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Por razões pessoais, e algumas felizmente que poucas profissionais, tive muito recentemente, e embora contrariado, atendendo a época invernal do ano, diga-se, que me deslocar a Portugal, local que não visitava a cerca de 2 anos, e que pude constatar continuar tão ou mais ainda mal frequentado do que a quando da minha ultima passagem pelo retângulo luso.

Chegado ao aeroporto, dito internacional, da Portela de Sacavem, e se ainda o apelido com essa denominação, é porque acho que ainda não lhe mudaram o nome como fizeram a tantas e tantas outras coisas e locais que pude ir verificando, meio embaralhado e até mesmo aparvalhado, o quão diferentes estão no tempo e no modo. Infelizmente para os portugueses sem grandes beneficios em termos de qualidade de vida.

Portugal não se aportuguesou, mas sim se aburguesou minoritariamente e  se prostituiu a tudo aquilo que os predestinados proxenetas da Europa entendem aqui-ali colocar, sem que para tal uma só voz se levante para contrariar a dominação dos estranjas. Veja-se que já nem o Algarve se denomina de Algarve, mas o chamam já de outra coisa inglesada para tentar vender a imagem… e só ainda não tem nada que ver com a nobre palavra “m****” porque poderia ofender os nobres cheiros do Tamisa… muito embora a qualidade da região esteja a cair a olhos vistos…

Mas dizia eu, que chegado ao tal dito cujo aeroporto, repito, também dito de internacional, e após cerca de 8 horas seguidas de voo, eis que fui presenteado, logo a chegada, não com uma exibição dos Pauliteiros de Miranda do Douro, ou um qualquer rancho  folclórico das Beiras, mas com uma verdadeira maratona de, e não querendo exagerar, uns bons 2 km, de labirínticos corredores até conseguir heroicamente chegar a zona de fronteira e recolha de bagagem. Digo eu, mas não posso esquecer os restantes companheiros de viagem a que nem sequer escaparam do suplicio os elementos da tripulação da TAP que por certo vão participar com muito êxito na próxima travessia do Tejo, tal o numero de vezes a que tem de se sujeitar a tamanha prova de esforço e gloria ao longo da sua carreira profissional.

Não sei, e muito menos, me, interessa, saber o nome com que batizaram a criatura de quem terá sido a superior sumidade aparvalhada de desenhar uma aberração tamanha. Não duvido que tenha sido de-formada em uma qualquer universidade independente de vão de escada, é que só de locais desses podem sair obras com o arrojo de tamanha ineficiência social, que só pode levar a que milhares de turistas procurem a muito curto prazo outros locais para correrem maratonas menos dolorosas dentro de um edifício que se queria simples e o mais funcional possível.

Quem obviamente aprovou a construção, isso todos sabemos, e tem que ver com largos interesses nos racios de custos de metro cubico de betão, mais alvenarias, menos ou mais cabo elétrico, mais ar condicionado com as centenas de metros de ligações e afins, mais… mais… da mesma roubalheira que já todos percebemos existir em quase cada esquina da sociedade portuguesa atual.

É um autentico fartar vilanagem!!!

Sacar enquanto podem…

Dizer ainda que os gastos com tamanha obra devem ter sido incomportáveis para o Orçamento Geral do Estado, e assim se pode verificar para onde esteve, e ainda esta, a ir o dinheiro dos impostos sacados  religiosamente aos portugueses, bem como para onde vai ter que ir o dinheiro a pagar a Comunidade Europeia, que embarca nestas aventuras quixotescas, porque obviamente existem muitas empresas engajadas politicamente no Parlamento Europeu e na Comissão Europeia, sempre interessadas em meter a colher nestas magnânimas obras.

Acho que José Manuel Durão Barroso vai passar a história não tanto como presidente da Comissão Europeia mas mais como mestre de cerimonias em namoros politicos e conhecido mestre de obras entre multinacionais da finança e do betão…

Posto isto, e muito ainda poderia referir para já não falar nos custos de manutenção do local, bem como a energia que se gasta em cada hora de iluminação artificial e funcionamento do ar condicionado ligado para manter o labiríntico corredor com ar… para alem da necessária limpeza,  manutenções variadas, etc… Quanto a divulgação de Portugal e das suas ainda existentes belezas naturais nem um simples cartaz a anunciar as festas da Senhora da Agonia… ou o concerto da fadista nacional do momento no Coliseu de Lisboa ou no caixote da musica do Porto.

Coisas que só acontecem em Portugal, o tal País governado de e para as bananas, que ainda se continua a achar o centro do universo!

Na realidade para quem não vive em Portugal, inebriado pelo jogo de luzes a que ficam expostos diariamente os residentes, e chegados aqui, percebemos que se trata hoje de uma simples terrinha cheia de gente com uma cara de susto, envelhecida precocemente, e entristecida, com os velhos sorrisos empenhados a alguns anos, e sem o mínimo de hipótese de serem recuperados ou hipotecados a melhor preço.

Portugal é hoje sim o tal País triste do fado… do triste destino… de tudo o que os poetas foram escrevendo, e os fadistas cantando, querendo expulsar nos maus destinos.

Só que o raio do destino de infortunio do tal povo triste e acabrunhado está mesmo lá no Portugal mais profundo que foram delapidando… já só resta simples cascalho!

Que pobreza franciscana… uns quantos – poucos – com tanto, e todos os outros – muito mais do que muitos – sem rigorosamente nada!

Mas o tal nada – absolutamente nada – ainda esta para vir com a chegada do fim dos fundos comunitários e a exigência do pagamento da extensa fatura de décadas de abusos políticos, sociais e econômicos.

Quando chegamos a dita fronteira de entrada no espaço europeu, deparamos com solícitos funcionários que olham para os passaportes como autentico porco a olhar para um colar de perolas, confrontando a cara da foto tridimensional com a realidade visível da criatura postada a sua frente. Dão duas passadas nas folhas para lá, e mais umas três para cá, e devolvem o passaporte sem ao menos aplicar um simples carimbo de confirmação de entrada na tal Europa que dizem esta cada vez mais blindada a entrada de ilegais e outras criaturas que vivem saltando de sociedade em sociedade buscando o almejado paraíso nunca descoberto.

Nas realidade, no que diz respeito a alguns turistas que comigo viajavam, pude verificar uma mais do que criteriosa aplicação das velhas leis do Reich, com apalpação, inquirição, e outras determinantes formas de compulsiva tentativa de fazer desistir o turista de uma estadia que se anunciava no mínimo agradável. Os que surgem a salto… todos sabemos quem quem são e quem facilita as suas entradas nas fronteiras. Não podem ser ingênuos a esse pontos meus Caros, pois é bem notorio onde esta uma prostituta, um vagabundo, etc…

Será então que alguma alma caridosa me pode explicar, mesmo que muito devagarinho, para que eu apesar das minhas limitações  de não residente tente entender, como alguém pode provar oficialmente que eu tenha chegado a Lisboa – Portugal – Europa, no dia 9 de Dezembro do ano da graça de 2010… bem que eu podia ter saído pela pista do aeroporto afora, e saltado a vedação lá para as bandas da praça do relógio, que lhes daria igual. Não existe registro nem a mínima garantia de que um tal de José da Silva tenha realmente aterrado em Lisboa no voo TP0156, e ali tenha efetivamente desembarcado.

De facto desembarquei, passei a fronteira de entrada, estive na Europa até ao dia 20, mas no meu passaporte ninguém pode provar que tal tenha acontecido, pois apenas existe registo de saída do Brasil e reentrada. Vai dai, quem sabe eu tenha cometido um lapso, e por mero engano não tenha apanhado um voo para Lisboa – Portugal e sim para Marte… ou será que fui aqui ao lado ao Paraguay passando a fronteira na ponte da amizade…

A minha duvida se acentua cada vez mais, depois de ter podido ver in-loco a sociedade de marcianos em que transformaram o País a que alguns ainda chamam de Portugal.

Será que viajei a Marte num voo da TAP e a minha agencia de viagens não me avisou de nada!!!

“João Massapina”

Em Portugal, nos dias de hoje, e para além das inúmeras empresas que encerram as suas portas, e onde o trabalhador não tem o mínimo de chance de defesa em relação ao seu ganha-pão, temos o continuado surgimento de ajudas subsidiarias do tipo subsidio de desemprego ou rendimento mínimo garantido e que são sinônimo direto de aumento exponencial da classe dos parasitas.

Não que estar desempregado signifique por si só a existência em cada português de um parasita, mas com essa tal almofada protetora, de nada serve incentivar a manutenção de postos de trabalho, pois existe muito bom cidadão que até pagaria de bom grado do seu bolso uns euros extra para que no final do mês o patrão o dispense para dessa generosa oferta poder retirar a tão saborosa passagem as férias protegidas…

São estes autênticos ‘sarnosos’; aquilo que eu considero autenticas toupeiras, que escavam túneis e mais túneis de objetivação serôdia nas costas do comum contribuinte, do trabalhador leal e cumpridor de todos os seus deveres para com a Nação e os seus concidadãos.

O tal Estado protetor, qual mãe sem suficientes tetas para tanto cretino que as quer chupar, ainda assim cria mais mecanismos para dilatar a despesa publica, como é um bom, mau, exemplo as “Novas Oportunidades” que de oportunidade só tem mesmo o nome pois que; tentar transformar burros lazarentos em doutores da mula ruça é coisa digna de santo milagreiro.

Olhando para o subsidio de desemprego, e o seu aproveitamento por certas criaturas, podemos ter uma certeza absoluta de oportunismo social, vinculado no poupar no almoço fora de casa, nas mensalidades de creches e jardins de infância dos filhos e ainda poupar nas deslocações para o tal local de trabalho que era chato a beça, e que em casa se esta muito melhor… e com um rendimento garantido… até quando…

Recordo que nos primeiros tempos de Cavaco Silva como 1º Ministro, a crise era também enorme ao nível de emprego, falo obviamente de 1987 e por ai…, quando os Centros de Emprego tinha contentores de gente inscrita no famoso código 9-99-01, que significava pouca formação técnica ou instrução ao nível escolar. Mesmo assim, existia um esforço para colocar todo esse exercito no mercado de trabalho efetivo, com programas específicos para atender as necessidades, e as coisa foram sendo alteradas, graças também a uma vigilância cuidada por parte da Segurança Social que em caso de continuadas recusas nas ofertas de trabalho, pura e simplesmente cortava os subsídios.

E hoje o que vai acontecendo com essas recusas?

Ninguém sabe ao certo, mas o que se sabe é que o exercito de desempregados inscritos e a receber o tal subsidio de desemprego e o rendimento mínimo garantido não para de crescer de dia para dia.

Mas não se entenda, pelo agora descrito, que o subsídio de desemprego é um valor imenso. O problema está nos salários serem muito baixos. Mas como grão a grão enche a galinha o papo, esse valor todo somado acaba por constituir um valor astronômico no contexto da despesa nacional.

Em muitos casos e para trabalhadores que auferem salários inferiores a 1000,00 €, e que são em Portugal a esmagadora maioria, é muito mais compensador passar a receber o subsídio de desemprego, ou o RMG vivendo em casa, do que aceitar uma oferta de trabalho pouco remunerada e muito cansativa.

E viva assim o capitalismo das toupeiras no Estado Social que embora em manifesta ruptura lá vai ainda dando para manter os ideais de nada fazer e bem viver a custa de uns quantos!!!

Até quando camarada!!!

“João Massapina”

Era noite, a Avenida Epitácio Pessoa e o busto de Tamandaré, em João Pessoa, tomados por uma multidão. Carros nas ruas, fogos no céu e uma perspectiva de mudança, de união nos olhos e na atitude de cada um dos paraibanos que ali estavam. Para muitos, aquele momento marcou o fim de um ciclo político que durou 12 anos na Paraíba. A vitória de Ricardo Coutinho (PSB) encerrou uma disputa acirrada entre dois grupos, polarizados por duas famílias: de um lado Cunha Lima e de outro Maranhão.
A história se encerra com a lembrança de uma noite em que ficou marcado o rompimento político dos dois grupos, onde o principal perdedor foi o PMDB e, consequentemente, a Paraíba. A noite da festa do Campestre, em Campina Grande, ressurgiu na memória de muitos políticos logo após serem abertas as urnas no último dia 31 de outubro. Encerrava-se ali uma briga marcada por perseguições e prejuízos ao Estado.
“A Paraíba fecha um ciclo político e inicia uma nova fase de prosperidade e desenvolvimento. A vitória de Ricardo mostra que os paraibanos estavam cansados de perseguições e dessa briga que não nos levava a lugar algum”, disse o ex-governador e senador eleito Cássio Cunha Lima (PSDB).
Rompimento em uma noite de festa
Segundo o historiador José Octávio de Arruda e Melo, no livro “Conflitos e Convergências nas eleições paraibanas de 1982, 2002 e 2006″, era 21 de março de 1998 dia do aniversário do então senador peemedebista Ronaldo Cunha Lima. As mais de duas mil pessoas nunca imaginavam que, além da festa, iriam presenciar o rompimento público de Ronaldo e José Maranhão levando um partido que, esgotado o ciclo militar em 1985, tornou-se dominante, na Paraíba, ao eleger governadores, senadores, a maioria das bancadas federal e estadual em 1986, 1990 e 1994, além das prefeituras das principais cidades paraibanas.
O historiador lembra ainda que desde então, o processo eleitoral do estado, destacadamente a corrida pelo Palácio da Redenção, passou a figurar como reedição da disputa extravasada naquele terceiro sábado de março. “Essa separação não fracionava apenas um partido, mas a sociedade inteira, onde as diversas instituições – Ordem dos Advogados do Brasil, Associação Paraibana de Imprensa, federações de futebol e carnavalesca, empresariado, intelectuais, universidades e partidos – despontavam rachadas entre os grupos do ‘M’ (Maranhão) e do ‘R’ (Ronaldo)”, escreveu José Octávio.
Derrota na convenção e vitória em 2006
Logo após o racha no PMDB, os dois grupos se confrontaram na Convenção que iria indicar quem seria o candidato ao Governo do Estado. Ronaldo saiu derrotado e resolveu migrar para o PSDB levando com ele, além de Cássio, um grupo importante de políticos, a exemplo do senador Cícero Lucena. Depois da vitória da Convenção, José Maranhão se reelege governador da Paraíba.
As brigas não pararam por aí. Quatro anos mais tarde, sem ter um nome forte para enfrentar Cássio Cunha Lima que tinha realizado um bom trabalho na Prefeitura de Campina Grande, Maranhão indica o vice-governador da época, Roberto Paulino, para disputar o Governo do Estado. Apesar do favoritismo de Cássio, Paulino cresceu e levou a disputa para o segundo turno. Apesar disso, Cássio foi eleito e empatou a disputa com Maranhão.
Em 2006, os paraibanos presenciam mais uma briga polarizada entre Maranhão e Cássio. Nessa disputa, os Cunha Lima saem novamente vitoriosos depois de um segundo turno em que a Paraíba nunca mais esqueceu. Anos mais tarde, Cássio foi surpreendido com a cassação do seu mandato pelo Tribunal Superior Eleitoral (TRE) e posteriormente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). E com isso, Maranhão é novamente reconduzido ao governo em um ano pré-eleitoral o que garantiu ao governador disputar a eleição no cargo de governador.
2010 marca a quebra da hegemonia
“Cassistas” e “Maranhistas”, como ficaram conhecidos os dois grupos políticos, voltariam a novamente se enfrentar, mas os Cunha Lima optaram em apoiar um outro candidato que não fosse do grupo o que causou divergência e um racha no PSDB paraibano. O nome mais cotado, que era do senador Cícero Lucena, foi substituído pelo do então prefeito de João Pessoa, Ricardo Coutinho. Era o início de uma nova possibilidade da Paraíba ser governada por uma terceira força política que não tivesse raízes profundas com Maranhão e nem com os Cunha Lima.
“Com essa vitória, a Paraíba vira a última página e fecha um livro. Os paraibanos agora viverão novos tempos, tempos de paz, união e prosperidade. O nosso povo não agüentava mais tantas brigas onde o prejudicado era apenas o nosso Estado. Novos tempos virão”, disse Cássio logo após o encerramento do processo eleitoral que declarou Ricardo Coutinho como o novo Governador do Estado.
Para o governador eleito Ricardo Coutinho, apesar de ter em dois momentos recebido apoio de José Maranhão e Cássio Cunha Lima, seu projeto político representa o fim de um ciclo de brigas. Durante toda a campanha o socialista pregou o fim das brigas e a paz entre os paraibanos e políticos. “Precisamos olhar para o futuro e não para o passado. A Paraíba é maior do que as brigas e merece crescer sem ódio”, frisou.
Mesmo com derrota, Maranhão não desiste da vida pública
Passado as eleições, o governador José Maranhão deixou claro que apesar da derrota no último dia 31 de outubro, não pretende abandonar a vida pública, mas apesar disso a noite do Campestre estará de certa forma esquecida já que o seu principal adversário agora será Ricardo Coutinho. Muitos correligionários acreditam que o peemedebista voltará a cena como candidato a prefeito de João Pessoa.
“Mas nossa história não termina aqui. Temos compromisso com esse projeto que foi construído em mais de 50 anos de trabalho. Ficará também na memória dos paraibanos que um grupo político que foi forjado na luta, que tinha acima de tudo ideais, conseguiu entrar e sair de forma digna, em todas as oportunidades que esteve a frente do Governo da Paraíba”, disse o governador José Maranhão.
Cientista diz que vitória de Ricardo fecha ciclo de 12 anos
Para o professor e cientista político, Luiz Ernani, a Paraíba fecha um ciclo político com a vitória de Ricardo Coutinho para o Governo do Estado. Segundo ele, apesar do governador José Maranhão e do senador Cássio Cunha Lima ainda continuarem representando forças políticas importantes na Paraíba, não terão mais influência na administração estadual e se tornarão forças individuais.
“A Paraíba fecha, sem dúvida, um ciclo político que durou 12 anos na Paraíba. Maranhão e Cássio continuarão líderes, mas representarão forças isoladas. Já Ricardo Coutinho representa para a população a nova Paraíba e sem dúvida terá a chance de despontar como a mais nova força política do nosso estado, renovando assim, um período predominado por duas famílias que se revezavam no poder”, finalizou.

“Marconi”

AGUA DOCE

A água do rio é doce.

Carece de sal, carece de onda.

A água do rio carece da vândala violência do mar.

A água do rio é mansa sem a ameaça constante das vagas sem a baba de espumas brabas.

A água do rio é mansa mas também se zanga.

Tem banzeiro, enchente correnteza e repiquete.

Pressa de corredeira sobressalto de cachoeira traição de redemoinho.

A água do rio é mansa corre em leito estreito…

Mas também transborda e inunda também é vasta, também é funda também arrasta, também mata.

Afoga quem não sabe nadar.

Enrola quem não sabe remar.

A água do rio é doce mas também sabe lutar.

A água doce na pororoca enfrenta e afronta o mar.

Filha de olho d’água e de chuva neta de neve e de nuvem a água doce é pura mas também se mistura.

Tem água cor de café tem água cor de cajá tem água cor de garapa tem água que nem guaraná.

A água doce do rio não tem baleia nem tubarão tem jacaré, candirú, piranha puraquê e não sei mais o quê.

A água doce não é tão doce.

Antes fosse.

‘Astrid Cabral’

Viver não cansa o que cansa são as perguntas de quem não quer ou não sabe ter opinião própria. Os comentários de quem; não gosta de pensar, ou algumas perguntas de jornalistas que gostam de se fazer de espertos, quando muitos deles nem sabem escrever o seu próprio nome, isso sim cansa, e muito.

Viver realmente não cansa, o que cansa mesmo é ter que fazer muitas vezes de cego, diante dos colarinhos clericais que usam os dogmas para tentar ganhar de modo fantasioso, algumas almas e assim tentarem despovoar o inferno, e outros daqueles locais de que tanto gostam de falar.

Mas o que me cansa mesmo muito; é ter que gramar os que vivem das politicagens, e os cinismos dos oportunistas, ou ter que lidar diariamente com a chamada fofoca de quem não tem nenhum brio ou brilho próprio, e fala dos outros sem saber do que realmente esta a falar, pois muitas vezes nem sabe do, ou de quem se trata.

E o que me fatiga mesmo, e me deixa exausto; é ter que engolir em seco, ao ver certos empregos apadrinhados, ocupados por incompetentes que da vida apenas sabem que nasceram, mas nem sabem como tem conseguido sobreviver até ali, e isso “porra” cansa-me mesmo muito!

Me deixa deveras exausto!

Talvez por causa de muitas destas razões, e canseiras, eu um dia acabei por me cansar mesmo da política, e para não morrer cansado de tanta ‘malandragem’ e ‘hipocrisia’ resolvi cair fora desse estranho mundo, enquanto ainda era tempo de conseguir sobreviver sabendo os caminhos que trilho no dia a dia da minha vida.

Mas quando ainda vivia a política, e não da política como muitos outros ainda hoje o fazem, eu aproveitava mesmo para viver, e guardar memórias que o tempo não apaga.

Desde aquela Assembléia eleitoral da JSD do Barreiro, que passei a viver política por tudo quanto era poro do meu corpo, e por tudo quanto era tempo disponível e vida vivida. Mas mesmo assim, nunca fui egoísta, ainda consegui guardar um pouquinho do meu precioso tempo para conseguir ter alguns bons momentos de autentico companheirismo, intimidade e muitas vezes também cavalheirismo.

Ao contrario do que muitos podem imaginar o dia seguinte a uma vitória eleitoral é sempre o mais difícil de digerir, e se uma derrota pode colocar o visado numa situação de apatia e desalinho durante dias ou mesmo, algumas vezes, semanas, o dia seguinte de um vencedor é de todos os dias o mais difícil. É um dia difícil pela angustia, por não ter outro remédio que não seja assumir a vitória e encarar o desafio de ter de cumprir o programa apresentado, ou as promessas feitas durante a campanha, pois sabe que mais cedo ou mais tarde os eleitores lhe vão cobrar as letras gastas das promessas feitas.

A melhor regra para diminuir essa angustia, que nos vai acompanhando pelo tempo fora do mandato, é cumprir no mais breve espaço de tempo possível, para se conseguir libertar desse peso na consciência, e por outro lado iniciar imediatamente uma luta diária e constante na defesa e consolidação dos objetivos alcançados.

Os primeiros tempos são sempre os mais difíceis, seja por um lado pela novidade, seja também pelo simples fato de que é nesse primeiro período que os derrotados ficam bem mais atentos e, prontos a atacar-nos desde que surja qualquer dúvida ou mal entendido.

No caso concreto da JSD do Barreiro, tal não fugiu á regra, e nos primeiros tempos após a vitória, eu, e toda a minha equipa eleita, sentíamos o peso da constante observação sobre os nossos atos pessoais e decisões coletivas.

O desenvolvimento do trabalho foi-se processando na medida do possível, face ás grandes carências existentes, pela falta de recursos técnicos e financeiros, e que eram já do conhecimento geral.

Naquela época na minúscula sala da JSD, com menos de 9 m2, faziam-se autênticos milagres com os muito escassos meios existentes.

Os cartazes para as campanhas das Associações de Estudantes do Secundário eram normalmente ali trabalhados e pintados em horário que não pudesse prejudicar as atividades do Partido na sala comum, para poderem ali secar durante a noite e a manhã seguinte, período em que a sede normalmente se encontrava encerrada ou com muito pouco movimento.

Nesses gloriosos tempos os cartazes e tarjas eram desenhados e pintados á mão, pois material de propaganda já pronto, e trabalhado numa gráfica, era para nós um luxo que não estava ainda ao nosso alcance, pois a JSD do Barreiro era uma estrutura das mais autônomas e do Distrito que se possa imaginar.

Os próprios autocolantes de campanha para as diversas listas concorrentes eram ridiculamente preparados á mão em processo moroso, repetitivo e porque não dizer mesmo, vergonhoso, para a Juventude Política de um dos maiores Partidos Nacionais. Os programas de candidatura eram montados da forma mais artesanal que se possa imaginar, e posteriormente reproduzidos a preto e branco, tentando colocar o máximo de fotos possíveis e texto no mais reduzido espaço possível para poupar papel e claro o numero de fotocópias a reproduzir.

Tenho que reconhecer, que nos primeiros tempos, não fora a ajuda preciosa do Francisco Mendes Costa, e as dificuldades teriam sido muito maiores, na realidade ele nesse capitulo sabia ser um político com ‘P’ maiúsculo, pois acabadas as eleições entendeu que era com nós que teria de trabalhar. E nesse capitulo como em alguns outros colaborou de forma bastante positiva, esquecendo desde logo em termos práticos, a derrota da lista sua afeta, se bem que obviamente no seu intimo lá se mantivesse a magoa de uma derrota.

Eu achava toda aquela forma de trabalhar em cima do joelho perfeitamente ridícula, mas necessária. O que mais se poderia fazer com os meios disponíveis? Nada, mesmo mais nada, só arquitetar a resolução da questão para o futuro. Mas naquela época a verdade é que não existiam mesmo os meios financeiros e técnicos para se conseguir fazer mais e melhor, nem disponibilidade aparente dos diversos órgãos e responsáveis de nível superior.

A descoberta da existência de uma; maquina repetidora no sótão da sede, foi uma esperança temporária, para se poder assim reproduzir em quantidade programas eleitorais, pois quando contabilizados os custos da sua reparação, e o orçamento para funcionar normalmente, chegou-se á brilhante conclusão de que ficaria ainda mais caro do que se a JSD continua-se a utilizar os precários meios existentes no momento.

O partido não oferecia á JSD nada que lhe fosse útil ou proveitoso, só presentes envenenados, como aquela repetidora desatualizada, velha e podre.

Não demorou assim muito tempo até que eu entendesse que a JSD se tinha que virar pelos seus próprios meios, e a encontrar fontes de financiamento, de que recordo ainda a realização de sorteios, festas e excursões entre outras formas de financiamento relativamente rápido e sem riscos.

O Partido começou a sentir-se incomodado, pois um dos modos que tinham imaginado para torpedear a nossa atividade era precisamente o estrangulamento financeiro.

A tesoureira da Comissão Política, a Fernanda Rodrigues, geria os parcos recursos financeiros com verdadeira mão de ferro, e nós dessa forma conseguíamos ir levando a atividade a cabo com maior ou menor dificuldade.

Por outro lado nessa mesma época a minha vida pessoal era também uma roda viva. Eu nessa época namorava; com a Maria do Céu, mas a relação era já mais por obrigação do que por devoção, e dessa forma eu como que tinha uma namorada?! Uma, por dia, e sempre rodando para não me cansar ou enjoar.

Já mesmo nas semanas que antecederam as eleições para a Comissão Política Concelhia da JSD, não foram só de preparação do ano eleitoral, eu não perdia uma oportunidade de poder conviver com alguma garota mais interessante.

Reconheço que só voltei a ter algum juízo, nesse aspecto, após conhecer a Fernanda e iniciar o namoro com ela.

No mesmo dia eu conseguia sair com 2 ou 3 garotas e chegar mesmo a vias de fato com ambas, era uma loucura total nesse aspecto essa época da minha vida.

Naquela época uma das miúdas de topo do Partido e da JSD era a Vera, filha do Dr. Fernando Silva, que era na época Presidente da Comissão Política do Partido. Era uma garota verdadeiramente deslumbrante, era mesmo modelo profissional e como tal capaz de fazer parar o transito com a sua beleza e compleição física. Era naquela época o sonho de qualquer jovem da JSD e não só, e eu sem saber muito bem como tudo começou, numa festa, acabei por ficar a curtir com ela. Nesse aspecto especifico também não era nada de se jogar fora, no entanto, tanto eu como ela sonhávamos com mais alguma coisa.

Acabou por aparecer na redação do jornal um dia, ao fim da tarde, e não se fez de forma alguma rogada, mostrando desde logo para o que vinha.

Acabou por ser para mim uma grande desilusão, ao aproveitar o famoso sofá desdobrável existente nas instalações da Redação da Voz do Barreiro, pude ter a visão de um corpo realmente escultural, mas só a visão, pois, que; quando fui tocar no seu corpo, este mais parecia construído em material emborrachado, uma garota daquelas de borracha para encher com um sopro…

Tudo estava bem emborrachado e como diria um mecânico com muitas folgas, a única peça do seu escultural corpo que se mantinha sem grandes folgas era a sua magnífica vagina, muito embora ela já não fosse de todo virgem.

Depois veio a grande surpresa, pois para quem imaginava uma jovem pura e casta, acabou por encontrar uma autentica depravada no sexo oral, era mesmo a sua grande paixão e loucura e não fazia nada por menos, adorava chupar todo o liquido como se fosse chantili de um gelado.

Embora eu não tivesse como ponto assente, querer algum dia casar com uma mulher virgem, tal como imaginavam os machos latinos da época, e muito embora isso tenha vindo a acabar por acontecer, também não estava muito disponível, naquele momento da minha vida, e com a minha idade, para me dedicar a colecionar loiras platinadas. Loiras com o corpo tratado na base de tratamento hormonal e com um curso superior, bacharelato e doutoramento em sexo oral.

Nessa mesma época uma jovem amiga da Vera, mostrava grande interesse em me conhecer pessoalmente, e acabou por me ser apresentada precisamente pela Vera.

Até hoje, não sei se por influencia pessoal da amiga, ou mesmo por sua opção pessoal. O que sei é que não largava os locais que eu freqüentava e começou a aparecer inclusivamente na redação do jornal com as desculpas mais esfarrapadas, como ver fotos de arquivo, pensava que a amiga estava por lá, enfim um sem numero de argumentos sem muito nexo.

Sei que a Isabel tinha pouco mais de 18 anos, e descobri também depois que tinha uma vontade indomável de fazer sexo, e o mais interessante é que ela embora ainda fosse virgem, adorava sexo anal, e ser de preferência penetrada em pé.

Acabou por me confidenciar que desde os 14 anos tinha vida sexual ativa, embora até aquele momento fosse virgem, e a razão dessa situação era só uma; o grande segredo da sua vida. Quem a iniciara na vida sexual fora o seu próprio irmão, mais velho 3 anos, e como tal tinha medo de ficar grávida dele, mesmo com preservativo, tinha imenso receio. Eu fiquei extasiado com aquela história, como era possível uma situação daquelas, com o próprio irmão, e ainda por cima ela afirmava que mantinham um relacionamento intimo muito freqüente, umas duas ou três vezes por mês.

Quase que não dava para acreditar, acontecia cada situação na minha vida intima e pessoal, e ainda para agravar mais a situação, acabei por ter que lavar eu próprio o sofá da redação com uma escova, água e sabonete liquido de mãos, pois um belo dia aconteceu o inevitável e ela passou por decisão própria á categoria de plena mulher.

Das poucas vezes na minha vida em que tive receio de ter engravidado alguém, sem querer, foi nessa época e com essa jovem, acho mesmo que ela estava a fim de ficar grávida, pois não tomou nenhuma providencia e fez mesmo questão de se tornar mulher comigo sem tomar nenhuma cautela.

Eu, no entanto, por um lado era mesmo inconsciente e por outro devia ter algum mel, nessa época da minha vida, pois que acabei por ser apresentado; pessoalmente, a uma betinha do Barreirense, sua amiga, que me telefonava todos os dias para marcar encontros. Ao principio até pensei que fosse combinado para me testar, depois confirmei que não, e assim um dia lá nos encontramos na Avenida da Praia.

Não perdeu muito tempo e a sua conversa foi curta e direta, acabei por ter relações com ela na muralha, perto de onde existia um Guincho/grua instalado num passadiço, logo ao lado do Clube de Vela do Barreiro.

Agora a ironia era que não sei se era moda da época, mas adorava ser penetrada analmente e de pé. Devia ter uma grande coleção de calcinhas, pois todas as vezes que nos encontramos aproveitava-as para se limpar, e para limpar o meu pênis e depois; atirava-as ao rio, não sei se para ter sorte, ou para evitar alguma contrariedade em casa.

Acabou por casar com um jogador de basquete do Barreirense, e sempre que me encontrava, brincava dizendo que continuava a comprar calcinhas e como tinha a gaveta cheia, gostaria de escolher algumas para mandar fora e, portanto; era importante combinar alguma coisa. Posso assegurar que nunca mais ajudei a gastar as calcinhas da betinha do Barreirense, embora a ela; vontade não lhe faltasse.

É verdade que a minha memória como a de todos os humanos também tem falhas, e neste caso nem foi a bebedeira que apanhei no Alburrica Bar que me levou a esquecer o nome. É mesmo verdade que consigo fechar os olhos, reviver toda a situação, mas; de forma alguma consigo recordar o nome da alma caridosa que numa celebre noite, dominado pelo álcool em excesso no sangue, teve a rara paciência de me ajudar a caminhar desde a zona do Barreiro velho, até em frente da atual Santa Casa da Misericórdia, ali bem perto da antiga clinica do meu amigo Dr. João Nunes Feijão.

Recordo sim que foi uma noite ridícula em que eu já algo, para não dizer muito, embriagado, e bem alegre, comecei a curtir com ela ainda no Bar, e viemos todo o caminho na pura balada. Ficamos ali porque ela morava próximo do local, na Avenida Dom Afonso Henriques, muito próximo da casa dos pais do Álvaro Ferreira, e o mais ridículo é que acabamos por fazer amor em cima de um banco publico em plena via publica, no meio da madrugada.

Quem conhece o local sabe que é uma das artérias com mais freqüência de transito na cidade do Barreiro, seja a que hora fora, mas que a minha, nossa, inconsciência deu para isso, lá disso não posso duvidar, porque realmente aconteceu, bem ali, naquele mesmo local, que ainda hoje preserva os mesmos bancos.

Aconteceu-me cada coisa, nessa época da minha vida, realmente!…

Recordar hoje essa especial época, até me deixa algo atônito, com alguns fatos inesperados. 

Claro que com a realização das eleições as coisas acalmaram um pouco mais, e tinha que dedicar mais tempo á política que aos prazeres íntimos. Daí que face ao estado em que encontrei a Concelhia da JSD, tenha passado a dedicar-me a um tipo de política mais de acordo com relações publicas do que aquilo que possam imaginar face aos relatos anteriores.

O meu conhecimento com o Nuno Silvestre, Presidente da Distrital de Setúbal da JSD, nasce precisamente no dia das eleições para a Concelhia do Barreiro da JSD, e apesar de todas as vicissitudes políticas ao longo do tempo, mantivemo-nos sempre amigos, fora da política.

Hoje uma certa angustia me percorre, por já não o conseguir contatar á algum tempo, embora saiba que voltou a casar, desta feita com uma cidadã Cubana, e que divide a sua vida entre Almada e Havana.

Enquanto Presidente da Distrital de Setúbal da JSD; o Nuno ia vivendo das suas idéias dispersas, jogadas de bastidores, expedientes, utilizando sem controle os recursos financeiros que o pai, conhecido e respeitado advogado, lhe havia deixado, a ele e á irmã, e sempre vivendo como eterno estudante de direito da Universidade Lusíada.

A sua imagem estava sempre refletida no espelho diário da alcoolemia, com um aspecto e comportamento muito distorcido do que deveria ser um Presidente de uma organização política de juventude, e, sobretudo a de um Deputado da nação, como chegou a ser.

Embora, vezes sem conta avisado por nós, os seus verdadeiros amigos, sobre a imagem negativa que criava em volta da sua pessoa, acabou por cair nas ratoeiras que ele próprio criou com a sua teimosia, que o conduziu ao desastre político e ao conseqüente ostracismo total.

Hoje refeita a sua vida pessoal, após o casamento falhado com Helena Quintela, vive com uma cidadã Cubana e tanto quanto consigo saber esta pessoalmente bem melhor, em termos de controle pessoal.

É também por estas alturas que; sem eu saber muito bem como, me surge uma atração pessoal, pela morena tesoureira da Comissão Política, e foi assim como tiro e queda, de um dia para o outro que começamos um relacionamento que obrigou ao fim da relação que eu mantinha com a Maria do Céu, e também ao fim das minhas muitas e variadas loucuras intimas daquela época.

Ao contrario do que eu poderia imaginar, foi mesmo essa situação que criou tumulto na Comissão Política, uma situação que a oposição tinha de certa forma conseguido geral.

Elas estavam as duas na Comissão Política, o que pessoalmente de forma alguma me agradava, ainda mais que uma era tesoureira e a outra vogal, assim tinham que trabalhar em conjunto, no mínimo falar sobre verbas para a atividade de cada uma. Esta situação acabou por gerar uma autentica guerra campal no interior das reuniões da Comissão Política, tendo como centro da discórdia a minha pessoa, e logo eu que queria preservar a união da equipa.

Realmente eu, de uma forma ingênua, queria tentar conseguir manter a mesma composição do órgão, mas tal tornava-se de dia para dia cada vez mais difícil, se não mesmo impossível de atingir.

Até que constatei, que se tinha iniciado um processo de absoluta falta de confiança na Maria do Céu. Esta transmitia na integra as resoluções das reuniões da Comissão Política aos elementos da oposição, que por sua vez sem o saberem tinham elementos no seu seio que me iam transmitindo também o evoluir de toda a situação e o que se passava no lado contrario.

Decidi solucionar o problema á minha maneira, e para tal tentei que o afastamento fosse por sua livre iniciativa, mas ela, política e socialmente inexperiente, imaginava que poderia criar obstáculos, incluindo a queda da própria Comissão Política. Na verdade até ao dia de hoje eu sempre fui um ser de extremos, e quando colocado perante certas situações, eu vou até ás ultimas conseqüências para acabar com as questões, e não deixar qualquer possibilidade de retorno de cada situação.

Dessa forma defini que como ela não abandonava a Comissão Política, iria ser eu próprio a colocar o seu lugar á votação para saída e ponto final. A reunião marcada para tratar desse assunto acabou por ser bem mais tumultuada do que eu poderia imaginar. Acabou por decorrer num ritmo de insulto, a ponto de em determinado momento ela ter perdido a compostura e me ter ameaçado com uma estatueta de pedra com o busto de Francisco Sá Carneiro.

Foi então o fim, eu que nunca recuo perante uma ameaça, não resisti, e já farto de toda aquela situação, ainda mais que ela; já tinha sido demitida pela Comissão Política, por unanimidade dos presentes, perante a ameaça de levar com um busto de pedra, lancei-lhe um valente soco que ainda hoje recordo a ter levado a pura e simplesmente voar sobre a mesa e ir cair junto da porta do gabinete.

Só a pronta intervenção do meu fiel amigo e colaborador Antonio Melro, impediu nova investida minha, que exigi desde logo que fosse colocada fora da sala e mesmo das instalações da sede, assim como a marcação imediata de uma Assembléia Concelhia, para esclarecimento total da grave situação. Eu agora não a queria fora só da Comissão Política, eu exigia a sua saída da JSD e do Partido.

Obviamente que a situação passou a ser o assunto do dia, e durante alguns dias, tanto a nível local como Distrital, o tema central era que o Presidente do Barreiro, se necessário matava a cobra e mostrava o pau. Mas eu assumi pessoalmente toda a situação e não recuei um milímetro, muito embora muitos sugerissem um pedido formal de desculpas á senhora.

Eu quando assumo uma atitude, sabendo que tenho razão, seja a que titulo for, ou com quem quer que seja jamais peço desculpas a ninguém. E mais uma vez assim aconteceu.

A primeira Assembléia Concelhia, decorreu numa acalorada tarde de Sábado, com o salão a rebentar pelas costuras e com todos os elementos da oposição presentes, e tendo como assunto principal não a política local e a execução do programa da Comissão Política, mas eu fiz questão de iniciar precisamente com a situação criada por questões pessoais no interior da Comissão Política. Acabei por ganhar em toda a linha essa Assembléia, onde inclusivamente fiz votar uma moção de confiança, que acabou por ser votada com uma expressiva e esmagadora vitória minha, para não deixar qualquer duvida, fosse a quem fosse.

A Maria do Céu abandonou a sala vergada ao peso de uma expressiva derrota, bem como a oposição, que a apoiara, e se servira dela como cobaia de ataque político. Solicitou por escrito a sua saída de Militante, no dia seguinte. E como estava tão certa da sua opção política, aderiu em seguida á Juventude Socialista e ao Partido Socialista.

Acabou assim por acompanhar um dos Militantes de opção variada, José Patrão dos Santos, e que pouco tempo depois protagonizou uma hilariante ocorrência comigo, que até teve direito a destaque no Semanário Nacional Expresso.

Assim, quando, uns meses depois, convidei a Juventude Socialista para um Seminário sobre autarquias locais, foi ele próprio quem respondeu, utilizando papel timbrado da Comissão Política Nacional, e devolvendo o convite mandando-me á “merda”. O que como se entende desde logo, mereceu o fim da sua muito precoce carreira política.

Quanto o romance com a tesoureira da Comissão Política, posso dizer que foi um êxito de tal forma conseqüente que acabamos casados por 18 anos, e após divorcio amigável, somos hoje muito bons amigos, tão somente amigos.

Mas na política concreta, tudo tem que se entender de forma rápida, por parte daqueles que acabam de chegar, e nós entendemos na Comissão Política e de um modo nada demorado, que afinal os meios realmente existiam só que estavam vedados a algumas estruturas como a do Barreiro.

Tanto cartazes como autocolantes e outro material de propaganda existia já pronto, e em boas quantidades, mas era controlado pelos membros da Distrital e orientado em termos de distribuição somente para Concelhos afetos á Distrital como Almada, Seixal, Montijo e Setúbal, os restantes Concelhos, tidos como opositores da Distrital, tinham que se virar como podiam ou conseguiam imaginar.

Quem era membro da Distrital, recebia os apoios conforme os seus apetites e como o Barreiro não era membro com representação na Comissão Política Distrital, e era até então considerado oposição, estava á margem desse rateio de material.

Essa foi uma das primeiras batalhas a vencer. Conseguir convencer que não tínhamos nada que ver com o passado e muito menos estávamos simplesmente interessados ou com vontade de apoiar uma Comissão Política Distrital pelo simples fato de; potencialmente graças a isso, passar a poder ter apoios materiais. Nós assumimos desde a primeira hora que queríamos ser independentes, com idéias próprias e receber só aquilo a que tínhamos direito, nem mais nem menos, somente isso.

Nessa época, a Distrital de Setúbal da JSD tinha como Presidente Nuno Silvestre, que era oriundo de Almada, um individuo nado e criado no meio do mais puro e duro caciquismo político eleitoral, sem qualquer duvida ambicioso mas que acabou por se tornar dependente e limitado devido a varias dependências pessoais e políticas. Assim a nível pessoal a sua constante dependência do álcool era incrivelmente condicionadora da sua atuação, e por vezes tornava hilariante a sua coordenação do dia-a-dia, com constantes atrasos na sua presença a vários compromissos e falta de rigor e objetividade no cumprimento de acordos.

Por outro lado, o Nuno em termos ideológicos, vivia emparedado entre um gênio, hoje Juiz de Direito, Fernando Jacob, que era na realidade o cérebro da Distrital e de toda a sua ação política e a organização e o controle do Secretário-Geral, Antonio Mourinho. Por outro lado contava com o apoio, em termos de votos, de toda restante equipa de membros da Distrital, que ele escolhia criteriosamente e que dessa forma possibilitavam a sua manutenção e eternidade no poder.

Tenho a clara noção, de que a minha entrada no circulo político da JSD Distrital, foi inicialmente vista com muitas reservas. Eu não estava incluído na estratégia de controle, e era tido como alguém incontrolável pessoalmente, alguém com idéias próprias e que vinha de fora do sistema e que tanto poderia ajudar como prejudicar toda a nomenclatura, dependendo da minha posição futura.

Era independente demais para os gostos da maioria, que sempre funcionava com as tendências políticas de cada um.

Sei também, que foi um fato muito importante o estudo sobre ao que vinha. A aproximação de alguns Presidentes Concelhios foi desde logo para mim visível em termos de intenções, uns na tentativa de capitalizar apoios e outros para tentarem estudar e perspectivar qual poderia ser o comportamento futuro da Concelhia do Barreiro, e minha a titulo pessoal, em termos de apoio á Comissão Política Distrital de Setúbal da JSD.

Desde o inicio que o comportamento de Presidentes Concelhios, como o Simão Cortiço do Montijo, foram vistos por mim, como claros observadores a mando da Distrital. No entanto também eu desde logo decidi estudar os posicionamentos de cada um, e se no caso concreto de alguns o seu relacionamento para com a Distrital era de total sintonia, como eram exemplos Alcacer do Sal, como Alberto Carreira e o Seixal, com o Paulo Fidalgo, já, por exemplo, precisamente o Presidente do Montijo, me deixava serias reservas. Era, no entanto, o Simão Cortiço, em quem o Presidente da Distrital muito confiava, ou utilizava, mas que para mim era simplesmente um jogador que já tinha inclusivamente apoiado a oposição, e só mantinha a sua posição ao lado dos atuais lideres por claro e evidente interesse e proximidade ao poder.

Naquela época outros exemplos deste jogo dúbio eram o Jorge Alegria de Setúbal e o António Vieira que embora vindo do Seixal não era Presidente Concelhio, como o Paulo Fidalgo.

Existe um velho ditado que afirma:

“Não é com vinagre que se apanham moscas!”

E aplica-se na integra aquela época da Distrital de Setúbal da JSD, que foi confrontada com a exigência de apoios para os Sócio-Estudantis, sendo que nessa época a responsabilidade dessa área era do Paulo Fidalgo, do Seixal, Jardim Ferreira de Almada e do Helder Pisco de Setúbal.

Como a Distrital não queria criar um novo foco de oposição, o Barreiro passou a ter material para poder concorrer ás Associações de Estudantes em pé de igualdade com outros Concelhos. As quantidades iniciais eram bem diminutas, diga-se, mas era bem melhor e mais pratico do que não ter nada, e ter que manufaturar todo o material.

A curiosidade sobre a nova realidade da JSD do Barreiro era enorme, de tal forma que poucos dias após a nossa tomada de posse, éramos convidados para as mais variadas iniciativas, de onde destaco a para que fomos convidados para participar numa festa na Praça de Toiros do Montijo, em que iria estar presente o Presidente da Nacional da JSD, Carlos Miguel Coelho.

O Barreiro, tal como aconteceu ao longo dos meus mandatos, como Presidente da JSD, compareceu em força, de tal forma que até acabou por ser organizado um jogo de futebol entre as duas Concelhias.

Recordo esse importante dia, como um dos que marcam a minha vida na JSD, na política e mesmo na vida pessoal, por vários motivos.

A JSD do Barreiro passou a ser vista com outros olhos e respeitada no Distrito, e eu tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o Presidente da JSD Nacional, que por alguns relatos já escutados, tinha alguma curiosidade de me conhecer pessoalmente.

Acabamos por ficar bem mais de; um hora a falar, sozinhos, sentados no alto das bancadas da praça de toiros, com a festa a decorrer cá em baixo, falando sobre a JSD, sobre a Juventude de Portugal, sobre a situação política geral tanto do Partido como do País, e eu ao mesmo tempo aproveitava para saber melhor com quem lidava, pois o Carlos Miguel Coelho conhecia muito bem a realidade do País, e dos dirigentes da JSD de um modo geral, e como nenhum outro membro da Nacional.

Por outro lado, eu próprio, sentia que estava a ser; estudado, pelo Presidente Nacional, nos mais variados aspetos.

Foi de tal forma importante esta conversa, que a empatia pessoal nascida nesse momento perdura até aos dias de hoje.

O Carlos é hoje um amigo, independentemente da política e acabou por tão somente vir a ser o meu Padrinho de Casamento com a Fernanda.

A JSD ficou a ganhar de forma exponencial com esta reunião e os conhecimentos ali granjeados tornaram a Concelhia do Barreiro de certa forma previligiada em relação a outras Concelhias. Eu consegui abrir algumas portas importantes, e passei a ter como que carta branca para solicitar diretamente material de propaganda na sede nacional da JSD na Rua Buenos Aires, sempre que necessário, e estou convicto de que este voto de confiança foi inicialmente dado pela amizade e confiança criadas, mas também, e, sobretudo; pelos resultados alcançados ao nível das Associações de Estudantes do Secundário, naqueles primeiros meses e anos de gestão, e também pelas posições políticas por mim pessoalmente assumidas.

A JSD do Barreiro não mais deixou de ser respeitada a nível Distrital e Nacional, e nas eleições para a Comissão Política Distrital de Setúbal, tanto a lista dirigente, como a lista opositora, abordaram e lançaram convites efetivos para a nossa participação nas listas candidatas.

O peso da Concelhia do Barreiro, em termos de votos no Concelho Distrital de Setúbal da JSD, era nessa época, muito diminuto, pois para além da inércia do Presidente anterior em termos de novas filiações, existia ainda a imagem de que o Barreiro era oposição. Nessa época dispunha-se de tão somente 3 (três) míseros votos, assim o interesse do apoio do Concelho do Barreiro não era nessa época tanto eleitoral, e muito mais político.

Nós conhecíamos bem os chamados métodos da oposição, que eram os mesmos métodos que já tínhamos derrotado nas eleições Concelhias, e começávamos também a conhecer os métodos da chamada maioria da época. A opção perante as duas propostas de participação apresentadas foi claramente voltada para a lista então liderada por Nuno Silvestre, e eu acabei por aceitar fazer parte da Comissão Política Distrital de Setúbal da JSD, tendo-me sido atribuído desde logo a responsabilidade pela Organização e Implantação a nível Distrital. A JSD nessa época, não conseguia estar implantada em todo o Distrito e, sobretudo; a zona Sul não tinha grande implantação, nem recebia grandes apoios. As Concelhias do Sul eram assim como os parentes pobres tanto da JSD como do PPD/PSD.

Nesse mandato e no seguinte a JSD cresceu a nível Distrital de forma consistente, passando a ter estruturas em todos os Concelhos do Distrito, e hoje no seio do meu grupo de grandes amigos pessoais conto entre outros, com dois ex-Presidentes Concelhios do Sul, o Alberto Carreira de Alcacer do Sal, e o Carlos Gamito de Grandola, que para além de ex-companheiro nas lides políticas é também hoje um dos meus advogados pessoais de confiança.

Foi logo nesse primeiro ano como membro da Distrital da JSD que descobri alguns métodos pouco ortodoxos da política dos caciques. Assim existiam Concelhos com muitos Militantes inscritos nos cadernos eleitorais, mas percentualmente pouco ativos em termos de participação, quando chamados a isso, pelo que saltava desde logo á vista que algo não batia certo em termos de confronto de listagens e realidade de participação.

Por exemplo: na Concelhia de Almada existia a ironicamente conhecida lista telefônica. Era Almada um dos casos mais gritantes, e desta forma a estratégia permitia uma larga e maioritaria representação no Concelho Distrital, sendo que só esse Concelho, nessa época, detinha mais de 40% dos representantes ao Conselho Distrital, existiam moradas com mais de 30 militantes inscritos, como eram exemplos a casa do Nuno Silvestre, Julio Barbosa, irmãos Nascimento e outras moradas. O mesmo acontecia em Setúbal, no Seixal e no Montijo.

As listagens de Militantes eram controladas por elementos da máxima confiança do Presidente da Distrital, e por coincidência todos eles eram oriundos de Almada. A máquina Distrital estava assim também dominada por uma clara maioria de membros, também oriundos de Almada, que a memória ainda me deixa recordar como o Presidente, Nuno Silvestre, Vice-Presidente, Fernando Jacob, Secretário-Geral, Manuel Mourinho, e Vogais, Jardim Ferreira, Duarte Correia, e ainda, outro, elemento que esse sim a memória já atraiçoa em termos de nome. A Comissão Política Distrital era dessa forma composta por nada menos do que 6 elementos em 11, uma obvia e clara maioria.

Acabamos assim por descobrir que existiam militantes reais e fabricados, para encher simplesmente as listagens. Assim fiquei certo de que a política era uma nobre arte da sacanagem, e a ciência do possível, onde quase tudo é possível e onde quem tem o poder o exerce sem ter duvidas e dessa forma domina quem é mais astuto e quem mais consegue utilizar os benefícios e as possibilidades da direta proximidade com o poder.

Não posso provar quem individualmente montou esse esquema de fabulação e fabricação de militantes em termos de Almada e outros Concelhos. Claro que sou livre de pensar e imaginar, no entanto a situação tinha ramificações noutros Concelhos, onde um dos dirigentes locais chegou a adulterar a sua própria data de nascimento para dessa forma poder manter-se por mais um tempo em efetividade de funções na JSD, que nessa época tinha como idade limite os 30 anos. Falo do António Vieira do Seixal, que ao adulterar a ficha, mudou o ano de nascimento, passando a ficar um ano mais jovem. Claro que a falcatrua foi detectada, por mim próprio, e quando confrontado, a historia terminou por ali, passando novamente a ficar com a idade correta, e portando já fora da JSD.

A Concelhia do Barreiro crescia no numero de Militantes de forma legal, e nós ao mesmo tempo víamos a continuação do crescimento desordenado e pouco ortodoxo de alguns Concelhos. Com este crescimento o numero dos nossos representantes no Concelho Distrital crescia também, mas como que duplicava para os outros, e quando confrontada a percentagem de Militantes existentes nas listagens com a realidade, das presenças nas Assembléias Concelhias, ou noutro tipo de contatos, os números de forma alguma batiam certo.

Curiosamente, e embora fosse da minha área de responsabilidade, a organização e implantação distrital, e tivesse por mais de um vez solicitado listagens dos Militantes, nunca consegui ter em meu poder uma listagem de militantes da JSD do Distrito de Setúbal, que me fosse entregue oficialmente, ao contrário do que veio a acontecer anos mais tarde com a listagem dos militantes do PPD/PSD.

Toda esta maquina era controlada pelo Secretario-Geral Manuel Mourinho, que com o maior dos segredos do mundo, controlava esta situação, embora eu tenha acabado por ter acesso a uma copia dessa famosa listagem, arranjada por um dos colaboradores, em quem até as mãos colocariam no fogo, e que obviamente não irei, nem mesmo agora aqui divulgar.

Naquela época só uma operação de refiliação completa conseguiria colocar na legalidade todas as Concelhias, fato que eu apresentei como proposta, e não foi aceite naquela época, mas que veio a acontecer anos mais tarde no Partido, por iniciativa do Secretário Geral Rui Rio, por se ter verificado esta mesma situação fantasmagórica.

Era bastante visível que cerca de 35% dos Militantes estavam inscritos nas listagens imaginarias de alguns Concelhos.

No caso concreto do Barreiro, quando verificamos que não existia outra foram, pois ninguém queria alterar o sistema, optamos por também acompanhar essa imensa fraude, e quando na realidade se tinha direito a 7 ou 8 Conselheiros Distritais, nos com essa transfiguração aumentávamos para 9 ou 10.

A realidade era a mesma de outros Concelhos, mas aqueles, no entanto acabavam por apresentar quase o dobro das falcatruas e obviamente dos representantes.

Assim eu, e o meu núcleo duro, chegamos á conclusão de que; pouco adiantaria continuar a tentar manter uma legalidade, que ao fim e ao cabo ninguém respeitava, e só nos prejudicava, uma vez que ninguém retirava das listagens os Militantes, que tinham pedido exclusão, morrido, ou que estavam lá inscritos como fantasmas. Por outro lado a JSD do Barreiro acabou por fazer o mesmo que todos os outros já haviam feito á muito tempo. E de fato comprovo que injetou alguns militantes fantasmas, sendo os mesmos perfeitamente controláveis por nós, uma vez que todo o mundo na Comissão Política Concelhia, com responsabilidades máximas a esse nível, sabia quem tinha sido inscrito como Militante real ou Fantasma. Existindo inclusivamente uma listagem chamada de fantasma. Essa situação foi numa perspectiva máxima de que o Barreiro chegou a ter 15 Conselheiros Distritais, sendo que três destes eram pura ficção, portanto aproximadamente cerca de; 75 militantes eram fantasmas.

Obviamente que a Distrital um dia, através do Secretário-Geral, Mourinho, apercebeu-se dessa situação, mas nada podia fazer pois todos sabiam que nós sabíamos que eles sabiam que nós apenas tínhamos feito igual a tantos outros Concelhos, e nesse aspecto o Secretário-Geral estava metido até ás orelhas em todo aquele escabroso processo.

Quando hoje me falam de política limpa, eu só posso sorrir, sorrir muito face a tudo quanto sei que pode acontecer dentro da máquina da política, fatos para muitos impensáveis são, no entanto, cozinhados e consumidos no interior do mundo da política e muito em especial na situação da inscrição de Militantes e também, e sobretudo no financiamento partidário.

Enquanto responsável na JSD do Barreiro, conseguimos apurar a existência de militantes que conseguiam estar inscritos em varias organizações políticas de juventude ao mesmo tempo. O caso mais incrível era; o de um jovem que conseguia estar inscrito e ter participação ativa na JSD, na JS e na JC, chegando mesmo ao cumulo de conseguir ser Militante ativo na JSD e no PPD/PSD e ser eleito Presidente de um núcleo da JS. Falo claro do famoso José Patrão dos Santos “Zé Gú”, o homem da carta do “altamente cagando” que me foi dirigida, e que mereceu destaque nacional no semanário Expresso.

A organização do País e nomeadamente da política, permitia situações hilariantes que até á bem pouco tempo continuavam a acontecer, porque a todos interessava manter este tipo de acontecimentos.

Hoje, conhecedor de um pouco da atual política brasileira, revejo muito claramente por aqui, alguns dos vícios existentes no Portugal de á alguns anos, e mesmo alguns vícios existentes ainda no Portugal de hoje, ao nível político.

Encontram-se ainda hoje alguns jogos de caciques políticos. Tenho que reconhecer, no entanto, que no caso particular do controle de filiações, em partidos políticos, o Brasil ganha a Portugal nesse combate direto. A obrigatoriedade da publicação publica e periódica de listas de militantes, combate dessa forma de um modo muito claro e objetivo, a duplicidade de inscrições, ou ainda a Militância não desejável ou fictícia, e tudo isto de um modo muito eficaz, muito embora não respeite a privacidade de cada um.

Com o passar do tempo tornei-me um verdadeiro especialista na mais renomada arte das artes da política e com isso a JSD ganhou militantes reais e ficcionais, no entanto mais uns do que outros, e tornou-se uma estrutura respeitada e com um manancial de quadros técnicos que hoje dão cartas nos mais variados e destacados pontos da vida publica.

Também a nível financeiro a JSD criou meios de financiamento até então desconhecidos, e levou a cabo iniciativas impensáveis até aquela época.

De entre os vários motivos de orgulho destaco as festas da cerveja, com larga capacidade de mobilização, torneios de futebol com a participação inclusive em importantes torneios locais, como nos torneios do 31 de Janeiro e do Luso, com resultados muito positivos, inclusivamente com a conquista de um troféu de campeão de serie no torneio do Luso, e ida direta á fase final do mesmo.

Para sempre não posso deixar de recordar o fato de conseguir que a própria oposição interna, passa-se a colaborar de um modo efetivo nas nossas iniciativas, bem como a liberdade de criação dada ás suas próprias iniciativas.

Recordo assim com alguma emoção o saudoso Carlos Couto, adversário que venci num dos atos eleitorais para a Comissão Política Concelhia, e que mesmo assim, organizou de forma tão brilhante e inesquecível as Iª e IIª Festas da Cerveja da JSD do Barreiro, entre outras iniciativas.

Por outro lado, a JSD que até então se mostrava constantemente amorfa em termos políticos, começou a posicionar-se de forma ativa e racional e com claros posicionamentos sobre os problemas concretos que afetavam os jovens daquela época.

A sede da JSD do Barreiro passou a ser tida como um ponto de referencia diário tanto para militantes como para simpatizantes ou mesmo para jovens sem opção política que ali encontravam resposta e algum encaminhamento técnico em termos educativos, profissionais e mesmo de resolução de problemas sociais.

Virou um ponto de encontro certo para a juventude, que ali podia conviver na máxima liberdade, discutindo os seus problemas e obtendo um tipo de companheirismo raro noutros locais.

Foi assim que uma noite, um grupo de jovens procurou informação sobre um problema que os estava a afetar diretamente. O assunto tinha que ver com a freqüência de cursos profissionalizantes remunerados que estavam a decorrer na Casa dos Rapazes, situada na Quinta da Lomba em Santo André.

Estes jovens sentiam-se enganados na remuneração que lhes estava a ser atribuída, nos cursos de formação financiados pela Comunidade Econômica Européia, e que estavam a decorrer nessa instituição dirigida pelo conhecido Padre Azevedo.

No final de cada mês, obrigavam-nos a assinar recibos de um determinado valor, sendo que apenas lhes entregavam realmente metade dessa verba.

Depois de empenhada investigação chegou-se á conclusão que aquela situação era já uma pratica comum, levada a cabo em outras ações de formação anteriores, por parte do Padre Azevedo e do seu “cão de fila” Sr. Barata, responsáveis pela organização e desenvolvimento daqueles cursos.

A JSD do Barreiro assumiu a defesa desinteressada dos jovens, sendo que á data nenhum deles era Militante da JSD. Até hoje eu guardo religiosamente os documentos originais de todo esse processo.

Os alunos assinaram declarações relatando toda a situação, que foram devidamente reconhecidas notarialmente e a que se juntaram documentos comprovativos da falcatrua, tais como recibos assinados e comprovativos dos valores efetivamente recebidos e que nada tinham de idêntico com os valores apresentados nos recibos.

O assunto acabou por virar escândalo na comunicação social nacional, uma vez que as verbas ainda por cima eram da Comunidade Européia. O problema acabou por ser resolvido, contando com a nossa intervenção junto de várias entidades, incluindo o Departamento de Acompanhamento Fundo Social Europeu, e entre outras figuras, a intervenção pessoal do próprio Bispo de Setúbal, D. Manuel Martins. Uma figura rigorosa que ao principio se mostrou algo intratável, mas que colocado perante a minha objetividade como Ateu e os documentos factuais, não teve duvidas na resolução do assunto, tendo acabado por ficar meu amigo pessoal até ao dia de hoje.

Este assunto acabou por gerar uma grande luta interna com o Partido, que tomou inicialmente a posição de defesa do Padre Azevedo. Não quiseram sequer tomar conhecimento direto dos fatos sobre o assunto, chegando ao ponto de me lançarem ameaças pessoais, atitude levada a cabo pelo Presidente da Concelhia do Partido á época João Monteiro, e por Fernando Cruz o seu Vice-Presidente.

Estas duas personagens chegaram ainda ao incrível de se deslocarem a uma reunião com o Secretário-Geral do Partido, naquela época, Dr. Dias Loureiro, como que para pedirem a minha cabeça, mas; eu, tendo sido antecipadamente avisado dessa intenção, já tinha feito chegar cópia de toda a documentação ao Presidente Nacional da JSD e ao gabinete do Secretário-Geral do Partido, que amavelmente os recebeu, e de um modo civilizado os devolveu ao Barreiro com uma valente reprimenda.

Foi então que nos apercebemos que se tinha mexido em muitos interesses pessoais, instalados ao longo do tempo. Na mesma ocasião tinha-se também descoberto uma serie de vigarices envolvendo Militantes do Partido, com uma rádio local, ligada a uma instituição de solidariedade social, envolvendo ainda um responsável da Repartição de Finanças Local, que também dava cobertura a toda a situação.

Tudo acabou por ser descoberto e resolvido com amplas vitórias da JSD e dos muitos jovens que estavam a ser afetados diretamente em termos pessoais.

Lamentavelmente, e mais uma vez a igreja católica, deu cobertura a salafrários e vigaristas, e esse famoso Padre Azevedo, continua a ser ainda hoje o responsável local por aquela paróquia.

Ao longo dos muitos, anos que por ali se encontra, talvez já bem mais de três décadas, continua a fazer constantes peditórios para construir uma igreja no local, eu diria que face ao tempo decorrido e ao dinheiro angariado, e que ninguém controla, já podia ter talvez construído uma catedral.

Já nos anos 80 do século passado, as suas trapaças eram de todos conhecidas. Chegava ao cumulo de abastecer o seu automóvel particular numa conhecida bomba de combustíveis da cidade, em que trabalhava na época o Luis Filipe, solicitando o abastecimento real de mil escudos de gasolina e a exigência da sistemática emissão de recibos com valores muito superiores, normalmente de cinco mil escudos, e sempre passados em nome da Paróquia de Santo André.

Curioso o fato do Sr. Barata ter, apesar de todas as circunstancias, vindo a ser o candidato do PPD/PSD para a Junta de Freguesia, nas eleições autárquicas seguintes, como curiosa era a situação do responsável pela instituição de solidariedade social de Palhais, um conhecido Dentista, Dr. Valentim, que durante muitos anos foi o candidato local do PPD/PSD nessa Freguesia.

A JSD do Barreiro viveu nessa época uma luta diária com o Partido a nível Concelhio, no sentido de exigir o cumprimento da legalidade interna e mesmo externa, o que garantia o nascimento de inúmeras guerras pessoais.

Mas naqueles históricos tempos da JSD nem tudo era estresse, pois também aconteciam momentos inolvidáveis, contando com a participação de algumas personagens inesquecíveis.

Será que alguém que tenha vivido esses momentos consegue esquecer a importância eu tinha para aqueles militantes a presença, por exemplo, de um Licinio Seabra,  nosso incansável “motorista” com o seu insubstituível Morris Mini de cor verde. Eu penso que absolutamente ninguém!

Filho de um casal de classe média alta, o Licinio Seabra recebia uma lauda mesada para não perturbar a família em Lisboa, e assim veio parar a casa da avó no Barreiro.

A sua verdadeira família eram os amigos e claro a JSD. Acabou por ser adotado devido á sua grande prontidão, servilismo e sociabilidade, além da solidariedade, pois sempre que alguém necessitava de um transporte, sabia a quem podia recorrer. A sua inteligência deveras limitada para a área política, tinha larga margem de progressão e aceitação na área da informática, e tudo o resto era um desastre.

Quanto a conquistas amorosas:

Bom!

As jovens optavam por manter um conhecimento limitado acerca da sua pessoa, de forma a garantir sempre um transporte motorizado pontual e garantido, mas quanto ao resto; tudo ficava mesmo só por isso.

Foram conhecidas as suas empenhadas paixões, quase todas com triste fim, ou dizendo melhor, sem inicio, como a que manteve pela “Bordolinda”. Esta era uma paixão comungada com o José Reis Marques, por uma jovem bem anafadinha, nos seus noventa e muitos quilos, que lhes dedicava alguma atenção, mas que a timidez do Licinio acabava por afastar, na chamada hora H, por sua vez o “Zezé” estragava tudo com; os ataques de asneirada derivados dos vapores alcoólicos.

A Bela, ex-namorada do meu amigo, Pimenta, dedicava muita atenção a meio mundo, mas era o Licinio quem fazia simplesmente de motorista particular, garantindo ida e vinda para casa no Lavradio, fosse a que horas fosse, mas quanto a paixão e romance; nada.

Depois nasceu uma paixão do tipo “Romeu sem Julieta” pela Noelia Trindade, que não adorava muito mais do que o transporte aconchegante no Morris do Licinio, entre Coina e o Barreiro, quando queria deslocar-se á cidade, e também uns passeios aconchegantes de automóvel um pouco por todo o Distrito, tendo o Licinio como motorista e segurança.

Recordo ainda mais umas duas ou três grandes paixões, que no final não se traduziram em nada de concreto. Acabou por casar com uma enfermeira divorciada, bem mais velha que ele, e que já tinha uma filha com mais idade que a dele próprio.

As suas aventuras eram hilariantes, pois como profundamente ingênuo, propiciava-se a cair em todo o gênero de trapaças que lhe fossem preparadas, e foram muitas as ocorrências ao longo do tempo, geralmente quase todas com grande colaboração do seu carro “Austin Mini” como alvo principal.

Um dia; um grupo de amigos seus da JSD, sabendo do seu grande apego ao automóvel, resolveram simular o seu desaparecimento, e ainda por cima de um local publico, bem movimentado, junto da Boleira do Parque no centro do Barreiro, em frente ao Parque Catarina Eufemia.

Aguardaram no café a chegada do Licinio, e após conseguirem prender a sua atenção e presença no café, combinaram-se e não contentes com o simples desvio da viatura, resolveram colocar a mesma dentro do próprio relvado do Parque.

O mais incrível foi terem efetuado a mudança de local de estacionamento totalmente á mão, com a sua colocação no meio do relvado.

Claro que quando os transeuntes viram um automóvel estacionado no meio do relvado do parque, começaram a juntar-se muitos curiosos a comentar e questionar o insólito fato. Assim, e depois da obra realizada, foram regressando á mesa do café, e quando já estava reunido um bom grupo de curiosos, e quase como se fosse normal a situação, comentaram:

“… vejam bem, um louco estacionou o automóvel no meio do relvado do parque debaixo das arvores!…”

O Licinio escutou e até acabou por também comentar, que realmente só um louco poderia fazer um trabalho daqueles. Só apareciam malucos no Barreiro!

A multidão continuou a juntar-se e a questionar a situação, bastante estranha, foi então que o pessoal presente na mesa resolveu decidir ir embora para conseguir assisti, no próprio local, á reação do LIcinio, quando visse que era o seu próprio carro que se encontrava no meio do relvado.

Ao sairmos do café e ao não ver a viatura no local onde a tinha estacionado, o seu primeiro pensamento foi que lhe tinham roubado o carro e foi a risota geral perante a sua cara de aflição.

Entretanto para tudo ficar ainda mais completo, a polícia chegou ao local, para resolver a situação do carro no meio do relvado, e nós de um modo o menos estranho possível incentivamos o Licinio a apresentar mesmo ali uma denuncia pela falta do seu carro.

Finalmente decidiu apresentar queixa junto da patrulha policial e quando se dirigiu ao policia, a primeira pergunta deste foi se o seu carro não seria um Austin Mini de cor verde.

Quando ele respondeu que sim que era um Austin Mini, de cor verde, o policia não agüentou mais, e já bastante irritado desatou a falar-lhe bem alto:

“… então o senhor esta a brincar comigo, estacionou o seu carro no meio do parque, mesmo em cima da relva, e quer agora brincar comigo!”

Foi o delírio total, ver ao cara do Licinio a tentar explicar aos policias da patrulha que não tinha nada que ver com a situação, pois estava no café descansado, quando este tinha desaparecido, e que o tinha estacionado, bem li junto do passeio, e não no meio do relvado.

Tudo acabou na esquadra, e felizmente com um final positivo, pois a policia acabou por entender ter sido mesmo uma brincadeira que alguém lhe tinha feito, sem o seu consentimento.

Na verdade ele sofria muitas brincadeiras, e normalmente por causa do carro, e com este estacionado junto da Boleira do Parque, que era um dos seus locais preferidos de convívio.

Numa outra ocasião, o José Reis Marques, que nessa época andava meio político com ele, resolveu aguardar que estivesse bem entretido no interior do Bar Alburrica, nosso ponto de encontro nessa época, e veio com outros elementos junto da viatura. Despejou os 4 pneus, e ainda por cima com a ajuda do Carlos “Tete” retiraram todos os pipos dos pneus.

Já altas horas da noite, ele decidiu regressar a casa na companhia do amigo Bagorro e deparou com o carro naquele estado, com os 4 pneus em baixo.

Resolveu, no entanto, encher os pneus e com a ajuda de uma bomba de pé começou a tentar encher um dos pneus. Somente quando terminou é que constatou que os pneus não tinham os pipos, e como tal não podia fazer nada naquele momento, pois os pneus não retinham o ar.

Foram para casa a pé, tendo no dia seguinte solicitado o apoio de um funcionário de uma reparadora de pneus, para se deslocar ao local, para recolocar os pipos em falta e encher os pneus.

Claro que muitas vezes lhe esvaziavam os pneus, embora somente nessa noite lhe tenham roubado os pipos. A sua vida com o Austin Mini era que nem a do famoso cômico Inglês Mister Been, uma tormenta tal a quantidade de acontecimentos que lhe acabavam por surgir; como as pegas das portas untadas com massa consistente ou óleo dos travões, ou como incrivelmente lhe aconteceu uma vez, enquanto jantávamos bem longe do Barreiro, e lhe untaram as pegas com dejetos de cão. Outras vezes tapavam a saída de ar do tubo de escape para o ver atrapalhado, para além de mais uma boa dúzia de situações bem comuns de acontecerem a alguém com o caráter como o seu.

Agora nada se pode comparar com o que aconteceu um dia em Setúbal, junto da Sede Concelhia. Era um domingo, e tinha lugar um Conselho Distrital da JSD, e alguns elementos do Barreiro foram para Setúbal de comboio, outros de automóvel. Nesse dia o Licinio ficou de dar boleia no regresso a mim, á Fernanda ao Rui Vilela e também da Drª Lurdes Marques, namorada nessa época do Rui Vilela, e também do inseparável amigo José Marques, que de um modo algo suspeito á ultima da hora desistiu da boleia, tendo regressado com o amigo “Tete”.

Nesse dia o Carlos “Tete” deslocou-se a Setúbal na sua viatura juntamente com outros elementos da Concelhia do Barreiro. De salientar desde já que o Carlos “Tete” era um ótimo mecânico, aliás ainda hoje é essa a sua profissão, sendo mesmo um conhecido industrial do ramo, na zona de Santo António da Charneca.

O que na realidade aconteceu; foi que durante a realização do Conselho Distrital, o “Tete” conseguiu abrir o carro do Licinio e trocar os cabos das velas. O resultado na hora do impacto foi bastante positivo, ainda mais que o Carlos conseguiu fazer crer a todos que a situação nada tinha que ver consigo.

Entretanto na hora de regressar ao Barreiro, a situação tornou-se deveras hilariante. Cada vez que o Licinio dava á chave, para o motor de arranque acionar o motor do carro, era uma chuva de ‘rateres’ bem sonoros e com faíscas a sair do escape, um espetáculo incrível.

Ninguém se conseguia conter sem rir a bom rir, perante a situação e a imagem desolada do Licinio. O barulho foi tanto com as explosões que saiam do carro que; os moradores dos edifícios próximos ao local vieram para as janelas e varandas observar o acontecimento e como a situação se prolongasse ameaçavam o Licinio com a chamada da policia para terminar com aqueles imensos ruídos de explosões, na via publica.

Todo o mundo ria sem parar e o Vilela que não conseguia parar de rir, chegou a rebolar no meio do sujo asfalto sem se conseguir conter em pé de tanto rir.

Eu próprio garanto que cheguei a chorar de tanto rir. Como não havia oficinas abertas por ser domingo, o Licinio acabou por aceitar a nossa sugestão de; deixar a viatura ali estacionada e vir no dia seguinte com um mecânico resolver a situação.

Finalmente regressamos de comboio ao Barreiro, sem deixar de rir toda a viagem perante a incrível situação e o constante lamento e desalento do Licinio.

Já no Barreiro jantamos num restaurante que ficava no centro da cidade, e eis que de um modo estranho surge o Carlos “Tete” e o José Marques, para tomarem de modo disfarçado, consciência dos resultados da brincadeira, assim como se fosse ocasional a sua presença, aquela hora e naquele local.

Desde logo o “Tete” se prontificou em resolver a situação, naquele mesmo dia, para o que sugeria irem imediatamente a Setúbal desde que; o Licinio paga-se do seu bolso o combustível do carro do “Tete” e um petisco e uns copos posteriormente, lá pelas bandas das terras do Sado.

Acertaram a deslocação, e lá partiram os três para Setúbal, com as despesas da viagem todas a cargo do Licinio. Obviamente que a situação foi prontamente solucionada pelo “Tete”, sem que o Licinio tivesse a mais leve suspeita de que a origem do problema tinham sido aqueles dois supostos amigos, que agora o acompanhavam na resolução do problema.

Somente dias depois tomou conhecimento dos causadores da situação, e como já se repetiam muito as brincadeiras, passou a olhar para o Carlos “Tete” com outros olhos, e mesmo o José Reis Marques, que era um dos seus inseparáveis amigos veio a descer alguns, muitos, pontos na sua consideração.

Mas o Licinio daquela época era também um grande desportista, e como tivesse sido convocado para participar nos jogos de futebol entre Concelhias, que se iam disputar no Barreiro, logo se deslocou a uma boa loja de artigos desportivos e adquirir umas botas e restante equipamento, quase de um profissional. Chegado o dia do jogo, a equipa, onde foi incluído, decidiu, no entanto; deixar atuar o “craque” quanto muito uns singelos 10 minutos.

Foi então a chamada lamuria total, por parte do Licinio:

“… ora eu com um equipamento profissional completo da Adidas, e nem cheguei a jogar 10 minutos!…”

Reconheça-se que quem mais abusava da disponibilidade do Licinio era o José Marques que fazia dele um autentico ‘moiro’ de paciência e seu motorista particular e oficial. Por vezes a noite acabava com as normais bebedeiras do José Marques “Zezé”, que em alguns dias resolvia levava a cabo algumas aventuras dignas de um artista de circo, como, por exemplo; conseguir urinar da janela do carro, com este em andamento, ou colocar a cabeça de fora e vomitar para o pára-brisas, deixando o Licinio sem visbilidade para poder continuar a conduzir, ou tentar vir de Lisboa ou de Setúbal, até ao Barreiro, sempre com os pés fora da janela do carro, entre outras aberrações.

Outro amigo que com a sua presença compunha muito bem a imagem do carro do Licinio, era o Tomé, que debaixo dos seus cento e muitos quilogramas, ao entrar e sentar no Austin Mini, deixava o lado do pendura de rastos na estrada,  com a suspensão vergada á sua imponência para além de encher e extravasar completamente o lugar do pendura com a sua imensa área corporal.

Realmente aquele carro graças ao seu proprietário e algumas das suas companhias era mesmo mítico, e de entre muitas outras ocorrências registro ainda; o dia em que conseguiram amarrar um depósito plástico rodado de lixo á traseira do seu carro. Quando ele arrancou foi um burburinho tremendo e como só parou uns metros á frente, foi indescritível a sua imagem a olhar para o carro e para o deposito do lixo amarrado a este.

Numa outra ocasião resolveram amarrar o carro a um poste de iluminação publica, ainda por cima numa rua inclinada, próximo do Bar Alburrica. O Licinio quanto mais acelerava a viatura, maior era a risota geral de todos os presentes, uma vez que o carro não conseguia sair do local, fazendo imenso barulho com as rodas motoras, uma vez que os pneus arrastavam no alcatrão chegando mesmo a levantar fumo. Nesse dia ele ficou como que possesso perante a figura que tinha feito e a brincadeira que lhe tinham feito.

Nesse mesmo local, num outro dia, aconteceu o mais incrível que se possa imaginar, uma vez que o Vilela deixou o Licinio estacionar o seu carro, na época um Citroen praticamente novo. O Licinio, não encontrando outro local, estacionou a viatura praticamente em cima da esquina, próxima da casa do Helder Madeira, e a viatura da recolha do lixo, quando passou no local, viu-se impedida de circular. Como estivesse no interior do Bar, de nada se aperceberam, e a viatura do lixo acabou por passar arrasando o painel lateral do carro desde a frente até atrás. Parecia que alguém tinha feito uma obra de arte nas embaladeiras e nas portas. O Licinio e o Vilela quando vieram recolher a viatura e olharam para esta, iam morrendo, tal o estado em que se encontrava. Um morador do local deu a boa nova que tinha sido a viatura municipal da recolha do lixo, e quando confrontaram o motorista, este simplesmente respondeu para se deslocarem aos serviços para solicitar a reparação, uma vez que ele tinha ainda toda a noite para andar a recolher lixo, e não tinha tempo para os atender. Foi a risota geral.   

Naqueles anos de ouro a JSD teve muitos militantes que se poderiam considerar ingênuos, agora eu considero que nenhum se pode comparar nesse campo ao Licinio Seabra, uma figura verdadeiramente lendária.

Outra figura mítica da JSD, naquela época era o José Reis Marques, “Zéze”, e curiosamente a sua vida como que funcionava a dois tempos, ou seja a sua vida sóbria e a sua vida ébria.

Conviver com o Zé Marques sóbrio, era bem agradável e divertido, mas conviver com a mesma pessoa alcoolizada era algo do outro mundo, e muito difícil de descrever.

Desde que sofreu um acidente de viação na viatura do Carlos Camarão, o “Zezé” ficou com dupla personalidade, virou uma outra pessoa, um ser totalmente diferente daquele individuo que todos conhecíamos. A sua capacidade de domínio pessoal e, sobretudo; o raciocínio rápido foi profundamente afetado, o seu poder de absorção de bebidas alcoólicas pelo organismo foi também profundamente alterado, e a mesma pessoa que antes bebia com moderação e controle, passou a ser quase um alcoólatra compulsivo, pois quase diariamente era impelido a consumir bebidas alcoólicas em quantidades apreciáveis. 

Pior do que tudo isso era a sua falta de auto-controle pessoal que o transportava para estádios diversos de personalidade, iniciando com uma boa disposição e cavalheirismo total, passando depois para um estádio de euforia divertida, depois uma euforia já passando o absurdo e num estádio já mais avançado entrava na situação incomoda e sobretudo asneirenta, não medindo locais ou pessoas presentes como se estivesse a movimentar-se e agindo inconscientemente, de modo totalmente descontrolado em termos sobretudo de linguagem.

O seu fascínio pelo consumo de álcool era tamanho que chegou a manter contas abertas em vários bares do Barreiro, inclusivamente com garrafas guardadas, efetuando religiosamente o pagamento das mensalidades no preciso dia em que recebia o vencimento, e abrindo de imediato uma nova conta a ser encerrada no final do mês seguinte.

Recordo as suas diversas fases ao longo do tempo que se iniciaram pelo consumo compulsivo de cerveja, passando depois ao wisqui, vodka, gim, rum, e acabou por entrar mais tarde no consumo de aguardentes velhas e bebidas brancas, e na última fase de que ainda me recordo andava já no vinho tinto.

Obviamente que devido a alguns comportamentos mais ousados, alguns bares proibiam a sua entrada sempre que o seu estado aparentava encontrar-se já em adiantado estado de decomposição em termos de alcoolemia.

Noutros locais, e por serem públicos e de fácil acesso, a sua entrada não podia ser vedada, no entanto quando se iniciava o período de iminente caos, procuravam resolver o problema sem causar muita agitação visual. Claro que nós próprios numa primeira fase, quando o encontrávamos já perante um estado mais avançado na euforia, tentávamos retira-lo dos locais, o que era sempre muito difícil, pois nunca se considerava alcoolizado, isso era uma palavra que jamais existia no seu vocabulário, mesmo que estivesse quase a cair de ébrio.

 

Um dia, alguém com alguns conhecimentos sobre o assunto, nos disse que; muitos indivíduos nas condições do José Reis Marques, se apanharem uma bebedeira monumental, diria violenta, tem como reação direta, durante muito tempo evitarem repetir a experiência, para além de que a sua resistência ao álcool é normalmente inferior á capacidade de um individuo que não se embriaga com freqüência, que embora mais fragilizado por esse fato, como não tem problemas de índole mental, agüenta mais a ingestão de álcool.

Pensamos então testar essa teoria, e para isso combinamos um jantar na tasca do Sr. António da “Língua” em Santo André, curiosamente anos mais tarde vim a morar numa casa mesmo fronteira a essa nossa catedral da carne grelhada. Da equipa dessa famosa noite, designada para levar a efeito o teste psicológico versus alcoólico, faziam parte para além de mim, o Carlos Vitorino, Licinio Seabra e o Antonio Melro. Foi, no entanto, um teste para nunca mais se voltar a repetir pois; ele acabou por comer por cinco e beber por dez, e nós é que acabamos por pagar toda a conta, e também fomos nós que acabamos embriagados, e ele ficou são como um pero.

Existiam locais de referencia para o “Zezé” como o Bar Alburrica e a Boleira do Parque, e das muitas e variadas situações registradas nas suas visitas quase diárias ao Bar Alburrica, local onde normalmente entrava sóbrio e acabava por sair de rastos, não se pode esquecer os seus duetos com o cantor “Nelinho”, nas conhecidas canções ‘Leãozinho’ e ‘Menina estas á janela’ no entanto para além da sua componente artística, acaba por deixar sempre a marca da sua presença, com uns quantos “dixotes” a umas quantas presenças femininas que lhe caíssem no gosto, e claro mais umas quantas brincadeiras normalmente pouco ortodoxas.

A sua noite mais memorável, pela negativa, foi dividida entre os bares de Alburrica e do Clube de Vela. Tendo iniciado a noite no Bar Alburrica, e como já estava deveras bem alcoolizado, tentamos retira-lo do local afim de o conseguir levar para casa, mas as nossas inúmeras tentativas não deram êxito, como tal decidimos ir embora sem ele e partimos para o Clube de Vela, na esperança de que não vendo muita gente conhecida no local, se aborrecesse e fosse finalmente para casa pelos seus meios.

Não podíamos estar mais enganados. Como se tivesse ‘faro’ como os bons cães perdigueiros; cerca de meia hora passada, e ele fez a sua entrada gloriosa no Clube de Vela, e vinha na sua máxima força, gritando a plenos pulmões pelos nossos nomes logo que transpôs a porta de entrada, e nos viu junto do balcão. Como todo o mundo estava sentado ao balcão, e com o estabelecimento super cheio, pois decorria um espetáculo ao vivo, ele não se fez rogado e acabou por também conseguir sentar-se junto de nós.

Continuou a beber, muito embora a nosso pedido, junto dos empregados, chamando á atenção para o seu estado, e como sempre acontecia, o álcool acabava por lhe provocar profundos desvios comportamentais. Em determinado momento, e felizmente com o som da musica ambiente alto, e como o empregado do balcão finalmente se recusou a atender um seu novo pedido de bebida, desatou aos gritos:

“… eu quero um batido com sangue de uma virgem ‘mestruada’, tem que haver alguma na sala, vá apalpar e traga lá o batido rápido!…” repetia sem parar para um dos empregados do balcão.

Ninguém se conteve e de imediato todo o mundo pagou a sua despesa e saiu.

Ele não queria sair, e ainda por cima não parava de gritar, portanto ali ficou a dar o seu espetáculo muito particular.

Soubemos no dia seguinte que, obviamente não bebeu o batido tão especial, e a segurança do local teve um imenso trabalho para, o conseguir colocar fora do estabelecimento, e só mesmo após lhe terem aviado mais uma ou duas bebidas, que não obviamente o solicitado batido, o tinham conseguido convencer a sair, para além de que nenhum taxista assumia levar o individuo para casa naquele estado.

As suas cenas com vertente ordinária, quando alcoolizado de forma incontrolável, eram assim mais freqüentes que o desejável, sendo que numa outra ocasião em plena Boleira do Parque, e depois de um laudo almoço bem regado, e seguido de uns quantos digestivos, pretendia beber um café e mais um acompanhamento, ou seja um imenso balão de brandy velho. No entanto, nessa época, a Boleira esgotava a sua capacidade durante a tarde, em virtude de as senhoras da chamada sociedade barreirense ali se deslocarem para lanchar tranquilamente, enquanto colocavam as conversas de comadres e bisbilhoteiras em dia.

O “Zezé” perguntou ao insubstituível empregado, Sr. Alexandre, se por acaso iria vagar alguma mesa para ele se poder sentar, e como foi informado de que nos próximos minutos, tal no estava programado acontecer, desde logo respondeu que ia sim vagar, era só aguardar que ia vagar logo, logo. Então resolveu desatar aos gritos do balcão:

“… eu quero é ‘cona’! Quero uma São Domingos (aguardente) e a ‘cona’ de uma dessas velhinhas!…)

A situação ficou de imediato; bem confusa, com o Sr. Alexandre a tentar acalmá-lo, e se algumas senhoras, poucas diga-se, acharam alguma graça, se assim se pode dizer ou entender, graça, a um bêbado, baixinho, e barrigudo, com botas de caubói e de fatinho, como sempre andava. Outras não acharam muita ou nenhuma graça e desataram a reclamar, alto e bom som. O dono do café, o encrenqueiro Cardoso, não sabia bem o que fazer; se por um lado acalmar e defender o cliente diário de muitas bebidas, se por outro lado tentar acalmar as chiques senhoras mais exaltadas.

Depois de muita insistência lá conseguiram afastar o “Zezé” do local, e a situação acalmou um pouco.

Era impensável conseguir realizar uma deslocação sem contar com a pronta participação do “Zezé”, e de entre varias recordo especialmente três ocasiões impossíveis de esquecer.

O Partido fez uma festa de aniversario a nível nacional em Rio Maior, e como sempre sob a minha presidência, a JSD organizou uma deslocação em força, tendo sido preparada a ida para além de vários carros particulares de 2 autocarros, portanto mais de 100 jovens se deslocaram neste evento, entre os quais o “Zezé”.

O dia foi cheio de animação, e claro também de muitas bebidas, o que para o “Zezé” era uma verdadeira gloria e benção dos céus. De tal forma o dia foi animado que depois de se poder ver o “Zezé” a dançar no meio das bailarinas das escolas de samba no meio da avenida, chegada a hora de organizar o regresso ninguém conseguia encontrar o “Zezé”.

Mais tarde conseguiu-se esclarecer a situação de modo bem rápido, assim com um atraso de cerca de 2 horas, em relação á hora combinada e prevista para dar inicio ao regresso; e com o motorista do autocarro em que faltava o “Zéze”, no limite da paciência, eis que surge o nosso herói, acompanhado por uma vistosa dama, de bem mais de quarenta anos.

Explicação simples, e visível, o nosso herói campeão, andou a correr todas as tascas e tasquinhas da feira, que estava instalada junto ao local do comício festa. Acabou por, já bem alcoolizado, fazer amizade e conquistar a referida dama, que por certo também já alcoolizada o acabou seduzir, e, por o levar a passar a tarde, com alguma animação extra á mistura, e alguma aconchego, até a sua casa, onde acabaram por adormecer, tendo mais tarde acordado e vindo trazer a sua paixão, de uma tarde, ao local de onde o tinha levado para o ninho do amor.

Numa outra deslocação a Évora, num intercambio combinado com a Distrital e Concelhia de Évora, á época liderada pelo meu amigo Antonio Balão e a sua então esposa, Maria do Céu Ramos. Iniciativa que incluía um jogo de futebol de 11, durante o período da manhã, e almoço, com a tarde livre para passear pela cidade, o nosso amigo “Zéze” mal chegado á cidade, logo descobriu que o bar do Estádio do Lusitano de Évora tinha wisqui a preços quase simbólicos. Assim desde logo se dedicou a levar a cabo um verdadeiro vendaval, tentando esgotar todas as garrafas visíveis na prateleira, emborcando cálices do precioso néctar sem parar.

Já o jogo de futebol se encontrava na 2ª parte, quando ele conseguiu chegar junto da assistência, obviamente já devidamente acompanhado, por uma carraspana muito jeitosa, e também por um grupo de alentejanos que aderiram ao seu clube alcoólico, desde a primeira hora, pois por certo já eram sócios de mérito da cooperativa local de alcoólicos e afins.

Claro que como já estava na fase da animação, decidiu que se iria sentar junto do relvado, no banco de suplentes da nossa equipa, fazendo de treinador, o que constituiu uma animação extra para todos os presentes, graças ás suas ordens técnicas e táticas lançadas em altos berros para dentro do relvado.

Recordo que a animação foi tanta que as jovens alentejanas, deliravam com as suas graçolas e imensas frases de inegável paixão á primeira vista, para com damas tão gentis e belas.

Logo que lhe foi possível, aproveitou para fazer amizade mais especial com um alentejano da JSD de Évora, que também adotou o “Zezé” como sua mascote, e lhe apresentou tudo quanto era mulher. E assim se tornaram amigos inseparáveis, até á hora das despedidas para regressar ao Barreiro.

Assim chegados, á hora do almoço, e perante um salão bem repleto de militantes, e após eu e o Antonio Balão termos usado da palavra; para saudar os presentes e a iniciativa, e ainda mesmo antes de se iniciar o almoço, já o “Zezé” tinha conseguido comer de imediato o seu bife e atacar o prato do saudoso Carlos Couto, retirando de lá o bife, deixando apenas o acompanhamento.

Foi uma cena e tanto quando o Carlos Couto regressou do WC e viu o seu prato só com o acompanhamento e sem o bife. Iniciou-se uma larga discussão com os empregados do restaurante, afirmando que não tinha sido servido, e que para ele apenas tinham deixado o acompanhamento da refeição. O Carlos nem se dava conta de que ao seu lado o “Zezé”, já ia lançado a atacar o segundo bife, e ainda por cima era mesmo o seu, dando-se ainda ao luxo de solicitar aos empregados, mais batatas, arroz e até um ou dois ovos estrelados, que segundo ele; iriam muito bem com os bifes, e claro tudo regado com um bom vinho da região.

A situação do almoço do Carlos acabou por ficar resolvida por mim e pelo “To Balão” sem problemas de maior, e o “Zezé” que aparentemente tinha recuperado da primeira bebedeira do dia, acabou a refeição já numa fase muito adiantada da segunda bebedeira do mesmo dia.

Durante a tarde todo o mundo andou a conviver em Évora, enquanto eu tive uma reunião de trabalho com a Concelhia e a Distrital local. Entretanto soube, mais tarde, que o amigo alentejano andou a mostrar Évora e os seus monumentos, tanto arquitetônicos, como de carne e osso, e em especial as suas muitas tascas e tasquinhas ao “Zezé”, pelo que o seu estado era novamente lastimoso.

Quando eu fui com o Antonio Balão e outros membros de Évora e do Barreiro, a um centro comercial para lanchar, encontramos o “Zezé”, com o seu inseparável amigo alentejano, na entrada do local. Ele mal nos viu fez desde logo uma imensa festa, o que era sempre muito mau prenuncio, ainda mais que aproveitou a ocasião para solicitar a informação sobre a proximidade de um WC, ao que lhe informaram que no centro comercial havia um, era só uma questão de perguntar a um dos funcionários ou numa loja, que alguém informava a localização.

Recordo que, fomos lanchar no 1º piso e que o centro comercial tinha um jardim interior no r/ch, com alguns espelhos que refletiam um pouco do que se passava em vários ângulos.

Qual não foi o nosso espanto, quando passado algum tempo nos foi dado ver refletido em um dos espelhos o “Zezé”, a urinar do 1º piso para o pequeno jardim térreo, uma cena verdadeiramente hilariante porquanto algumas pessoas que estavam no r/ch, olhavam para cima para conseguirem ver de onde vinha aquela autentica fonte, repuxo.

Não tenho palavras para descrever o misto de riso e seriedade nos nossos rostos, perante situação tão insólita. O To Balão só me dizia que o Zezé era realmente um caso extraordinário de vitalidade e de inovação em termos de militância política…

Na hora da partida, ao fim da tarde, já ele se encontrava dentro da viatura do Licinio, quando o questionei; sobre o acontecimento do centro comercial, ao que muito simplesmente me respondeu que; Évora era muito grande e desde que acabara o almoço e tinha saído do restaurante que pedia um local para urinar, mas que o alentejano o tinha feito andar quilômetros e de um local decente para se poder urinar nada. Afirmava ainda que tinha encontrado as ruas sempre cheias de gente, e no centro comercial também ninguém lhe dava a informação sobre o WC, e depois já não dava para agüentar mais, foi melhor urinar para o jardim, que era natureza, do que contra uma parede, algo morto e imóvel…

Nem tenho também capacidade para agora conseguir descrever o que me passou pela cabeça naquele momento, mas recordo que me contive até ao extremo para não cometer alguma loucura!

Acabou por regressar ao Barreiro com a janela do carro aberta, apanhando todo o ar possível e imagino que obrigou obviamente todos os ocupantes do carro a também terem que refrescar a memória com a frescura do vento que entrava na viatura.

Chegados ao Barreiro, tudo levava a crer que; o dia teria terminado em termos de animação, por parte do nosso amigo “Zezé”. Desta forma todo o grupo decidiu ir jantar a um restaurante que ficava situado na Rua Vasco da Gama, quase ao lado do edifício do antigo Centro de Emprego, e por incrível que possa parecer ele acabou por conseguir apanhar ali a sua terceira bebedeira do dia. Encerrou a longa jornada desse dia na Boleira do Parque na maior animação possível, com as habituais cenas hilariantes de comedia musical, que é bom nem descrever, tal a situação publicamente criada, e que só a incansável paciência do meu grande amigo senhor Alexandre conseguia agüentar.

No decorrer do VIII Congresso Nacional da JSD, realizado em Troia, criei um intercambio com o então Presidente da Distrital de Santarém da JSD, Miguel Relvas, que era também membro da Nacional da JSD, presidida pelo Carlos Coelho. Assim conjuntamente com o Presidente de Vila Nova da Barquinha, ficou previamente combinada uma ida ao seu Concelho, para se realizar um jogo de futebol, seguido de almoço e convívio entre as duas estruturas de militantes Concelhias.

Depois de tudo organizado, para ter lugar num Sábado, o numeroso grupo partiu dividido em 6 viaturas. O jogo de futebol estava inicialmente marcado para as 10 horas, só que a viagem correu tão bem que mal se chegou á Moita do Ribatejo um dos carros começou a fumegar de tal forma que mais parecia um comboio a vapor. Depois de se requerer a presença de um mecânico, constatou-se que o radiador tinha encomendado a arma ao criador, e de 6 viaturas passou-se a um total de 5, passando o pessoal a ficar bem apertado, graças a nova distribuição.

Como esse dia prometia desde o seu inicio grandes aventuras, chegados muito próximo da região da Chamusca, mais um dos carros resolveu encomendar a alma ao criador, e ficou mesmo por ali abandonado, junto do portão de uma quinta. Desta feita com o motor gripado em virtude da sua junta da cabeça ter queimado, e o condutor ter observado a temperatura a subir e não ter parado a tempo e horas para salvar o que ainda restava da máquina.

O resultado foi voltar a dividir os cerca de 20 elementos pelos 4 carros restantes, escusado será dizer que o pessoal ia quase ao colo uns dos outros, e desde logo ficou combinado que; alguns teriam que fazer o regresso ao Barreiro em transporte público, por ser humanamente impossível resolver a situação com o numero de viaturas disponíveis.

Acabamos por conseguir chegar a Vila Nova da Barquinha, sãos e salvos, e muito próximos das; 13 horas. Desta forma o famoso jogo agendado para a manhã, acabou por ser alterado para depois do almoço, que já estava programado e naquele momento também já atrasado.

Assim, e como forma de, bom convívio, resolveram ofertar alguns digestivos antes da refeição, e tal como seria de esperar o “Zezé” não se fez rogado, provando duas ou três rodadas bem completas de todas as especialidades, e claro que a restante comitiva também não se fez rogada na degustação dos vinhos e moscatéis da região.

Durante o almoço, e por iniciativa inicial do “Zezé”, que abriu pessoalmente as hostilidades, realizou-se uma imensa batalha com azeitonas a voar de mesa em mesa. As azeitonas tinham sido colocadas em travessas espalhadas nas mesas em quantidades industriais.

Não sei até hoje o valor real dos prejuízos causados. No entanto, tanto as toalhas como em especial os reposteiros das janelas, que eram de cor creme viraram para tonalidades entre o esverdeado e a negritude, devido aos tiros com as azeitonas, entre os elementos de Vila Nova da Barquinha e os do Barreiro, foi uma festa imensa. Quando eu entrei na sala do restaurante com o Presidente da Câmara local e o meu homologo local, aquilo mais parecia uma arena. Apesar dos apelos a festa não terminou por ai, e nesse dia nem o Presidente da Câmara local escapou aos ataques, sempre com um sorriso algo amarelo estampado no rosto, devido á caricata situação, mas acabou por almoçar e fazer todas as honras da casa como bom anfitrião.

Seguidamente o grupo dirigiu-se a pé até á escola onde se iria realizar o jogo de futebol, e no caminho até tiveram tempo para tirar algumas fotos, para recordar o evento para a posteridade.

Eu até hoje guardo uma histórica foto, de todo o grupo, em que está também presente o simpático Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha. Esta foto tem como particularidade; ter sido tirada junto de um monumento local, tipo pelourinho, com uma escadaria em pedra, e em que é bem visível o espírito de grupo que norteava toda aquela equipa. Chegando ao ponto de um dos elementos, o conhecido “Peitinhos”, se encontrar com a ‘berguilha’ das calças aberta, simulando que vai urinar sobre a cabeça do Presidente da Câmara, que se encontrava logo abaixo de si.

Como se pode adivinhar, muito embora tenham insistido muito em ver as fotos, eu jamais enviei essa para o ilustre Presidente, que não deveria ficar muito satisfeito ao se ver retratado com alguém a simular uma “mijadela” em cima de si, e um outro a colocar-lhe um para de “chifres”.     

Mas se eu imaginava que os acontecimentos fora da normalidade já tinham terminado, estava profundamente enganado, pois o pior ainda estava por vir a acontecer, pois resolveram, mesmo debaixo daquele estado geral de euforia alcoólica, ir participar efetivamente no jogo de futebol.

Claro que acabaram por jogar, mas ninguém me pergunte qual foi o resultado final do encontro, pois não recordo. Estive todo o tempo ocupado tentando resolver outras situações, por isso recordo sim que tive que andar a apaziguar os ânimos de muita gente, pois as namoradas dos jogadores do Ribatejo resolveram ir assistir ao jogo, e com ‘piropos’ daqui, ‘piropos’ dali, tudo acabou por descambar quase numa batalha campal, dentro e fora do campo de jogo.

Recordo ainda que o “Zezé” era na bancada uma atração á parte, devido ao seu entusiasmo no meio da confusão, gritando maravilhas sem fim para as jovens de Vila Nova da Barquinha, como, por exemplo, que; “eram boas como o milho”. Piropos que caiam bem nas adeptas femininas que sorriam sem parar, mas que deixaram os Ribatejanos ainda mais furiosos.

Face a este clima fora do campo de jogo, a temperatura aqueceu também dentro do campo, o desafio estava bem duro. Alguns dos nossos garbosos atletas até resolveram, para animar a assistência, baixar os calções mostrando o rabo, e quando desafiados pelas jovens do Ribatejo, uma vez por outra, a mostrar coisas menos decentes, para se mostrarem em publico. Em clara resposta a alguma atrevida que gritasse pessoalmente algo de importante para a mentalidade do atleta, ou ainda que clamassem alto e bom som; despe… despe…, bonzão despe se és homem…

Foi um dia para comemorar o hino á autentica luxuria. Eu enquanto Presidente da JSD, e face aos acontecimentos ocorridos nesse histórico dia; jamais voltei a; permitir a realização de jogos de futebol depois de almoços ou jantares que fossem regados a álcool.

Como podem também imaginar, a segunda parte deste intercambio também jamais se realizou. Até hoje a JSD de Vila Nova da Barquinha, ainda não retribuiu a visita ao Barreiro, pelas razões que obviamente se podem compreender, e muito em especial porque os namorados ciumentos não queriam deslocar-se acompanhados, com receio de que os ares do Barreiro pudessem contaminar e ornamentar as suas testas.

Mas nem só de acontecimentos via JSD era feita a vida do “Zéze”. Ele aproveitava a sede da JSD e do Partido, como seu ponto de encontro, para dali sair para conquistar o seu mundo, com aventuras incríveis, como as suas viagens ao famoso “Night an Day” situado em Lisboa numa das transversais da Rua Conde Redondo, onde se apaixonou perdidamente por uma das prostitutas de serviço na casa.

Durante um largo período o “Zezé”, só conhecia um caminho; era Lisboa, e o conhecido bar de alterne. Muitas vezes, eu diria mesmo que demasiadas vezes, ou sistematicamente, ele apenas queria ir ao local para ver aquela sua perola. Uma dama já bem entrada na idade, que se conseguia transfigurar muito bem, debaixo de pinturas bem trabalhadas e por certo uma cinta bem vestida para conseguir moldar os seus quadris nas medidas certas que já á muito tinham passado naturalmente pelo seu corpo.

Mas o local era também a perdição de alguns dos seus companheiros de aventura, assim o Manuel Correia, filho do saudoso Enfermeiro Correia, apenas se deslocava para fazer companhia, uma vez que não arranjou por ali nenhuma paixão. Já o Carlos “Téte” também conseguiu encontrar por ali uma paixão e até o milagre, que se tornou anedota hilariante, de conhecer uma prostituta que se dizia virgem, que lhe afirmou ter sido ele o primeiro homem da sua vida. Ela conseguiu inclusivamente explicar ainda ao inocente “Téte” que só não tinha sangrado na primeira noite em que se encontraram mais intimamente porque o pênis dele era muito delicado…

Claro que o Carlos passou a fazer parte do anedotário geral e motivo de larga risota por parte dos militantes da JSD. Havia até quem perante as suas viagens a Lisboa referisse com ironia; “O Tete vai ao santuário do Conde Redondo visitar a Virgem Maria!…, quem sabe se ainda não vai virar um S. José!”

Já o Paulo Jorge, mais conhecido por “Paulo Grande”, conseguiu encontrar a mulher da sua vida sexual, também por ali. Imagine-se conseguia sair numa única e mesma noite, três vezes seguidas com a mesma prostituta, só para ter o prazer de ir com ela para o quarto, porque segundo ele dizia nunca tinha encontrado uma mulher assim tão deslumbrante, nas artes do sexo.

Já ela não podia dizer o mesmo, e acabou por se queixar de que iria passar a esconder-se, pois era terrível ter relações com o “Paulo Grande”. Segundo ela referia o seu órgão genital era realmente muito grande, provocando-lhe dores horríveis durante a penetração, e que chegava ao ponto de lhe tocar nos ovários… Devia ter razão, pois o seu nome tinha nascido por causa dessa mesma situação ser amiudadas vezes referida. Muito embora o Paulo tenha uma estatura elevada, as namoradas comentavam muito essa particularidade e daí o “Grande”, e por outro lado uma vez uma jovem curiosa tudo fez para testar essa situação, e segundo contavam as amigas; nunca mais se iria esquecer, pois teve que recorrer aos serviços da urgência do Hospital do Barreiro para ser cozida num determinado local, mais apropriado para outras situações ou outros tamanhos menos generosos, mas claro que gostos não se discutem.

Mas o Paulo ainda me veio a ser útil, uns meses mais tarde, quando consegui deixar-lhe de herança uma namorada relâmpago arranjada na Moita, e que já se estava a tornar incomoda. Assim devido ás inúmeras visitas do “Zezé” á discoteca “Naufrágio”, eu ganhei esse premio. Foi também ali que o “Zezé” descobriu uma, outra, paixão da sua vida, onde costumava ir comigo, com o “Téte”, Paulo Grande, Tó, Antonio Melro e muitos outros companheiros e amigos da JSD.

Realmente a Discoteca Naufrágio, situada na Moita, era naqueles anos 80, algo de muito bom a nível de presenças femininas, ali passava a fina flor das mulheres da Moita e arredores, que freqüentavam constantes festas e outras animações realizadas naquela discoteca. Nós passamos a ter cartão de ingresso VIP, e a não falhar quase a nenhum importante acontecimento, passando no local alguns bons momentos.

O “Zezé” acabou por também desenvolver por ali uma paixão, desta feita com a empregada do vestiário de entrada, e quase não entrava na discoteca, pois assim que chegava ficava ali mesmo encostado no namorico platônico. No entanto, como normalmente já vinha um pouco alcoolizado procurava conter-se e então como forma de poupar dinheiro e não piorar a sua situação, de meio sóbrio, ia bebendo copos de água com pedras de gelo, imitando que estava a beber Gin Tonico. Pois por vezes até uma rodela de limão colocavam para satisfazer o seu pedido.

Lamentavelmente mais tarde voltava tudo ao normal, e o “Zezé” acabava por apanhar a sua habitual bebedeira diária.

O Carlos Eduardo “Téte”, era importante nas nossas deslocações por varias razões; para além da sua mais que divertida presença como ‘gago’, ainda levava o seu espaçoso automóvel, que funcionava como um apartamento para solucionar alguma urgência do momento.  

Dizer que o “Téte” ficou batizado com aquele nome, devido à sua gagues constante, e que numa das nossas idas a Lisboa provocou a risota geral. Ao abastecer o carro de combustível, o pessoal questionou quanto devia colocar ou se devia atestar o tanque, ao que ele respondeu:

“Pra ates… atestr é té… te… e meia”

A partir desse dia ficou batizado como “Téte”!

Um dos fatos mais curiosos e interessantes destas nossas deslocações á Moita, á discoteca Naufrágio, era que tanto eu como o Tó estávamos a poucos dias de nos casar, e portanto aquilo era para nós como que uma despedida de solteiro continuada. O “Téte” por seu lado já namorava a sua atual esposa, e para todos os efeitos éramos todos bons rapazes e sem compromisso. Foi assim que por ali se arranjaram umas namoradas?! do tipo relâmpago; bem interessantes para ocupar algum tempo livre, por outro lado o Tó que nessa época dava aulas em Palmela, tinha a sua situação ainda mais complicada, pois também tinha arranjado por ali uma namorada extra?! e o fato de dar aulas se por um lado justificava a escapada noturna, por outro complicava a sua mobilidade. Foi jogando em três tabuleiros ao mesmo tempo, até mesmo á véspera do dia do seu casamento com a Paula, farmacêutica, e sua atual esposa. Nessa noite conseguiu estar com a namorada de Palmela para se despedir e acabar com a situação, e fazer o mesmo com a outra da Moita, o pior é que mesmo colocadas perante a situação, nem uma nem outra queriam terminar o relacionamento, aceitando mesmo o fato de ele se ir casar, e, portanto; deixar de ser um homem livre, mas elas mesmo assim o queriam continuar a ter disponível.

O “Téte” também por ali arranjou uma vistosa namorada?! Para animar algumas noites da semana, e eu conheci uma bancaria do Fonsecas e Burnnay da Rua do Ouro em Lisboa, que morava com a mãe, numa das ruas principais da Moita, não muito longe da Discoteca, com quem também passei alguns bons momentos, durante alguns dias da semana. Para todos os efeitos eu também não tinha compromisso algum, e claro que quando ia a Lisboa acompanhado, evitava sempre passar na Rua do Ouro.

Tudo se complicou quando ela descobriu que eu era Presidente da JSD do Barreiro, ao ver uma foto minha num jornal. A situação ainda se agravou mais quando uma tarde decidiu aparecer na sede, pouco antes de uma reunião da Comissão Política em que a Fernanda iria estar presente.

Nesse dia o saudoso Carlos Couto, como que segurou as pontas, pois eu tive que a afastar dali imediatamente, chegando atrasado á reunião, com a desculpa de ter ido tratar do local de uma festa para a JSD.

Como o perigo de ser descoberto aumentava a cada dia que passava, inclusivamente ela já falava em eu ir conhecer a sua mãe, e claro que o passo seguinte seria por certo algum compromisso mais serio, eu resolvi colocar um ponto final na situação. Na realidade com muita pena minha, pois; em termos de entendimento a nível sexual era uma verdadeira bomba. E foi mesmo graças ao generoso automóvel do “Téte”, que eu tive a minha melhor relação sexual dentro de um automóvel e precisamente com essa mulher. Nunca me irei esquecer da bucólica noite chuvosa em que; no parque de estacionamento da discoteca Naufrágio na Moita, de frente para o rio, foi consolidado esse raro e antológico momento. O mais irônico da situação foi que com toda a precipitação do momento, e com a intenção do regresso rápido á discoteca, ela acabou por esquecer, ou perder, as calcinhas no interior do automóvel. Este fato veio mais tarde a provocar hilariantes brincadeiras dos meus amigos para comigo, e ao mesmo tempo também sérios problemas para o “Téte” uma vez que foi a sua namorada a encontrar as calcinhas azuis e arrendadas, esquecidas no interior da viatura, por debaixo de um banco.

Nessa altura o “Téte” tinha entre outros problemas uma outra namorada extra, que lhe decorava o carro com baton e lhe deixava flores no pára-brisas, o que provocava a ira da namorada e cenas de ciúmes incríveis, para todos os efeitos, para a sua namorada, essas calcinhas eram resultado de uma escapada do Téte.

Eu sei bem o que isso pode provocar pois alguns anos mais tarde veio a acontecer-me o mesmo, com a famosa Ana de Sousa Leal, o que levou inclusivamente a uma viagem pela Europa para tentar resolver a situação.

Não que tenham ficado calcinhas na minha viatura, mas ela dedicava-se a escrever poemas com baton no para-brisa da minha carrinha Citroen, e de manhã era um tormento.

Por isso as calcinhas só vieram naquele momento agravar ainda um pouco a já de si difícil situação do Téte..

Sempre que me é permitido, revisito os locais adormecidos no espaço do tempo, e tal como o pensador e escritor Carlos Aranha, também eu faço como minhas as suas sabias palavras quando afirmo e reafirmo que amo voltar a estar alguns segundos que seja nos paraísos perdidos da minha infância e juventude.

Comigo seguem tão somente o peso dos sentimentos e dos gostos absorvidos, mas tenho que reconhecer que quem consegue praticar a nobre arte da leitura da memória, corre grandes e sérios riscos, pois conseguir lembrar coisas que a outros já esqueceu não é normal e como que se transformam fatos passados em autenticas lendas do presente.

Os fatos das nossas vida, ganham… ou perdem… sentido pratico quando afetam diretamente a nossa interioridade.

Nem sempre os que mais perto estão de nós entendem as razões e as intensidades das nossas experiências muito pessoais.

Todo o relacionamento significativo acaba por deixar marcas profundas no nosso intimo.

É exatamente na solidão do nosso barco da vida; muitas vezes quase á deriva, na sensação de que tudo pode estar perdido que acabamos por encontrar a nossa própria força para sobreviver ás tormentas da vida, aos desafios do nosso dia-a-dia da vida, e acabamos por entender a importância de ter amigos para nos ajudarem a combater os acontecimentos que nos tornam mais vulneráveis, quando os enfrentamos sozinhos.

Temos que ter sempre bem presente que nenhuma dificuldade dura para sempre, toda a tempestade é seguida por uma bonança e todo o problema tem sempre uma solução, por isso a importância dos amigos, sobretudo dos amigos verdadeiros para nos ajudarem a ter uma vida mais intensa e consequentemente realizada.