceu naquele dia 16 de Agosto de 2006, quando me desloquei para o Aeroporto Internacional de Recife, naquela tarde de autentico dilúvio, em que a chuva caia do céu como lágrimas a despedirem-se de mim, a despedirem-se da minha vida de duas decadas, e ao mesmo tempo a abençoar uma nova etapa da minha vida que se estava a iniciar.
Aquela viagem à Europa tinha como objectivo a oficialização do meu divorcio do casamento com a Fernanda, a mulher com quem estive casado 18 anos da minha vida, e eu estava ciente desse facto mas como que anestesiado em termos mentais para seguir para esse destino sem observar a metodologia da vida que me conduziu a essa decisão.
Seguia naquele taxi do meu amigo Berg, escutando musica brasileira brega que não era fixada pelo meu cerebro, que se encontrava ocupado com outros assuntos, debaixo de um efeito feiticista, extraordinário, encantador, mágico com uma ilusoria felicidade de consumo. 
A Fernanda seguia no banco traseiro da viatura, tentando criticar a qualidade da musica brega brasileira e ao mesmo tempo buscando valorizar as relações humanas com equilibrio, interacção, socialização no fundo humanização do ser humano.
O nosso relacionamento era especial até ao fim, mesmo na iminencia de se assinar um divorcio, continuavamos a comungar de todas as situações, tal como acontecia nos ultimos 20 anos, e era espantoso que ninguém conseguia acreditar que realmente nos encontrávamos no meio de um processo de divorcio.
Há anos, que eu convivia com a ideia de procurar a felicidade numa qualquer curva da vida e vezes sem conta, cheguei a reduzir a marcha da vida conjugal, mas acabava sempre por seguir adiante, sempre convencido de que a felicidade é igual à saudade e igual ao céu, podia esperar!
Agora não! Agora achava que se tinha desenhado diante de mim, com a naturalidade dos passos que trazem qualquer filho de volta para casa, e sem medos estava decidido a entrar neste mundo de ideias clorofiladas por uma imensa floresta de sonhos, e eu agora, com as coisas feitas ao longo de tantos sonhos desfeitos, agora eu queria encontrar os meus proprios passos de volta a um certo mundo em que eu achava já um dia ter andado, com passos firmes e convictos.
Uma espécie de pátio da memoria, para onde correm todas as boas coisas da vida.
Mas apesar deste encantamento com o mundo maravilhoso que se estava a abrir diante dos meus olhos, eu intimamente sentia naquiele momento que deveria reverter este quadro, resgatar valores e construir sobre os alicerces do passado novos paradigmas voltados para o futuro. No fundo como que manter a matriz mas alterar o perfil.
Nestas minhas meditações estava numa encruzilhada da estrada da vida em que os meus valores, as minhas relações, comigo mesmo e com os outros em meu redor, com a minha história interior conduziram a uma busca do ser, tornando-me incapaz de ser feliz, para simplesmente ter!
Uma cultura de não ser, mas ter!
Quanto mais me afastava de João Pessoa e da Paraiba, e mais me aproximava de Recife e de Pernambuco, mais escutava a sabedoria do meu corpo que se expressava através de sinais interiores de conforto e desconforto.
A minha vida neste ano de 2006, era viver o presente em cada minuto, hora, dia, pois sentia de alguma forma que era o unico momento que tinha.
Estava mais atento do que nunca ao aqui e agora procurando a plenitude de cada momento.
Aceitava todos os momentos que chegavam até mim de uma forma total com um modo especial de apreciar, aprender e deixar passar, fosse o que fosse, pois o presente era para mim como deveria ser, tal qual eu tinha idealizado, não lutava contra o infinito e em vez disso unia-me a ele e ao destino, pois sem saber muito bem como, achava que deveria ser assim.
Sinto que estou mais maduro do que algum dia já estive em toda a minha vida, pois prestava muito mais atenção à vida interior, para dessa forma ser guiado pela intuição e não por interpretações impostas externamente, renunciando assim de forma determinada de aprovações externas com o objectivo de descobrir um valor infinito em mim próprio e com essa percepção atinjir uma grande liberdade, interior e mesmo exterior de mim mesmo.
De uma forma determinada fui substituindo comportamentos motivados por medos, por comportamentos motivados por amor, pois entendi que o medo é um produto da memória, que reside no passado, entendi que ao relembrar-mos tudo quanto nos magoou antes, de forma a assegurar-mos que uma antiga mágoa não se repetirá, estamos acriar auto-defesas pessoais que podem ser bastante positivas, mas que por vezes são muito perigosas para a nossa forma de estar na vida.
No entanto também descobri que se tentar impor o passado ao presente jamais afastarei a ameaça de poder voltar a ser magoado novamente, e a unica forma de enfrentar qualquer ameaça é graças a uma força interior que se torna invulneravel ao medo.
Estava, ou sentia-me, tão forte intimamente que entendi que o mundo físico é apenas um espelho de uma inteligencia mais profunda, organizada de forma invisível de toda a materia e energia, mas que reside em cada um de nós aguardadndo poder ser utilizada e compartilhada de uma forma tão utíl para cada um de nós como para o cosmos.
Somos nós os homens!
O homem como uma célula contribuindo directamente para o estado de bem estar proprio e colectivo.
É neste estado mental que chego naquela tarde de Agosto ao Aeroporto de Recife, para viajar 7 horas rumo a Lisboa, a minha cidade natal, o local do meu inicio de vida, e ao mesmo tempo a 7 horas de distancia do inicio do meu futuro, do meu novo futuro, baseado num presente cheio de dialogos interiores e um passado que envia sinais constantes de que estou a lutar comigo mesmo, lutando contra uma força interior inexplicável…
 
Embarco no voo Recife-Lisboa com a plena convicção de que é a primeira etapa de um novo ciclo da minha vida.
Ao fechar os olhos, passam pela minha memória imagens, difusa e rápidas, muito rápidas do meu passado recente, como se uma bobine de um filme estivesse a ser rebobinada a alta velocidade em sentido contrário ao da rotação de um filme normal. As peliculas vão se sucedendo a uma velocidade enorme, para acabarem por se posicionar na pelicula certa, a pelicula com que se vai reiniciar a projecção que tinha sido interrompida numa determinada cena da minha vida. Sinto como se fosse assistir a uma segunda parte de um filme já visto numa primeira parte, e a angustioa que me assalta é enorme, parece que estou a cair num vazio, quero agarrar-me a paredes que não existem a um corrimão de salvação, mas nada surge, como que caiu num vacuo de espaço sem tempo.
E a bobine anda tão veloz que algumas imagens aparecem turvas e algo passas em termos de coloração de uma realidade já por mim vivida, mas acaba por parar em Castanheira do Ribatejo, ali próximo de Vila Franca de Xira, com a minha imagem na varanda daquele magnifico 3º andar, tipo cobertura, onde os meus pais decidiram viver um novo capitulo das suas vidas, e onde eu fico só, entregue a mim mesmo e a um casal como se fosse um filho unico, usufruindo total e livremente do convivio familiar, pela primeira vez na minha vida.
Olho em volta e vejo flores, muitos vasos de flores, são as plantas da minha mãe, aqueles seres com que tantas vezes eu me deparei escutando as conversas da minha mãe, sim porque ela como que falava com as plantas, sei hoje que falava consigo propria, mas se servia das plantas, de uma "begonia" ou de uma "pata de cavalo" para se auto-questionar. Nem eu sei se seria já o pré-inicio da sua demencia final que a acabou por roubar deste mundo após 3 Avc’s, ou se era inteligencia a mais que lhe permitia falar com seres tão complexos mas tão diferentes dos humanos.
Era uma solitária, rodeada de dezenas de amigos invisiveis com quem convivia diáriamente, como se fossem os seus antigos alunos das escolas onde lecionou.
Para mim são só as flores, as muitas flores da minha mãe, uma colecção imensa de vasos espalhados pela casa, pelas escadas, um pouco por todo o lado, era uma autentica floresta instalada nuns quantos metros quadrados.
A natureza em casa, a vida botanica a substituir a vida fisica do contacto humano, do convivio que faltava a uma mulher sofrida mas orgulhosa da sua forma de vivenciar a vida, a sua grande vida…
Também eu sei que sou um solitário, por vezes rodeado de multidões mas sempre só comigo mesmo, vivendo os meus sonhos, desenvolvendo o meu perfil de profundo auto-conhecedor dos meus limites e metas.
Nunca me vi a falar com plantas, ou animais, para compensar algum momento de maior necessidade de deixar transbordar a minha interioridade, mas o meu amor pelos seres vivos foi sempre algo que me cativou, e agora sentia que essa casa cheia de plantas, uma floresta caseira, servia para compensar a primeira casa sem quintal exterior em que morei.
São circunstancias da vida que eu começava a entender e aprofundar, e a tentar de alguma forma conseguir compensar com pequenas realizações simples como uma ida ao deposito da fruta, junto da linha ferroviária que liga Lisboa ao Porto. Um local que se tornou alvo de peregrinação semanal para compra de fruta e legumes, um local onde poderia sentir de um modo realistico a forma como a natureza tem capacidades estraordinárias de se reproduzir e multiplicar em diversas e perfumadas especies vegetais, uma capacidade só possivel ao ser humano, embora de um modo mais complexo e diverso. Um modo que a capacidade do próprio homem só agora começa a conseguir entender em todas as suas vertentes, como por exemplo a composição e multiplicação de celulas e outras justificativas para se entender na totalidade como realmente somos.
A nalise dessas visitas fruticolas faz-me hoje reflectir num pensamento de "Epícteto" que diz:
"Não são as circunstancias que nos fazem infelizes, mas a maneira como pensamos a realidade";
e realmente o que eu procurava compensar era a falta dos castanheiros, das videiras e pereitras da quinta grande de Cinfães com que convivera toda a minha infância mais remota, no fundo a ligação a todo um mundo que tinha ficado para trás na minha vida, e como uma lição de futuro me fazia agora entender a grande vantagem de todos esses elementos da natureza, para com a propria vida de todos nós, uma lição de vida que nos transmitiam os seres botanicos, mas com outro tipo de conscientização o que a meus olhos ainda agrava mais a vergonha das muitas guerras dos humanos.
E ali estava eu numa nova batalha da minha vida, sem amigos para me apoiarem nestes primeiros dias de convivencia com um novo habitat, mas com uma professora a dizer-me estou aqui, sou amiga de verdade, podes contar comigo para te apoiar a entrar neste novo mundo, vais conseguir…
A Maria Helena Aires da Silva Domingues, foi a mais extraordinária Professora que passou pela minha vida até hoje. Que me perdoem todas as outras que também muito estimo e venero, mas a Maria Helena foi uma verdade ira pedagoga que no inicio dos anos 70 era uma lufada de ar fresco no meio do bafiento sistema de ensino que existia em Portugal.
Era mais do que uma Professora, era uma educadora, uma visionária do novo sistema de ensino, uma investigadora da mente infântil e das suas várias vertentes e capacidades em termos de projecção do futuro, e foi graças a ela que eu aprendi a gostar de Arte, de Musica, de observar de outra forma a natureza, as suas cores e cheiros, e tantos outros prazeres da vida e do conhecimento!
Eu estava apaixonado, no bom sentido, por essa mulher, que soube cativar o meu interior mais recondito e me moldou de alguma forma, algumas caracteristicas, para o ser que hoje sou.
Não sei onde anda hoje essa mulher maravilhosa, nem sei se ainda é vida, mas gostava muito que o fosse, pois algo que é fabuloso é imortal, e para mim ela será sempre imortal, e esteja onde estiver sabe que um pouco do meu coração tem um cantinho só dela lá guardado.
Qual seria a Professora que conseguia manter correspondencia postal com um ex-aluno? Só mesmo ela, para naquele ano de 1973, me escrever a relatar a actualidade de Castanheira do Ribatejo e a manter a ligação com os Colegas ed Amigos que por ali deixei, e que consegui ir fazendo ao longo do pouco tempo que por ali residi.
Dessas cartas guardo intactas as páginas e até os envelopes, ainda com o perfume das suas mãos. 
São as cartas que confirmam as diabruras do meu amigo Angêlo, que tantas e tantas aventuras comigo compartilhou, e se ele era um verdadeiro "terrorista" no bom sentido claro, mas superando em muito o meu Primo Victor.
E que dizer do José João Bailão, que era um sortudo em tudo o que era rifa ou sorteio.
Muitos outros amigos ficaram na minha memoria, não por nomes mas por rostos, os rostos que agora passam na minha memoria e que posso recordar com mais exactidão nas fotos que ainda religiosamente guardo, de forma a manter uma união que eu nunca sentira numa turma, e que contribuiu decisivamente para eu gostar até hoje de trabalhar em equipa.
Realmente guardei umas 2 ou 3 cartas que a Professora Maria Helena Domingues me escreveu, porque ela ficou na minha memoria, e também porque com ela iniciei um vicio que ainda hoje guardo. Eu mantenho o vicio de não me despedir de quem gosto de verdade. Quando parti de Castanheira do Ribatejo, para o Lavradio, não fui capaz de dizer adeus à Mestra Maria Helena nem tão pouco aos meus colegas e amigos, e prepositadamente deixei ficar, como que esquecido,um caderno com ela, como que para manter uma ultima ligação intima entre a Mestra e o Aluno.
Acho que um dia teria gostado muito de ter aulas com a minha mãe, porque algo no meu coração me dizia que a Maria Helena era uma Professora à imagem da Libania, que quando se deslocava aos locais onde tinha lecionado era recebida com flores, beijos, lagrimas de saudade e respeito, alguém que passa pelas vidas dos alunos para ensinar mas sobretudo para marcar no bom sentido os seus sentimentos e a sua personalidade.
Da minha passagem por Castanheira do Ribatejo guardo boas e saudosas memorias de convivios, de passeios escolares por Lisboa, Sintra, Ericeira, Alcobaça, Batalha, Santarém, um pouco por todo o lado onde fosse util ir beber conhecimentos.
Guardo também as recordações dos primeiros beijos trocados com namoradas de ocasião, que até me faziam esperar à porta da catequese para as poder acompanhar a casa.
E a recordação de uma última tentativa para entender o funcionamento e me integrar na Igreja Catolica, mas uma tentativa muito mal sucedida, pois os anos passavam, o conhecimento pessoal aumentava e com ele a certeza de que dogmas, ritos e outros artificios não eram o meu caminho, e desta feita nem para estar com as miudas eu me sugeitava ás ladainhas do Padre, que até era boa pessoa, mas quando entrava nos fenomenos da Virgem Maria e outros acontecimentos muito pouco factuais, tudo na minha concepção de vida vinha ao de cima, e não acreditava e história, como ainda hoje não acredito.
Eu sou um homem da explosão do cosmos…
Ainda mais sentida é a minha filosofia de que quem não se consegue entender a si próprio e se entrega nas mãos de dogmas, ficções, mitos, nunca conseguira perceber com toda a propriedade a razão de ter sido gerado/transformado, por agregação de celulas, e estar no mundo a cumprir a sua missão de humano, ajudando a modificar algo que não se cria, não se perde mas se vai transformando ao longo dos tempos, e atrás de tempos tempos vêem!… 
Recordo também as brincadeiras com o Angelo e o resto do pessoal, nas nossas explorações aos montes, nas recolhas de fosseis que faziam de nós verdadeiros arqueologos e cientistas.
Eu próprio tinha em casa uma imensa colecção de pedras, fosseis e todo o genero de imaginários minerais, que me faziam sentir um dos seres mais ricos e poderosos do mundo.
As brincadeiras passavam por essas escaladas de exploração, por acampamentos diários com direito a lanche no cimo do alto monte, e também por cmpeonatos de berlinde e jogo do prego, para além de tardes de jogo de baralho quando a escola permitia e as aulas de recuperação dadas na marquise da vizinha do Angêlo deixavam algum tempo livre.
Das outras muitas recordações não podia deixar de salientar as primeiras viagens de comboio de Vila Franca de Xira para Lisboa, com a possibilidade de observar o mágnifico parque que existia junto da Estação Ferroviaria, voltado para o Rio Tejo, com a imagem das barracas dos pescadores e os seus frageis barcos ali parados, balançando ao sabor da corrente, com a ponte construindo como que um fundo bucolico.
também os meus primeiros convivios pessoais com a grande cidade, com Lisboa, e a descoberta da zona de santa Apolonia, as visitas ao Museu Militar, apenas para agradar à minha imaginação infântil, que com toda a coriosidade me faziam voar para épocas de batalhas, herois históricos, e a beleza das mágnificas pinturas existentes nas imensas salas, eu não me cansava de visitar e revisitar aquele museu.
E que dizer das minhas primeiras viagens de barco para o Barreiro, que naquela época porque eram espaçadas no tempo, eram agradaveis, ainda mais que um dos barcos que efectuava a travessia, o Evora, era uma embarcação muito tipica e ao mesmo tempo desconfortável, pois a maioria da sua área de ocupação para passageiros era descoberta e livre para os ventos, e ao mesmo tempo os horários eram diminutos, e a viagem durava 45 a 50 minutos, mas contando ainda com o tempo de atracar e desatracar, gastava-se uma hora bem medida.
Quando não se conseguia apanhar o barco no horário certo, tinha que se esperar por um novo horário longo tempo, mas para mim tudo aquilo constituia uma aventura, que colocada nas devidas proporções até me parecia uma viagem de alto mar…
A saida da Castanheira do Ribatejo rumo ao Lavradio junto do Barreiro, foi menos dolorosa do que a anterior vinda de Cinfães do Douro, mas por outro lado mais sentida em termos de receio sobre todo o desconhecido que iria encontrar. No entanto eu já era outra pessoa, mais confiante do que 2 anos antes, mais convicta sobre a realidade da vida e certo de que existe sempre um amanhã, e o vaalor do risco do desconhecido quase sempre vale a oportunidade de o desvendar.
Quando fomos escolher a casa no Lavradio, senti interiormente um prazer enorme em avançar para um local que mais parecia, naqueles saudosos anos 70, uma cidade de "Lego" muito organizadinha, ordeira, convidativa a ficar, e realmente por ali fiquei muitos anos a residir, e a construir uma das mais importantes etapas da minha vida pessoal, social e politica.   
 

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Quando todos os Domingos de Pascoa era tradição, imposta pelo meu pai, a alvorada ainda de madrugada, para um dia de passeio com almoço e jantar fora de casa, e regresso já noite cerrada, eu como criança achava que aquela atitude era ditatorial, pois levantar cedo, ainda mais num Domingo era um verdadeiro afrontamento atentatório aos direitos do sono, ainda mais num dia em que se podia dormir até mais tarde e brincar todo o santo dia com os amigos. Essa situação só era compensada, mais tarde, com as sempre interessantes visitas a casa de familiares ou amigos que moravam no Porto, Viseu, Aveiro, Braga ou Coimbra.
O dia acabava por ser compensador, mas o seu inicio era sempre aterrador com o levatar sempre acompanhado com o despacha-te para não sair-mos tarde, etc…
Só passados alguns anos entendo a razão dessas matutinas saidas pascais. O Domingo de Pascoa na Região Norte de Portugal é acompanhado tradicionalmente pela visita do padre, que vai de casa em casa, dizendo que vai abençoar a casa e a familia. Na realidade o padre vai de casa em casa com alguém segurando um cristo crucificado, acompanhado pelo seu sequito de ajudantes, para encher o "bandulho" com uns petiscos aqui, uns copos ali, uns dinheirinhos recolhidos em casa de cada encauto, e no final do dia, com os sacos cheios de dinheiro e a barriga cheia, o saldo foi um repasto de se lhe tirar o chapeu, invariavelmente acompanhado por uma "carraspana" de não se conseguir aguentar de pé.
Aproveita ainda o padre para além de ir recebendo uns cobres de casa em casa, para ir vendo e escolhendo em especial as paroquianas mais apeteciveis, para mais tarde tentar a sua sorte nas conquistas erotico/sexuais de sacristia.
Lembro sempre um Domingo de Pascoa em casa dos pais do meu cunhado, em Lamego, em que o padre, fez todo o mundo esperar por ele para se poder almoçar, e quando chegou cerca das 14 horas, já acompanhado por uma valente "carraspana" aproveitou a deslocação para além de encher o "bandulho" de boa comida e bom vinho, dizer ainda umas graçolas, a uma das irmãs do meu Cunhado, a São, por sinal, uma jovem bastante bonita, e solteira na altura, encantos a que não escapou o olho criterioso do padre, e muito bem, pois um padre não deixa de ser um homem, agora o que está mal é na sua condição de divulgador da palavra de cristo, andar a pregar a fé e o amor pelo próximo e ao mesmo tempo andar-se a fazer à filha ou irmã de cada um.
Porque será que não acabam com o celibato, seria muito mais razoável e leal para com os paroquianos. No fundo são homens, funcionam como homens, mas para o exterior querem fazer transmitir uma imagem de santos como se de eunucos se tratassem, quando na realidade não é assim, são heterosexuuais, homessesuais, bisexuais, como qualquer outro ser humano, e tem os seus gostos, defeitos e virtudes como qualquer homem.
A relação do meu pai com a Igreja Catolica, e com todas as outras igrejas foi sempre de firmeza e frontalidade, não lhes dando espaço para duvidas em relação ao seu pensamento sobre as actuações de sada religião ou seita.
A caridade não se faz ou prega numa Igreja, ou numa leitura da biblia. A caridade prega-se e faz-se em cada um de nós em cada dia, nas palavras e actos praticados. E estar a encher o "bandulho" a um padre e aos seus ajudantes de campo, não estava nas intensões do meu pai. Hoje consigo entender bem porque tomava essas atitudes.
E ele tinha razão, mais vale dár um prato de sopa ou um pão a um faminto que nos bate à porta, com fome, do que fazer que a caridade só existe dentro da porta de cada igreja, e quando alguém lhes solicita ajuda, leva invariavelmente como resposta um chuto no "cú".
Para os crentes, seguir a doutrina da sua fé, na realidade não obriga a prestar vassalagem a um qualquer individuo que se diz representante deste ou daquele Deus. Crêr em algo é defender factualmente por palavras e actos essa fé, essa crença.
Bem sei que uma andorinha não faz a primavera, mas como se pode acreditar em pessoas que se intitulam representantes disto ou daquilo, e depois provam o contrário.
Por exemplo:
Não matarás! E depois surgem padres como por exemplo o Brasileiro da Calheta, que homossexual assumido matou o namorado por ciumes ao descobrir que ele dava o "rabinho" a outros apreciadores, e o atirou da ravina abaixo para o mar, e depois de julgado e condenado conseguiu fugir para o Brasil, onde se passeia impune pelo calçadão do Rio de Janeiro.
Não Roubaras! E depois surgem padres que fazem desaparecer as caixas de esmolas, ou pedem para os empregados das bombas de gasolina do Barreiro, onde abastecem os seus carros, lhes emitirem recibos de 5.000$00, quando na realidade só abasteceram 2.000$00 de combustivel, o que poder ser atestado pelo meu bom amigo Luis Filipe, mais conhecido pelo "Gasolinas", ou enganam os alunos de cursos de formação, obrigando-os a assinar recibos de um valor superior ao que realmente recebem, como é o exemplo do Padre Azevedo da Paroquia de Santo André no Barreiro, de que ainda guardo religiosamente os depoimentos de grande parte dos alunos, assinados e reconhecidos notarialmente, para que não ficassem duvidas ou ameaças aos alunos não surgissem para tentar apagar os rastos de um dos maiores "Vigaristas" de que existe memoria, e que continua impunemente a passear-se pelas ruas do Barreiro, e a resar missas.
Não cobiçarás a mulher do próximo! E depois sugem padres como o Adão de Cinfães do Douro, que além de cobiçar as mulheres dos outros, e de manter um relacionamento homessexual com o Sacristão, ainda mantinha um relacionamento sexual com a mulher do seu próprio irmão.
Não cometeras actos pecaminosos! E depois surgem padres como os dos Estados Unidos que recentemente foram afastados por estarem envolvidos em redes de pedofilia e homossexualismo, e que se afirmavam dentro das suas paroquias como combatentes desses actos, e no entanto eles próprios davam um exemplo contrário ao praticarem os mesmos actos pessoalmente.
Não cometeras usura! E depois olha-se para o Vaticano, e observa-se um dos maiores tesouros do mundo, alicerçado num dos maiores bancos do mundo, e na maior rede de produção de dinheiro que são os santuários e tudo o que gira em seu redor em termos economicos, para além dos seus avultados investimentos em toda a economia Americana.
Não mentirás! E depois observamos todas as muitas patranhas das diversas igrejas e seitas do mundo com os seus dogmas nunca devidamente esclarecidos.
E tantos e tantos outros nãos, que se poderiam aqui analisar, e gastar linhas e linhas de interrogações a que ninguém consegue dár respostas concretas e factuais.
É com base em tudo isso que assumo a minha condição de Ateu praticante, e entendo hoje a razão de ser de o meu pai também ter sido Ateu toda a sua vida, para além de entender agora a fundamentação das saidas madrugadoras nos Domingos de Pascoa, da minha infância na casa do pai Antunes da Silva.
Não que o meu pai, tal como eu, fosse um contestatário da Igreja Catolica e de outras religiões e seitas, mas sim um verdadeiro credulo de factos concretos e não de simples e despudoradas "baboseiradas".
Um dia no Lavradio, Barreiro, recebeu a visita de duas simpaticas senhoras que lhe disseram vir trazer a palavra do Senhor. Ele muito prontamente mandou-as entrar e sentar na sala, e quando elas se preparavam para iniciar a lenga-lenga lá da sua inclinação religiosa, o meu pai com a maior cara de pau de mundo, disse-lhes: "… pois bem minhas senhoras tenho a minha cozinha com o lava-loiça cheio de tralhas para lavar, por certo as senhoras com a ajuda e a companhia do Senhor de quem dizem vir trazer-me a palavra, vão conseguir lavar essa loiça toda rápido, por outro lado; tenho a minha esposa doente e internada no hospital já à algum tempo, e como sabem um homem não é de ferro e tem certas necessidades, eu espero que as duas não se importem de me satisfazer um pouco essas necessidades, uma de cada vez claro, pois a idade já pesa e não perdoa, entretanto até que uma pode já ir lavando alguma loiça, com a ajuda lá do tal Senhor, e a outra pode vir já para o quarto."
As duas fugiram a sete pés lá de casa, gritando todo o genero de improperios.
Desceram a escada, e na Rua Grão Vasco nº 17, durante muitos meses nenhum Jeová por ali entrou, para tentar vender o seu peixe, pois tinham medo de ter que lavar a loiça e também fazer a manutenção sexual do Antunes da Silva.
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Eu bem sei o que significa a visita desse pessoal pregador a casa de cada um que esta de bem com a vida, e não tem nenhum interesse em aturar essas "badernices".
Na Urbanização da Quinta dos Loios, no Lavradio, quando ali vivi, também recebia a visita constante de umas senhoras, e curiosamente sempre na horas mais improprias, se é que existem horas próprias para ir chatear os outros à sua casa, e ainda por cima com campainhadas quase de fazer cair a casa aos bocados.
Sempre lhes repetia, amavelmente, que não estava interessada em comprar nada, nem em escutar as palavras nem do Senhor nem da Senhora, mas sempre voltavam passados uns dias.
Um dia, mais uma vez fui alertado para uma valente serie de campainhadas, quando estava a tomar banho, e perante mais uma visita não resisti a atacar a insolencia e teimosia, e resolvi acabar de uma vez por todas com aquele problema. Espreitei pelo orificio de segurança da porta, e quando me cerifiquei de que se tratava mais uma vez, das duas "figurinhas de presepio" do costume, não resisti, retirei a toalha, fiquei todo nu, e abri assim mesmo a porta, de uma forma de exposição ostensiva, dizendo-lhes logo que podiam ir entrando que as ia "papar" ás duas…
Gritaram até ao elevador, e nunca mais as tornei a vêr lá pelo predio. Por certo pensaram que se tratava de algum tarado…
Quando morava na Quinta da Lomba, Barreiro, quase todos os Sábados, bem cedo, cerca das 07.30 horas da manhã, dois cavalheiros dos "Mormons" resolviam dár um ár da sua graça com uma valente campainhada, para tentarem falar com alguém lá de casa.
Depois de muitas vezes os ter corrido, reafirmado que não estava interessado em nada, um Sábado resolvi que seria a ultima vez que por ali iriam importunar o pessoal, e estão quando tocaram à porta eu muito simpático e solicito abri; disse-lhes que realmente naquele Sábado alguém iria escutar as suas importantes palavras, e que me dessem só um minuto para chamar o interessado nas suas importantes palavras de mensagem religiosa.
Fui ao quintal, chamei o meu fiel amigo, cão Serra da Estrela "Lord", e levei-o para conhecer os dois enfarpeladinhos. Quando abri a porta apenas foi necessário soltá-lo, e imediatamente ficou com uma banda do casaco de um dos cavalheiros na boca, e enquanto fugiam ele foi a rosnar atrás deles até à porta do edificio. Acabei por o agarrar e acalmar, e quando espreitei, estavam os dois a gritar, num inglês americanizado misturado com português abrisaleirado, que um "leão" os queria comer, avisei-os de que nunca mais os queria por ali vêr, nem eu nem o "leão", que tinha gostado muito de os conhecer aos dois.
Nunca mais por ali passaram pelo edificio, e sempre que os vi a transitar por aquelas bandas, passavam para o passeio do lado contrário, olhando sempre para o nº 13 da Rua D. Francisco de Almeida, com medo da saida do "leão" para os perseguir…
Também eu ao longo da minha vida, tenho muito pouca paciência para aturar esses pregadores da ultima palavra do Senhor, que para mim tem tanta importancia como "charlatões" ou certos "politiquelhos" vendedores da chamada "banha da cobra", e sempre que posso corro com eles depressa e em força, para que não me tornem a tomar o meu precioso tempo, e também para que não lhes restem quaisqueres duvidas sobre a forma como eu os considero no mundo…
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A casa dos meus pais em Cinfães do Douro, era visita frequente de um amigão da familia e dos meus irmãos, o Alfredo, que se deslocava numa moto, bem potente para a época, o que constituia para mim , momentos de alegres experiencias motorizadas, sempre que nos visitava eu tinha direito a um passeio extra de alguns km’s, e inclusivamente era liberado para poder pilotar aquela infernal máquina.
Pilotar era o termo utilizado, embora na realidade eu fosse colocado na frente da moto, com ele a segurar o guiador conjuntamente comigo e obviamente era ele que colocava as marchas e fazia todo o restante trabalho de condução. Eu ficava maravilhado, pois achava bem mais dificil pilotar aquela máquina infernal do que conduzir um automovel.
Este amigão era casado, um casamento relativamente recente, onde curiosamente a minha irmã acabou por conhecer o seu actual marido, e vivia em Caldas de Aregos, a uns quantos km’s de Lamego e da Regua.
Apesar da minha curta idade descobri que a sua vida matrimonial não ia de vento em poupa. Um dia chegou a noticia de todos menos esperada; ele decidiu suicidar-se!
Tinha-se lançado com a moto para debaixo de um autocarro daqueles que faziam as ligações entre diversas localidades da zona, numa das famosas curvas antes das Caldas de Aregos.
O meu pai que era também muito amigo dele, resolveu ajudar a efectuar a autopsia. Nessa época os hospitais de provincia realizavam as autopsias de um modo artesanal, normalmente os médicos não tinham ajudantes, e escolhiam alguém da sua confiança e com disponibilidade para o efeito.
O Dr. Ramos, caso não tivesse um ajudante teria que adiar por alguns dias a resolução da libertação do corpo do Alfredo, para se poder efectuar o funeral.
Assim, o meu pai disponibilizou-se, e contou posteriormente que foi algo de estraordinário poder vêr a composição de um corpo aberto, em especial a impressionante fase da abertura da cabeça e a imagem do interior do cerebro.
Do seu relato resalvo ainda o facto de ele dizer que tudo era naquela epoca feito como se fosse trabalhado numa qualquer oficina, ou seja a cabeça serrada, e aberta para trás como se fosse uma tampa, e outras situações com a ajuda de equipamentos que mais pareciam escopros e martelos de uma obra qualquer.
Recordo ainda a imensa coroa de flores, dentro de uma caixa de madeira hexagonal, que esteve alguns dias guardada no escritório da minha casa, e que foi oferta de todos os seus amigos, e que me impressionou pela sua grandiosidade.
Para mim, constituia o retornar da realidade da morte, que pode surgir a qualquer momento, e por outro lado mais uma vez a prova de que qualquer um, desde que tenha vontade e coragem, pode escolher o seu momento certo de partir deste mundo.
Mas mais importante era verificar a frieza com que o meu pai encarava a morte, pois constituiam para ele passos perfeitamente normais na vida, o nascer e o morrer. E foi assim que o conheci, até ao úlltimo dia em que com ele tive o previlêgio de poder conviver.
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Já estava condenado a abandonar Cinfães do Douro, rumo à minha vida no Sul de Portugal, quando fui convidado para estar presente no Magusto da escola, e embora não estivesse alí matriculado para o novo ano léctivo, e já fosse uma partida anunciada para Castanheira do Ribatejo, próximo de Vila Franca de Xira, tiveram essa amabilidade para comigo.
Esta oportunidade de convivio, com os meus colegas de escola e os meus amigos locais, foi a minha última recordação de Cinfães do Douro, e de uma infância feliz que ali vivi.
Por outro lado constitui hoje a recordação do meu pai permitir que a viagem e respectiva mudança se realiza-se uns dias mais tarde para me permitir esses últimos momentos de convivio com os meus amigos de infância.
Parece que ele adivinhou que eu nunca mais voltaria a Cinfães do Douro. Realmente até hoje nunca mais ali voltei em termos fisicos e reais, embora tente acompanhar por via de informações espaçadas no tempo, por contacto com velhos amigos, e também por via das novas tecnologias, tudo o que de importante por ali vai acontecendo. Reconheço que ao longo do tempo, poucas noticias desse local tenho tido excepto umas inaugurações, uns incendios nas matas, umas mortes de imigrantes, e pouco mais.
No entanto, Cinfães do Douro vai permanecer para sempre no meu coração, pela grande importancia que teve para toda a minha vida.
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Mas o pai Antunes, deixa na minha memoria tantas outras coisas importantes, que até me custa hoje recordar de todas, no entanto sempre vi com muita curiosidade o facto da minha casa de Cinfães do Douro, estar pejada de aparelhos de televisão e rádios, e nunca se pagar a taxa de rádiodifusão antes da "Revolução dos Cravos", todos os cidadãos que tinham aparelhos de radiodifusão em casa tinham que pagar uma taxa. Nos dias de visita dos fiscais, a minha casa deixava de ter aparelhos visiveis, todos eram colocados dentro das malas dos carros, e a fiscalização entrava lá em casa, vistoriava tudo e nada encontrava.
O mais curioso é que devia ser a casa com mais rádios e televisões por metro quadrado de Cinfães do Douro e arredores, mas nunca me lembro de alguma vez se ter pago qualquer taxa ou multa.
A razão de ser desta atitude, só me foi explicada anos mais tarde, na altura da "Revolução dos Cravos", quando foi abolida essa famigerada taxa.
E a razão por ele invocada era a seguinte: "Porque razão se iria pagar uma taxa, quando já se pagava a energia electrica consumida na utilização desses equipamentos, e que eram bastante caros a quando da sua aquisição com impostos elevados, e considerados como artigos de luxo, e porque razão se iria pagar, quando uma série de gentalha estava isenta, só porque pertenciam a este ou aquele organismo, ou eram o senhor "Dr. Badamerdas", ou o senhor "Juiz Cagalhão", ou o senhor "General Peidol", ou o senhor "Inspector Espreitaqui".
Na realidade ele tinha razão. Então os cidadãos não eram todos iguais perante a lei; porque uns cidadãos haveriam de ter mais direitos do que outros?
Aprendi o sentido especial da legalidade e da ilegalidade, e também da igualdade, dessa forma simples.
Devo mais essa lição, entre outras, ao pai Antunes, para quem preto era preto e branco era branco, amarelo era amarelo, mas que para ele perante a lei todas as cores deviam ser tidas e achadas de igual forma. Uma lição de vida, que me leva ainda hoje a colocar a comer na minha mesa qualquer serviçal que esteja a trabalhar para mim na minha casa, independentemente da sua raça, religião ou opção politica, goste quem gostar que visite a minha casa, e se assim não entender, existe sempre a opção da porta da rua, que como se sabe é a serventia da casa, e por outro lado a não pactuar com actuações de dubia igualdade.
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A paciência do meu pai com a electronica era algo a que eu nunca consegui chegar em termos de entendimento. Para umas coisas era tão rude, bruto mesmo a resolver e para outras tornava-se tão delicado tão prefeccionista.
Na nossa casa em Cinfães do Douro um quarto estava transformado num autentico laboratório/oficina de electronica, era ali que ele se refugiava nos poucos momentos que tinha livres para estar em casa.
Existem pessoas que se dedicam a lêr, a escutar musica, ou a outras actividades ludicas. O Antunes não parava e nas suas horas vagas dedicava-se a escutar os noticiários nacionais e internacionais, a escutar musica classica de preferencia, e a lêr e ainda arranjava tempo para ajudar os amigos e muitas vezes para ainda ganhar uns trocos, para o tabaco, como gostava de afirmar, entretendo-se a consertar uma televisão ou um rádio.
Foi nessa oficina, que eu ainda criança tomei conhecimento, em Novembro de 1963, da morte de J. F. Kennedy, sem saber ainda de quem se tratava, embora hoje seja uma das minhas referencias politicas. Mas nesse já longiquo dia, apenas tive a noção de que tinha desaparecido alguém com uma visão diferente do mundo, e que isto significava algo de negativo para todos nós, e só me apercebi disso pelos comentários caseiros e porque escutei o meu pai referir que escutara a noticia numa estação de rádio internacional, na BBC, o acontecido em Dallas, e que portanto estava confirmado, pois a BBC nunca mentia, ao contrário das estações de rádio nacionais, que "cozinhavam" as noticias de acordo com aquilo que mais lhes interessava.
A importancia de J. F. Kennedy tem sido determinante na minha formação pessoal e politica até hoje, pois era um politico que ao longo da sua vida deixou um importante legado para o futuro, e muitas das suas ideias e projectos ainda hoje estão bem actuais e vincadamente actuantes na politica internacional.
Foi ele que entre outras coisas prometeu, num discurso na Universidade de Ricenos EUA, que os EUA colocariam um homem na Lua antes do final da decada, o que veio realmente a acontecer em 1969.
Para além disso foi um politico que tornou o magistério da politica, como algo a ser respeitado, tal como Socrates havia idealizado muitos séculos antes.
Sei também hoje que em Portugal somente muitas horas depois divulgaram o acontecimento, e de uma forma pré-montada, para atingir determinados objectivos que interessavam politicamente ao regime da época.
Afirmaram na época que tinham sido uns delinquentes de esquerda, uns comunistas, a levar a cabo o atentado. Hoje está mais do que provado que assim não foi.
Foi também nessa mesma oficina/laboratório que eu ainda criança, vi o homem colocar pela primeira vez um pé na superficie lunar. Depois de muitas horas de espera a olhar para o êcran e a escutar vozes que mais pareciam vindas de um filme de ficção cientifica, acompanhadas por comentários de um cientista português, que anos mais tarde tive o previlêgio de conhecer pessoalmente, em Almada, e graças á politica, e também pela voz inconfundivel do locutor José Mensurado.
Foi no dia 20 de Junho de 1969, que Niel Armstrong pisou pela primeira vez o solo lunar, e proferiu aquelas miticas e tão famosas palavras:
                "Um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade"
Recordo ainda que no dia seguinte, escutei as pessoas a falar na rua sobre o assunto e muitas delas a comentar que era tudo mentira, que o Sr. Padre tinha dito para ninguém acreditar no que tinham visto, pois aquilo tinha sido tudo montado e filmado num estudio e depois transmitido, tal qual como qualquer outro filme de cinema. Obviamente mais uma patranha da retrogada Igreja Catolica daquela época, para quem tudo girava em torno de Cristo e dos seus milagres e dogmas nunca explicados até ao dia de hoje. Tudo quanto a ciencia prova existir e faz evoluir em termos de realização humana é sempre discutivel, veja-se por exemplo o actual exemplo da polemica sobre a utilização dos preservativos, o que demonstra o quanto pouco a Igreja Catolica evoluiu e aprendeu com os erros do passado, ainda mais agora que tem como seu dirigente máximo e actuante um dos Papas mais retrogados da sua história.
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Foi também alí que em 1969, eu pude vêr na tv o golo 1.000 (mil) de Pelé, considerado por muitos como o Rei do futebol.
E logo num jogo contra o Vasco da Gama, clube que conjuntamente com o Palmeiras tem até hoje o meu carinho em relação ao futebol brasileiro. Ainda recordo a marcação desse penalti, marcado por Pelé para o seu lado direito da baliza, indefensável para o guarda-redes, um golo memorável e histórico até aos dias de hoje, e só igualado á poucos dias pelo golo 1.000 (mil) de outro Brasileiro, Romário, e por coincidência actual jogador do Vasco da Gama, mas marcado no Estadio de São Januário e não no mitico Maracana do Rio de Janeiro.
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Foi ainda nesse mesmo histórico local, numa das preciosas ajudas do meu pai a um seu colega de trabalho, que lhe solicitou o concerto de uma televisão, que por alguma razão não estava a funcionar correctamente, que a mesma veio parar à oficina/laboratório, a aguardar uma boa oportunidade de conserto, e que eu decidi iniciar a minha actividade de "experiente" técnico electronico.
A tv era de um Engenheiro, tratava-se de um aparelho com uma caixa exterior de cor creme, e eu lembro-me bem que o cinescópio era ovalizado, e que eu por alguma razão não engraçara com o aparelho.
Habitualmente andava de martelo em riste, batendo aqui e ali, e num belo dia; farto de vêr aquele "estojo" ali estacionado, resolvi dar-lhe um fim "conserto" técnico à minha maneira, e se bem o pensei, melhor o concretizei. Peguei no martelo, escolhi a melhor posição e não fui de modas, coloquei fim ao aparelho com uma pancada seca no cinescopio, que ao partir-se produziu um ruido tremendo, mais parecia uma bomba a explodir, aliado a uma fumarada de pó e a um cheiro agridoce que ficou a pairar pelo ar durante algum tempo.
Todo o mundo correu até ao laboratório/oficina, para vêr o que se tinha passado, e eu com a maior calma do mundo esclareci que tinha acabado de consertar a televisão do Sr. Engenheiro, com uma simples pancadinha, agora era só uma questão de avisarem, que já podia vir buscar o aparelho.
O meu pai ficou para morrer quando viu o estado em que tinha ficado o aparelho. Não me disse nada! Não fez nada! Ficou imóvel a olhar para a caixa e para o buraco no local onde antes estivera o cinescópio.
Dias depois, recordo a visita do Engenheiro, não assisti à conversa, sei no entanto que nunca reclamou o pagamento da tv, e inclusivamente ao encontrar-me no corredor me disse que a tv já estava um pouco antiquada e algum dia teria o seu fim, e que o melhor era mesmo comprar outra mais moderna e esteticamente mais bonita, e para eu não me preocupar pois não tinha qualquer problema.
Só alguns anos mais tarde me capacitei da gravidade da minha actuação, e dos prejuizos por mim provocados, pois naquele momento ainda assim eu entendia que por certo tinha feito algo de muito util ao Engenheiro que iria comprar uma nova televisão, muito mais moderna, e ao mesmo tempo ao meu pai que se mostrava com muito pouca paciencia para arranjar o aparelho, tal a quantidade de dias que ali tinha permanecido sem qualquer conserto, excepto o meu prestável "arranjo" final.
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A vantagem do funcionamento do laboratório/oficina lá em casa era que me possibilitava mais um local para brincadeiras, muito embora desde esse dia fatidico da tv do Engenheiro, eu tenha ficado terminantemente proibido de ali entrar sozinho, e a unica maneira de la poder voltar a entrar seria a presença fisica do meu pai.
No entanto as suas reparações e montagens possibilitavam por vezes umas viagens exteriores interessantes, e numa dessas deslocações fomos até à aldeia de Boassas, eu o meu pai e o meu irmão Carlos Alberto, sendo que o objectivo era montar uma antena de tv, em casa de uma viuva conhecida do meu pai.
Antes da obra a senhora amavelmente preparou um cheiroso cozinhado, tipo cozido à portuguesa, e um arroz de se tirar o chapéu, confeccionados em panelões de ferro forjado, colocados sobre o lume da lareira da cozinha, lembro-me que foi a primeira vez que comi um delicioso arroz feito num forno a lenha.
Depois do repasto, bem regado com vinho tinto, e um sumo a preceito para mim, iniciou-se a montagem da antena de tv, e a minha presença era muito importante??…, pois como missão ajudar o meu irmão a segurar os cabos exteriores, enquanto o meu pai efectuava a respectiva montagem no telhado de casa, e as afinações… de canais no interior.
Era interessante como ele tinha paciencia para estes trabalhos, no entanto naquele dia verifiquei que o trabalho estava a demorar bem mais do que o habitual, e para cumulo, parecia que ele já tinha montado a antena no telhado, mas ordenou que ficasse-mos na mesma postados no exterior da casa a segurar os cabos enquanto segundo ele disse; acabava as ligações e afinações no interior. O resultado foi de mais de meia hora a aguardar a sua aparição do interior da casa, enquanto eu e o meu irmão ficámos "de castigo" a segurar nos cabos no exterior.
A razão de uma demora tão acentuada viemos a descobrir um pouco mais tarde, já durante a viagem de regresso, e depois de termos notado alguma falta de avontade da senhora nas despedidas, depois do terminus da montagem. O pai perante a nossa muita insistência, acabou por confessar que enquanto nós tinhamos ficado a segurar nos cabos no exterior da casa, ele se tinha dedicado a afinar a tv e a efectuar também a montagem da viuva, que coitada estava com a aparelhagem muito necessitada de afinação…
O meu pai era uma coisa extraordinária, não perdoava nem a uma Santa, e fosse em que circunstancia fosse, desde que lhe desse algum gozo pessoal, avançava. Nesse dia ficou esclarecido para mim o seu tão grande interesse na ida a Boassas, e naquela montagem da antena, na verdade não se tratava só de montar uma antena na casa de uma pobre e solitária viuva, mas também de efectuar a montagem e manutenção de uma viuva que lhe tinha agradado!
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A casa de Cinfães do Douro era de um tamanho fora do comum. Todas as suas divisões tinham áreas bastante generosas, em especial a sala, melhor dizendo o salão, que dava para se realizar nele um baile se fosse necessário, com banda e tudo. O seu corredor não tinha fim, servia para eu efectuar brincadeiras várias e inclusivamente para corridas, e lancamentos de bolas, e corridas de carrinhos e outras animações.
Para mim aquele local era o ponto de distribuição de toda a minha actividade interna, por ali passava a minha actividade interna, por ali ficava infindáveis horas a brincar, muito mais do que no meu próprio quarto. Essa imponente casa é um espaço que hoje tenho curiosidade pessoal de revisitar, ainda mais que era propriedade da D. Detinha, nossa vizinha na época, e sobrinha neta do grande Serpa Pinto, e que penso não tinha descendentes directos, e que portanto devem ter dado uma utilidade bem apropriada ao local histórico.
Habituei-me sempre a viver em casas espaçosas e com muitas divisões para possibilitar uma distribuição correcta de todo o mobiliário, e talvez esse meu habitat constante tenha tido origem nessa casa de Cinfães do Douro que era realmente enorme.
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A casa estava situada num local bem central da Vila, construida em zona fronteira ao Jardim Serpa Pinto, e junto da Igreja Matriz. Naquela época aquele local e o largo do Hotel Angola eram os locais "top" de Cinfães do Douro.
Dali podia observar-se toda a "movida" da localidade, e foi também dali que eu comecei a observar o levantamento dos sarcofagos na Igreja Matriz, o que motivou a proibição das minhas saidas habituais, pois todo o pessoal decidiu iniciar uma nova actividade, que consistia em tentar montar um esqueleto, para isso roubavamos ossos humanos das escavações no interior da igreja, e iamos escondendo as diversas peças. Esta situação terminou quando descobriram a marosca, e só porque alguém do grupo foi tentar trocar uns ossos repetidos, e todas as familias foram avisadas da nossa brincadeira morbida.
A Igreja Católica estava a efectuar nessa época a alteração da sua história do passado, e a criar uma nova postura para o futuro, tudo isto fruto das decisões do Concilio de anos antes. Durante muitos séculos os falecidos mais ilustres eram sepultados no interior dos templos católicos. Agora o novo Papa por várias razões, inclusive por questões de higiene, ordenara alterações profundas na adoração dos falecidos e também na sua deposição em termos de locais, e desta forma as sepulturas seriam todas levantadas, no entanto muitos habitantes queriam a preservação dos sarcofagos, pois justificavam a manutenção da situação em termos de tradição cultural, e também por os mesmos pertencerem a ilustres personalidades locais.
Já não recordo como acabou essa modernização cultural e religiosa, porque entretanto abandonei Cinfães do Douro. Recordo isso sim todo o soalho de madeira da Igreja Matriz levantado e os esqueletos à vista de qualquer um, espalhados de forma alinhada, de acordo com os madeiramentos do soalho, e as indicações de cada origem pessoal.
Recordo também os tumulos fechados com pedras trabalhadas, situados no chão junto do altar môr da igreja, e de outros altares laterais, que diziam pertencer a cavaleiros dos tempos de D. Afonso Henriques e Dom Afonso e Dom Sancho, e que a sua abertura estava a gerar na época um grande burburinho local em termos culturais e cientificos.
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A vida em Cinfães do Douro corria a uma velocidade tremenda, e de um dia para o outro a firma que o meu pai e o meu irmão tinham aberto: "O Calhambeque", fechou, não sei se por falta de clientes ou por alguma desavença entre eles. E coincide também com a partida do meu irmão para Lisboa, para trabalhar e estudar no instituto Superior Técnico, e eu por ali me mantive conjuntamente com a minha irmã, em casa dos nossos pais.
Depois recordo, uns poucos anos mais tarde, talvez tão somente 2 anos, um dia de inverno, com muita neve, muito próximo do Natal, em que o meu irmão surgiu, como que vindo do nada, tipo D. Sebastião de entre o meio do nevoeiro, e acompanhado de uma namorada, de nome Dilar, que era muito bonita e morena, e que vinha conhecer a nossa familia. Soubemos que as suas origens familiares remontavam lá para os lados do Algarve, em São Bartolomeu de Messines, na Amorosa, mas que no entanto ele a tinha conhecido em Lisboa, e com quem aparentemente já vivia, portanto a situação estava muito adiantada para a época que se vivia naquele Portugal do final dos anos 60.
O irmão Carlos tinha difinitivamente deixado para trás o namorico com a Adelaide, conhecida por Laida, a sua antiga namorada. Ela que também tinha decidido partir para Lisboa, em busca de um novo rumo de vida pessoal e profissional.
E esse deixar para trás era relativo, pois o relacionamento não acabara em Cinfães do Douro, e a causa da sua decisão de ir para Lisboa, poderia ter sido entre outras essa mesma.
No entanto o rompimento intimo entre eles não foi total. Pois inclusivamente existia o conhecimento da manutenção do contacto pessoal mutuo em Lisboa, muito embora já estivessse terminada a relação, e iniciado o namoro e relacionamento com a Dilar, e também de muitos anos mais tarde ainda ele lhe fazer uns serviços intimos, por necessidades intimas mutuas, assuntos obviamente lá das suas vidas conjugais e extra-conjugais, que são do conhecimento geral, mas a que só mesmo a eles dizem respeito em relação a causas e efeitos, e que mereceram bastante preocupação nos anos 70, pois analises conduziram a um tratamento a "Sifles" por razões obvias, de contactos mais ousados e descaracterizados de alguns cuidados mais necessários.
Esta era uma nova alteração na minha vida, o meu irmão também estava para partir em difinitivo, para uma nova vida, o casamento, e embora o nosso relacionamento pessoal fosse algo distante, como alias sempre aconteceu ao longo da minha vida, inclusivamente por razões obvias em termos de assuntos finaceiros graves que me envolveram a mim e a outros membros da familia, e que a seu tempo vou revelar na integra de forma documental, e que motivam o facto de que desde à muitos anos que não falamos, para mim contava nessa época como uma perda de contacto, e de convivio com alguém conhecido.
Tudo isto ficava aliado ás outras mudanças da minha vida que já se emcontravam em agenda, inclusivamente por parte da minha irmã, que também tinha o seu casamento programado, e assim a casa prometia ficar vazia para mim, e com isso a diminuição das minhas defesas familiares, em especial quando entrava em alguma traquinice, pois passava a ficar directamente exposto à observação directa do Antunes e da Libânia…
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As nossas viagens agora eram mais longas, já não eram tão somente à cidade do Porto e arredores, agora vinhamos ao Sul de Portugal com mais frequência, não só nas férias, mas em muitas outras ocasiões, e estavamos a preparar a nossa partida para uma nova vida, e eu tinha a leve premonição de que os meus tempos de infância em Cinfães do Douro estavam a chegar ao seu fim, e que uma nova época na minha vida estava para chegar.
Uma vida em que a infância passava lenta mas seguramente para uma juventude mas responsabilizadora, e em que as novidades dessa nova idade estavam para chegar, passando a viver somente com a observação dos meus pais, o que me ia transformar no alvo preferencial dos seus olhos analisadores e criticos.
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Entretanto nestas viagens para o Sul de Portugal, que se iniciaram espaçadamente no tempo, anos antes, da viagem difinitiva para o Sul, aconteciam sempre factos dignos de registo, sendo que no dia em que nos deslocámos a Estremoz para o meu cunhado se apresentar no Quartel para se preparar para avançar para Moçambique, para ser incorporado no Guerra do Ultramar, para onde tinha sido destacado, eu apanhei a minha primeira verdadeira bebedeira, graças ao tão famoso vinho tinto da localidade de Venda das Raparigas, na Região Centro de Portugal, e tudo isto fruto da nossa passagem pela antiga estrada nacional numero um, a caminho do Sul.
Foi um dia memorável pois depois de uns bons copos bebidos ás escondidas, retirados à sucapa dos garrafões, durante uma paragem no meio do caminho para fazer um lanche ajantarado, passei todo o resto da viagem cantando o hino nacional português a plenos pulmões, rindo muito nos intervalos da cantilena, e talvez por o ter cantado tantas vezes nesse dia e estando "emborrachado" em vinho tinto, hoje sobrio considere esse como o hino da fome, pois do mar já quase nada se salva, herois também já são muito poucos, e a nação valente e imortal também já pouco ou nada tem de valente e muito menos de imortal depois da entrada para a CEE, e contra os canhões também já ninguém marcha como antigamente pois agora os militares são profissionais da guerra, e guerra real só se for criada lá para os lados das Berlegas para treinarem. Talvez só reste tão somente a ideia de um novo esplendor, hoje o que realmente resta é infelizmente alguma fome e perda de soberania para muitos portugueses, que vêm destruir a cada dia que passa o seu aparelho produtivo e delapidar a sua independencia nacional face ás grande economias mundiais.
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Nunca antes tinha visitado Estremoz, e por incrivel que possa parecer eu ainda no caminho para essa localidade Alentejana, fronteiriça a Espanha, afirmei que era um local muito antigo e medieval, com uma fortaleza, e que eu já ali tinha andado a combater os Mouros e os Espanhois. Todos acharam muita graça ás minhas afirmações e riram perante a minha grande contundencia em relação ao assunto.
Fiquei deslumbrado com o local, com as bilhas de barro artesanais, para guardar água fresca, E eu tive realmente a convicção pessoal de que já por ali tinha passado anteriormente, e também que já tinha visto aqueles objectos tão particulares em algum outro local durante a minha vida.
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Mais incrivel foi que durante a viagem, ao passar pela Batalha, ter escutado que ali tinha tido lugar uma batalha importante entre os Portugueses e os Espanhois, com o comando das tropas portuguesas por parte de D. João I, Mestre de Avis, e outras informações gerais, a que eu convictamente decidi rebater de uma forma veemente, afirmando que a batalha não tinha tido lugar ali, naquele preciso local onde estava ergido o Mosteiro mas mais ao lado, e que inclusivamente eu sabia que tinha lá uma fonte onde os soldados após o terminus da batalha tinham saciado a sede e lavado o armamento cheio de sangue e também algumas feridas originadas pelo feroz combate. 
Esse local é Aljubarrota, e dista alguma distancia da Batalha, onde se encontra edificado o mosteiro, obra realmente de uma beleza sem igual.
Todo o mundo contrestou, e todos acharam estranha esta minha insistência, naqueles argumentos cheios de preciosismos. Anos mais tarde confirmei que realmente a famosa batalha de Aljubarrota não teve lugar naquele exacto local, onde hoje se encontra o Mosteiro da Batalha, mas em terrenos próximos dali, e que realmente existia uma fonte junto do campo onde decorreu a batalha, onde segundo reza a história ocorreu tudo qunto eu afirmei naquele dia, e que foi nessa época alvo de risos e duvidas.
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Mais tarde a risota voltou a ser geral naquele dia de viagem, quando eu ao entrar em Santarém voltei a referir já por ali ter passado, e que estivera com D. Afonso Henriques nuns claustros que tem uma praça no meio. O incrivel é que eu também nunca estivera antes em Santarém, desconhecia a existência de uns claustros, e descrevi a figura de D. Afonso Henriques de uma forma muito precisa. A risota passou a espanto, e os presentes dentro do automovel, acharam muito estranhas aquelas minhas visões históricas de alguns locais e factos.
Ainda hoje, tenho uma especial admiração pelos registos históricos dos saudosos tempos de D. Afonso Henriques, e muitas vezes tenho pensado o que realmente me terá levado a fazer determinadas afirmações, que foram na verdade premonições incrivelmente exactas, em relação à realidade de factos passados e locais pré-visualizados, sem que eu alguma vez os tenha visto antes na minha vida.
O pai Antunes, não achou muita graça à situação, e ficou algo apreensivo, durante todo o resto da viagem, pensando, como seria possivel eu estar tão certo de locais e factos. Segundo ele algo de muito estranho se passava, para eu conseguir ter essas ideias e visões. Acho que ele chegou a pensar que eu estava a endoidecer, ou que algum outro fenomeno teria ocorrido.
Durante a sua vida muitas vezes me referiu esses acontecimentos, e comentava comigo e outras pessoas que sempre entendera a situação como algo de muito estranho.
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Nessas viagens ao Sul de Portugal, aconteceram muitas ocorrências determinantes para a minha formação pessoal futura. Por exemplo, os meus dentes foram sempre um factor de independencia pessoal, pois eu através deles conseguia mostrar toda a minha capacidade de afirmação pessoal, ao perder prepositadamente várias vezes o aparelho de correcção dental.
Nessa época da minha vida, tanto o meu pai como a minha mãe tentavam corrigir o meu deficiente posicionamento dental. Este tratamento nunca teve a minha concordancia, e se hoje se tornou fino andar publicamente com um aparelho de aprimoramento da posição dental implantado nos dentes, alguns até com cores bem garridas e outros a imitar prata e outras argumentações visuais, nessa época da minha infância essa novidade constituia motivo de risota e de anedota por parte de colegas e amigos, dai que eu me tenha tornado num verdadeiro recordista de esquecimento dos muitos aparelhos que para mim foram comprados.
Eu fazia questão de os esquecer em tudo quanto era local, na tentativa de vêr terminado aquele verdadeiro martirio pessoal.
Quando se viajava, eu tinha uma estrategia infalivel, pois procurava deixar os aparelhos de correcção dos dentes esquecidos em alguns restaurantes, embrulhados num guardanapo em cima da mesa, que iria directamente para a lavandaria, ou esquecido na casa de banho, na esperança de que ninguém o visse até sairmos do restaurante, depois poderia ser de qualquer outra pessoa.
Cada aparelho custava uma verdadeira fortuna para a época, e obrigava a uma serie de visitas ao médico para tirar moldes, fazer testes de provas, etc.
O ultimo aparelho foi estrategicamente esquecido, no dia da nossa mudança de Cinfães do Douro para Castanheira do Ribatejo, em que o aparelho ficou esquecido lá para os lados de Coimbra, no Café Pinto de Ouro, onde costumavamos parar para nos deliciar com umas mágnificas torradas e uns bolos tradicionais de comer e chorar por mais. Somente deram pela falta do aparelho na minha boca, já muito próximo do Carregado, a poucos km’s da nova casa, e sem oportunidade de regresso para recuperar o "tesouro".
Esta foi a ultima vez que tive o trabalho de fazer-me auto-esquecer de um aparelho de correcção dental. O meu pai colocado perante mais uma perda do aparelho disse: "… acabou-se! Se não quer, não quer! Não gasto mais dinheiro com essas merdas, para ele andar sempre a perder!"
E assim, acabou o meu grande sacrificio de andar com o aparelho na boca e escutar os mais variados comentários publicos. Hoje tenho os dentes na posição que escolhi, e não me arrependo absolutamente nada de ter tomado essa opção pessoal.
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A viagem de Norte para Sul de Portugal, foi uma viagem directa para um outro mundo, para uma realidade totalmente diferente, era como sair do 3º Mundo e chegar ao 1º Mundo, tal a diferença de mentalidades e realidades sociais entre Cinfães do Douro e Castanheira do Ribatejo.
Uma diferença a que por estranho que pareça, eu me adaptei perfeitamente, como se de facto sempre por ali tivesse habitado, e tirando algum sotaque nortenho que não conseguia evitar na minha pronuncia nos primeiros tempos, como as normais trocas dos "Vs" pelos "Bs" e outras comuns entre o Norte e o Sul, tudo o resto foi fácil de assimilar.
Assim tem acontecido ao longo da minha vida, e até hoje, já mudei muitas vezes de Região e até de País, e embora mantendo sempre a minha irreverência e frontalidade, mesmo contra as questões culturais de cada região, nunca me deixei absorver por esta ou aquela cultura, e sempre me adaptei muito bem ás mudanças, e estou certo de que elas não acabaram na minha vida!
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Vou despertando deste sonho! Acordo deste sonho que me pareceu interminável!
Um sonho que me pareceu tão real que as suas imagens como que tinham cores, cheiros, até tinham sabores na minha boca.
E volto a fechar momentaneamente os olhos, como que querendo que esse sonho não termine, e consigo vêr-me ainda em Cinfães do Douro, e ainda vêr a minha irmã Alcina, ali tão perto, quase tão perto que me parece que a posso tocar ao estender simplesmente o braço, e concretizando essa intensão com as mãos. E fico só a olhar para ela, menina/mulher, bonita, a brincar comigo, um puto traquinas.
Observo a minha mãe a caminhar para a loja do Senhor Armindo, talvez para ir fazer umas compras, e o meu pai Antunes a subir as escadas de acesso à nossa casa, vindo da garagem e até consigo vêr-me a mim próprio, na varanda, olhando para o coreto do Jardim Serpa Pinto.
Espantosa esta nossa capacidade de visionar a nossa própria vida, a nossa vida passada, de nos ver-mos  a nós próprios.
Imagino o quanto importante é saber trabalhar a memória, saber enquadrar os factos por nós vividos no tempo próprio, e conseguir reviver a nossa própria vida numa noite, num sonho… tornado por momentos realidade!
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Abro os olhos e vejo a meu lado a mulher que dorme hoje comigo na minha cama, e nem necessitamos de dizer nada um ao outro, e como nos queremos tanto, vamos fazer agora sim sexo, amor ainda não sei bem. Sei que será pelo pouco tempo que resta da noite, pois a dia está a nascer para mais uma realidade actual…
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Só agora entendo que consegui reviver praticamente toda a minha infância numa simples noite de sonho. Uma noite de memorias vividas que a vida não apagou, creio no entanto que outras realidades, outras noites com sonhos de outras épocas da minha vida que estão adormecidos no fundo do bau da minha memoria, podem surgir em breve, podem brotar para a realidade a qualquer momento, a um sonho possivel…
Não creio que esses sonhos tenham morrido, pois nós só levamos desta vida: a vida que a gente leva cada dia que passa…
E eu continuo a viver cada dia com tanto prazer como se fosse ou o primeiro ou o ultimo dia da minha vida!
Mas sempre na esperança de que o amanhã volte a sorrir, para eu viver um novo dia, criando novas realidades, para conseguir mais tarde reviver os muitos dias de realidades já por mim vividas e que me faltam ainda voltar a viver em noites de sonho.
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Porque eu sei que a vida é feita de episodios, etapas, ciclos, e estou certo de que outros episódios, etapas e ciclos estão ainda para me acompanhar, fico a aguaradar novas noites de sexo, amor e sonho.
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Sendo que o mais importante da minha vida tem sido o facto de que acho realmente que: "O Coração não Engana"!!!     
 

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